Domingo, 17 de Dezembro, 2006


Depois de tanto sermos martelados com o exemplo nórdico, agarro na publicação O Mundo em 2007 da responsabilidade do The Economist que saiu este fim de semana com o jornal Vida Económica (eu sei, ando com leituras estranhas, mas garanto que bato três vezes com a cabeça na parede logo que cheguei a casa) e não é que encontro na página 42 um artigo com o título “Adeus ao modelo nórdico”, do qual vou extrair esta passagem que me deixa a pensar que, afinal, há problemas no Paraíso escandinavo:

A preocupação é que, quando se analisa um país de perto, verifica-se ser extremamente difícil de copiar ou então apresenta sérios defeitos, ou ambos. Consideremos o principal par da actualidade: Finlândia e Dinamarca. Os Finlandeses surgem no topo da tabela, ou muito perto, em quase todos os campeonatos, em áreas como a educação, segurança social, competitividade e tecnologias. A Dinamarca é excepcional na Europa, graças aos seus recordes de emprego e pela facilidade na implementação de novos negócios.
Todavia, a Finlândia depende grandemente da saúde de uma empresa, que é responsável pela capitalização do mercado bolsista em cerca de 5% do PIB. A Dinamarca tem sido particularmente bem sucedida na criação de empregos, nas tem-se mostrado acerrimamente contra a a imigração, quase um país xenófobo. Em ambos os países, tal como nos restantes países nórdicos, há muitos murmúrios sobre os elevados impostos e sobre um Estado intumescido e ineficaz.

O quê???? Será que por cá alguém ouviu isto. Nomeadamente o senhor engenheiro? “Estado intumescido e ineficaz“? Mas então não era suposto que andássemos a imitá-los? E afinal até parece que não somos assim tão diferentes!

E o que dirão os “liberais” quanto ao peso dos impostos, que isso sim já todos sabíamos serem a doer por aquelas bandas?

Será que o autor do artigo, John Peet, editor para a Europa da revista, é um perigoso anti-liberal, quiçá porventura um docente português infiltrado na alta roda do jornalismo económico europeu?

(c) Antero Valério

São diversas as vozes e escritas que apelam para a necessidade da Escola se adaptar aos novos tempos, reconfigurarse, numa terminologia em voga, seguir novos modelos organizacionais, alargar os tipo de serviços que presta à comunidade e tudo o mais que calha lembrar a quem escreve sobre isso.

Como saberão os que por aqui passam, discordo dessa ideia, embora não me repugne o inverso, ou seja que a Escola delimite claramente a sua esfera de acção, mesmo perdendo algumas funções adicionais, desde que se torne um dos elementos de uma rede ampla de organizações de carácter social e cultural que, cada uma na sua área mas em articulação, prestem todos aqueles serviços que por vezes se querem exigir aos estabelecimentos escolares. Não sou original, eu sei, pois diversos autores já escreveram sobre isso, incluindo a teorização de António Nóvoa contra o transbordamento da Escola.

Mas para exemplificar melhor os males que podem acontecer quando uma organização tradicional se procura reconfigurar aos novos tempos e tornar-se multifuncional, perdendo nesse processo a noção de qual é o núcleo essencial da sua acção e optando pela via da gestão “empresarial” virada para o lucro, eu apontaria o caso do bons e velhos Correios.

Por causa dos tempos, lá está – o Zeitgeist é uma coisa danada – parece que cada vez se escrevem menos cartas e que a correspondência pessoal tradicional está em assinalável quebra. Isto embora me pareça que subiu exponencialmente a correpsondência de tipo institucional ou comercial, nomeadamente as contas que antigamente eram cobradas à porta e agora chegam pelo correio.

Por isso, e apesar da adopção de modalidades de correio coloridas que me irritam imenso – afinal se há menos correio e há melhores estradas porque hei-de pagar mais pelo mesmo serviço que antes era feito? – as administrações dos Correios na última década decidiram diversificar a sua gama de serviços prestados, desde se tornarem produtores de brindes dos mais diversos tipos (e não falo apenas dos filatélicos) até algumas estações se terem convertidos em mini-papelarias e livrarias, não esquecendo a disputa do mercado da distribuição da publicidade comercial das grandes superfícies.

O resultado: bem, o resultado à minha vista desarmada, foi catastrófico para quem usa os Correios enquanto tal, enquanto serviço de distribuição portal. Antes de mais, os carteiros passaram a ser alugados à hora ou ao mês, não sei bem, e mudam antes de saberem o nome das ruas da aldeia e urbanização onde vivo que não é assim muito grande. Passo um par de meses a tentar explicar-lhes que Rua e Praceta não são uma e a mesma coisa e que se eu tenho o meu nome estampado – por via das dúvidas – na caixa de correio, será um bocado estranho que me deixem lá coisas destinadas a pessoas com nomes nem vagamente parecidos com o meu. Desde os códigos de acesso ao concurso dos docentes de há um par de anos de um casal próximo até liquidações alheias de IRS já tudo me apareceu; em contrapartida, tudo o que é conta que não seja por transferência bancária acaba por dar problema, pois extraviam-se as facturas; quanto a assinaturas de revistas nem é bom falar: os serviços da Media Capital e Edimpresa devem pensar que eu tenho colecções duplas de diversas revistas, tal é a frequência com que peço segundas vias. Só que puffff, mal começam a entender a mensagem já mudaram porque acabou o contrato de trabalho.

Mas em contrapartida tenho a caixa de correio diariamente atafulhada de publicidade de toda a média ou grande superfície imaginável num raio de 25 km – Modelo, Intermarché, Lidl, Jumbo, Continente, Carrefour, Staples, etc, etc, etc. Mesmo colando o autocolante contra a publicidade não endereçada o resultado é o mesmo, pois a coisa acaba rasgada ao fimde dias.

Mas o mais interessante é que enquanto a publicidade é distribuída em carrinhas dos CTT bastante modernas e espaçosas, os carteiros chegam de motoreta, ao vento, fio e chuva em pleno Inverno. O folheto da semana do Feira Nova deve chegra incólume, já a correspondência pessoal pode vir encharcada.

Procurando adaptar-se aos novos tempos, tornar-se “modernos”, multifacetados, empresariais, lucrativos, os Correios passaram a prestar-me serviços que não me interessam um pouco apenas porque lhes dá lucro, enquanto aquilo para que eu preciso deles desceu brutalmente de qualidade, evidência empírica que um recente estudo da DECO comprovou.

Com a Escola corre-se o mesmo risco com os delírios pós-pós-modernistas, associados a sociologices muito actuais há 20 anos, de algumas correntes de opinião que parecem não perceber que o pior que pode acontecer a uma instituiçâo basilar da sociedade moderna é perder a sua identidade e a noção da sua função essencial. Perdendo-se isso, é muito mais difícil que a Escola faça bem o que deve, mesmo se passar a fazer muitas outras coisas que deveriam ser feitas por outro tipo de organizações.

A mim chegava-me que as encomendas que faço à Amazon britânica que demoram dois dias a chegar a Portugal, depois não demorassem uma semana a deslocar-se de Lisboa até aos sopés da Arrábida. Afinal são apenas 40 km, mais de metade em auto-estrada.

No caderno de Economia do Expresso de 16 de Dezembro, ou seja, de ontem.