Segunda-feira, 18 de Dezembro, 2006


Numa coisa sou obrigado a concordar com algumas vozes críticas da classe docente. Realmente nem todas as agruras e amarguras que ensombram o nosso quotidiano têm a sua origem na 5 de Outubro ou mesmo na 24 de Julho. Algumas surgem entre nós como sempre surgiram só que quando se anda sobre brasas, até parece que dói mais.

Isto vem a propósito de dois tipos de colegas – por vezes as qualidades reunem-se num só corpo – que procuram elevar ainda mais a fasquia da burocratização imposta pelas normas, despachos, portarias, circulares, decretos regulamentares ou leis que emanam da tutela.

  1. Um deles é constituído pelos fanáticos das reuniões. Não há nada que não sirva para marcar ou sugerir a marcação de uma reuniãozinha para debater a questão, o problema ou tão só e apenas o modelo do cabeçalho das fichas de trabalho. E por vezes confundem isso com trabalho de equipa. Ora, para mim, isso é exactamente a antítese do trabalho de equipa porque é a tentativa de o forçar, a bem ou a mal. O verdadeiro trabalho de equipa, mesmo tendo momentos de reunião formal, passa pelo contacto espontâneo, contínuo se necessário, mas com informalidade entre os colegas que dele necessitam e que dessa forma trabalham. Agora uma reunião para decidir se os dossiers ficam virados para a esquerda ou se os livros se arrumam da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sendo para isso necessário ouvir todas as perspectivas sobre o tema, reflectir com muita força e empenho sobre o assunto e a prtir disso nomear uma pequena comissão para elaborar uma proposta que será apreciada numa futura reunião, embora sendo um óptimo tema para os Gato Fedorento, é coisa realmente pouco prática para uma Escola que se prenda eficaz. Mas há quem pense na inversa e há que respeitar mesmo os que aparecem em sentido contrário. Há que tentar pará-los antes que provoquem um desastre em cadeia, mas há que fazê-lo de forma gentil e desapercebida, dizem-me os mais experientes na matéria. Nunca devemos desencorajar abruptamente um(a) fundamentalista.
  2. O segundo tipo de papistas mais papistas que a dita é aquele grupo que rejubila, bate palmas e sente frémitos de emoção e prazer sempre que se adivinha, assim bem ao longe, muito ao longe, tão ao longe que podíamos bem passar sem a ver, a necessidade de criar um novo impresso para registar uma determinada ocorrência, de alterar uma linha ou o número de um parâmetro num impresso já existente ou, em casos conceptualmente mais sofisticados, reformular – reconfigurar, talvez – toda a parafernália papeleira relativa a um determinado campo de acção da burocracia escolar. A avaliação e o seu registo é um dos pastos mais férteis onde tal ruminação ocorre. Consta-me mesmo – nunca observei em primeira mão, sou poessoa de coração fraco – que há escolas em que os Conselhos Pedagógicos conseguem durar horas a discutir a minudidência mínima de uma linha a mais ou a menos num determinado espaço e se aquilo deve vir antes disto ou se isto deverá aparecer logo após aquela outra coisa que está mesmo na sequência. O requinte de certas abordagens a temáticas como se a classificação mais baixa deve ser designada como “Mau”, “Muito Fraco”, “Fraco” ou meramente um globval “Não Satisfaz” chega a conduzir a epopeias dialécticas que os sofistas gregos invejariam. E o mais divertiudo é que como “o saber é sempre um saber em contrução”, o processo não pára, mesmo quando parece que parou. Porque a “derrota” de hoje é provisória e é só carregar as baterias para nova investida.

Não é por nada, mas este(a)s colegas são aqueles que deveriam alegremente aceder a ser integrados nos quadros do funcionalismo público, daquele mais recôndito e manga de alpaca que se possa imaginar. Porque não penso que seja da Educação o seu reino. Acredito, porém, que será deles a via para a titularidade.

