Numa coisa sou obrigado a concordar com algumas vozes críticas da classe docente. Realmente nem todas as agruras e amarguras que ensombram o nosso quotidiano têm a sua origem na 5 de Outubro ou mesmo na 24 de Julho. Algumas surgem entre nós como sempre surgiram só que quando se anda sobre brasas, até parece que dói mais.

Isto vem a propósito de dois tipos de colegas – por vezes as qualidades reunem-se num só corpo – que procuram elevar ainda mais a fasquia da burocratização imposta pelas normas, despachos, portarias, circulares, decretos regulamentares ou leis que emanam da tutela.

  1. Um deles é constituído pelos fanáticos das reuniões. Não há nada que não sirva para marcar ou sugerir a marcação de uma reuniãozinha para debater a questão, o problema ou tão só e apenas o modelo do cabeçalho das fichas de trabalho. E por vezes confundem isso com trabalho de equipa. Ora, para mim, isso é exactamente a antítese do trabalho de equipa porque é a tentativa de o forçar, a bem ou a mal. O verdadeiro trabalho de equipa, mesmo tendo momentos de reunião formal, passa pelo contacto espontâneo, contínuo se necessário, mas com informalidade entre os colegas que dele necessitam e que dessa forma trabalham. Agora uma reunião para decidir se os dossiers ficam virados para a esquerda ou se os livros se arrumam da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sendo para isso necessário ouvir todas as perspectivas sobre o tema, reflectir com muita força e empenho sobre o assunto e a prtir disso nomear uma pequena comissão para elaborar uma proposta que será apreciada numa futura reunião, embora sendo um óptimo tema para os Gato Fedorento, é coisa realmente pouco prática para uma Escola que se prenda eficaz. Mas há quem pense na inversa e há que respeitar mesmo os que aparecem em sentido contrário. Há que tentar pará-los antes que provoquem um desastre em cadeia, mas há que fazê-lo de forma gentil e desapercebida, dizem-me os mais experientes na matéria. Nunca devemos desencorajar abruptamente um(a) fundamentalista.
  2. O segundo tipo de papistas mais papistas que a dita é aquele grupo que rejubila, bate palmas e sente frémitos de emoção e prazer sempre que se adivinha, assim bem ao longe, muito ao longe, tão ao longe que podíamos bem passar sem a ver, a necessidade de criar um novo impresso para registar uma determinada ocorrência, de alterar uma linha ou o número de um parâmetro num impresso já existente ou, em casos conceptualmente mais sofisticados, reformular – reconfigurar, talvez – toda a parafernália papeleira relativa a um determinado campo de acção da burocracia escolar. A avaliação e o seu registo é um dos pastos mais férteis onde tal ruminação ocorre. Consta-me mesmo – nunca observei em primeira mão, sou poessoa de coração fraco – que há escolas em que os Conselhos Pedagógicos conseguem durar horas a discutir a minudidência mínima de uma linha a mais ou a menos num determinado espaço e se aquilo deve vir antes disto ou se isto deverá aparecer logo após aquela outra coisa que está mesmo na sequência. O requinte de certas abordagens a temáticas como se a classificação mais baixa deve ser designada como “Mau”, “Muito Fraco”, “Fraco” ou meramente um globval “Não Satisfaz” chega a conduzir a epopeias dialécticas que os sofistas gregos invejariam. E o mais divertiudo é que como “o saber é sempre um saber em contrução”, o processo não pára, mesmo quando parece que parou. Porque a “derrota” de hoje é provisória e é só carregar as baterias para nova investida.

Não é por nada, mas este(a)s colegas são aqueles que deveriam alegremente aceder a ser integrados nos quadros do funcionalismo público, daquele mais recôndito e manga de alpaca que se possa imaginar. Porque não penso que seja da Educação o seu reino. Acredito, porém, que será deles a via para a titularidade.