Sexta-feira, 15 de Dezembro, 2006


Quando se analisa o funcionamento da Escola, em especial quando se entra pela relação da Escola com a comunidade envolvente, surge a necessidade de definir os papéis e/ou funções dos diferentes intervenientes presentes em tal situação. A tendência habitual é pare resumir tudo a docentes e alunos (com as “famílias” de permeio), o que está errado porque é redutor e propicia abordagens maniqueístas que só acabam por envenenar todo o ambiente em torno do problema.

No entanto, na Escola em geral, cruzam-se muitos outros actores desde a tutela até às referidas famílias não esquecendo os funcionários e todas as outras instituições que deveriam ter algo a dizer na forma de funcionamento da Escola.

Ao meu olhar de professor raso, com perto de uma dezena de escolas públicas no currículo, encontro envolvidos normalmente no quotidiano das Escolas apenas os professores e alguns técnicos especializados (um ou outro psicólogo, um ou outro terapeuta da fala), os alunos, os funcionários e alguns pais interessados.

Quem está em falta?

  • Antes de mais, o resto dos encarregados de educação, em especial os que se limitam a aparecer na semana anterior às reuniões de avaliação, ou após as ditas para contestar classificações cuja “construção” parece desconhecer; parece que esses são os únicos momentos em que podem comparecer na Escola em qualquer horário porque, ao que parece, os empregadores deste país são pouco sensíveis a dispensas para este tipo de assuntos. E os encarregados de educação organizados em associações fortes e com objectivos próprios – que ultrapassem o serem, em certos ambientes urbanos de classe média-alta, simples satélites das directivas ministeriais – são um parceiro indispensável para as escolas funcionarem em pleno, desde a participação no projectar e concretizar do Plano Anual de Actividades até à uma acção concreta na prevenção do insucesso e abandono escolar, através de uma rede de apoio de vizinhança que ajude os estabelecimentos de ensino a intervir o mais precocemente possível em situações de risco. Infelizmente, pelo que observo, não é isso que temos. Muitas vezes o que se passa é apenas a preocupação em afastar dos seus educandos os problemas levantados pelos “outros”, os problemáticos. Poderei estar a ser um pouquinho injusto, mas a realidade não me desmente muito.
  • Em segundo lugar, as autarquias locais já deveriam hoje, independentemente do tipo de competências, estar representadas nas Assembleias de Escola e mais do que formalmente, comparecerem efectivamente às reuniões e participar nas decisões. Se é verdade que querem mais intervenção nesta matéria seria de todo o interesse que não encarassem esta participação como uma formalidade chata para onde se manda um técnico contrafeito assistir sem adiantar nada, ou pura e simplesmente não comparecer.
  • Por fim, espanta-me imenso a completa ausência de interesse das “forças vivas” das comunidades, nomeadamente dos actores económicos, prospectivos consumidores de mão de obra local qualificada, em terem um papel dinamizador no apoio ao funcionamento das Escolas. E nem falo só de pequenas e médias empresas de implantação local ou regional. Falo mesmo de empresas de grande dimensão (de capitais públicos, mas também privados)que não deslocam um avo do seu orçamento para o apoio às Escolas, embora gastem milhões em publicidade na imprensa que normalmente vai directamente para o lixo. Se é verdade que a Sonae, via Continente/Modelo, tem algumas iniciativas (de que não conheço o balanço) visando levar as pessoas a contribuirem através de uma parte do valor das suas compras para o equipamento informático de algumas escolas, a evidência é que o resto é um deserto, tendo-se perdido aquele hábito que no século XIX e parte do século XX existiu de, mesmo a título particular, grandes vultos locais ou nacionais deixarem legados para a (re)construção de escolas, para o seu equipamento e para premiar docentes e alunos que se destacassem (em meados dos anos 70 ainda recebi uns títulos, então de valor quase simbólico devido à inflacção galopante do pós choque petrolífero, deixados por uma figura da região que pretendia premiar alunos com determinado desempenho). Isso desapareceu quase por completo. As organizações empresariais gostariam de exportar o seu modelo para a gestão das escolas, mas claro que isso é se não for dinheirinho atrás. É que nem sequer surgem propostas de apoios em troca de alguma participação na gestão de alguns aspectos da escola. Nada. Só há cerveja à discrição para as Queimas das Fitas. E os grandes ou médios empresários agora têm outro tipo de gostos e interesses onde investir os seus superavits.