(c) Antero Valério

Como balanço do primeiro dia de avaliações na minha santa escola, apenas a sensação de que estamos todos mais velhos incluindo os mais novos, aqueles que agora estão na fase em que eu estive há 15 anos, por exemplo, e em que nos divertíamos e convivíamos bastante neste período. E o mais grave é que o envelhecimento é bem maior por dentro do que à vista desarmada, apesar do progresso das calvas, dos pneus, das rugas ou das cãs.

Quase tudo é por estes dias tocado com um certo temor, uma reverência perante o papel, o impresso a preencher, a justificação a dar, a cruzinha a inscrever.  As pautas que não saem porque o tinteiro acabou, a ficha-síntese onde é preciso não fazer a mínima rasura, o plano de recuperação de 4 páginas só porque o aluno foi proposto numa disciplina para um Apoio Pedagógico Acrescido, a lista dos conteúdos leccionados onde é preciso explicar que não se deu uma aula porque não se deu uma aula, não vá um henriquino estar à espreita na esquina do Ano Novo.

Em uma das minhas reuniões, a Directora de Turma tinha uma mesa de apoio só com os vários tipos de impressos, impressozinhos e impressões que é necessário laboriosamente tricotar. Claro que perante tamanha avalanche de burocracia onde, conforme Goscinny demonstrava n’O Domínio dos Deuses, a mais pequena falha numa alínea mal assinalada torna necessário recomeçar todo o processo, ninguém já quase encontra espçao ou motivo para sorrir.

Eu tento resistir, com a minha faceta de pateta alegre, arrancando tiradas do mais puro eduquês para preencher um ou outro dos 27 pontos que a acta da reunião deve mencionar, mesmo que seja para deixar a menção “nada a registar”.

O que contribui tudo isto para a diminuição do insucesso escolar? Pouco, muito pouco, um quase nada, porque nada disto modifica significativamente para melhor o que se passa numa sala de aula, num agregado familiar ou na cabeça de todos os envolvidos. A não ser um imenso tédio, uma neblina mental que se instala, ousaria quase afirmar que um insustentável desencanto do ser, não fosse a tirada profundamente xaroposa.

Se a ideia era D. Sebastião regressar no mais espesso cinzentismo matinal, poderia bem ter aproveitado a manhã de hoje em muitas das escolas que temos.

Materiais para posterior aproveitamento:

  • Maurice Kogan, “Teacher Professionalism and Accountability”, texto curto mas muito interessante principalmente seu no início onde se (d)escreve como a partir de dado momento os docentes passam a ser formados de maneira a acharem natural que o Estado interfira no seu trabalho e o condicione, através de manobras de ocultação ou descrédito sobre tudo o que é desfavorável às suas medidas. qualquer semelhança com a nossa situação actual não é pura coincidência.
  • Texto já não muito recente (1989), mas igualmente proveitoso, de Ronald Boyd sobre uma possível metodologia a adoptar para uma correcta avaliação dos professores. Não deixa de ser curiosa a perspectiva – que acaba por ser coerente com algumas correntes pedagógicas ainda em voga por cá, mas só aplicadas à avaliação dos alunos – de tornar a avaliuação uma estratégia proveitosa para avaliador e avaliado; mais interessante ainda a lista de quatro preocupações dos professores em relação a todo o processo.
  • Por fim os conselhos de uma docente aos novos colegas sobre a melhor forma de se desenvolverem como profissionais e serem solucionadores de problemas. Claro que das sete propostas, muitas delas se vão tornando por cá inexequíveis, em especial porque implicam gasto de tempo em pesquisas, comparência a seminários e leitura. Tudo isso para o novo ECD ministerial inexiste ou deve ser feito como actividade recreativa da responsabilidade do docente, pois não devem obedecer a critérios de boa gestão do tempo ou contribuirem para qualquer mérito, o qual, já se sabe, passa quase só por dar aulas, muitas aulas. Lá dizia o outro “trabalho, muito trabalho”.