Por tudo isto, acho que numa escola que se pretenda moderna, aberta à comunidade, plural, etc e tal, há muita gente que devia participar e não participa. As escolas não o(a)s chamam? É possível, mas se ficarmos todos a olhar sem dar o primeiro paso, ninguém vai conseguir dançar esta noite.

Em tempos onde se fala em aligeiramento do Estado, em autonomia das Escolas, em desburocratização, em exemplos de racionalidade organizativa, em Escandinávia por isto e aquilo, lembrei-me de fazer uma comparação mental entre o trabalho preparatório e o material necessário para uma reunião de avaliação de final de período entre 1986/87, ano que como caloiro levei com duas direcções de turma para aprender fazendo (investigação-acção já na altura), e 2006/07, o ano  lectivo da graça em que nos encontramos, aquele em que todos os males serão varridos da Educação por obra e esmero da actual equipa ministerial.

Ora em 1986/87, eu deveria levar para a reunião:

  • A estatística das faltas (justificadas e injustificadas) dos alunos, eventualmente já passada para aquelas maravilhosas pautas em formato A2 (?).
  • Duas folhas para a acta da reunião, para o caso do(a) secretário(a) escorregar na gramática ou na ortografia ou se esquecesse que era tudo para escrever por extenso incluindo ano lectivo de mil novecentos e oitenta e seis barra oitenta e sete.
  • A minha grelha de avaliações.
  • As folhas onde se registavam as avaliações a entregar aos Encarregados de Educação. No final do ano, levavam-se as folhas dos termos.

Este ano não sou director de turma, mas o que observo ser necessário em 2006/07, com algumas variantes de caso para caso, turma para turma, escola para escola.

  • Pauta com as faltas e notas pré-lançadas pelos docentes.
  • Dois papelitos de acta para recolha de assinaturas, pois o resto até se pode fazer em computador.
  • Folhas com as avaliações dos diversos docentes.
  • Folhas individuais para cada aluno, para registo da avaliação, respectivos parâmetros e observações dos docentes.
  • Relatórios dos conteúdos leccionados em cada área disciplinar e de aulas dadas (cerca de uma dezena).
  • Relatórios das Aulas de Apoio Pedagógico Acrescido e eventualmente de outro tipo de complementos educativos (aulas de Língua Portuguesa como Não-Materna).
  • Projecto Curricular de Turma.
  • Estatísticas da frequência da Sala de Estudo pelos alunos da turma.
  • Planos Educativos Individuais, no caso de se aplicarem.
  • Lista de contactos com os Encarregados de Educação.
  • Todo o tipo de materiais que justifiquem uma apreciação suplemnetar para efeitos de avaliação (relatórios de avaliação psicológica, atestados médicos para dispensa do cumprimento de parte do programa de Educação Física).
  • No mínimo, mais dois ou três impressos sobre matérias que agora certamente me estou a esquecer, não esquecendo outros que pode ser necessário preencher na sequência da reunião, em virtude de casos particulares que surjam (planos de recuperação, justificação do número de classificações negativas, etc, etc).

Se é verdade que várias coisas melhoraram no ensino, a burocracia multiplicou-se, criou tentáculos e enredou ao ponto da asfixia o trabalho dos docentes. A maior parte desta documentação é de valor irrelevante para a qualidade das aprendizagens realizadas. A maior parte destina-se a fornecer garantias documentais de que os docentes fazem ideia do que andam a fazer ou, em alguns casos, que sabem justificar o que fizeram mesmo se não o fizeram muito bem. A maior parte resulta de exigências securitárias do Ministério, criadas ao longo dos últimos 15 anos para mostrar a alguns grupos de pressão que anda de olho nos malandros dos profes.

Gostava que me demonstrassem que, neste mesmo período, a performance dos alunos melhorou e se, em caso afirmativo, alguma dessa melhoria resultou desta pilha imensa de papéis que agora é necessário preencher, assinar, certificar, validar, ar, ar, ar.

E gostava de saber se na Finlândia ou na Suécia também é assim.

E se aqueles liberais que defendem a adaptação dos modelos de gestão empresarial às escolas e a leveza de procedimentos nas empresas em relação à gestão do pessoal acham que esta é uma forma racional de actuar.

Eu cá acho que não. Mas que sei eu, mero professor congelado e certamente nunca titulado?

A entrevista (via Nouvel Observateur de há dois meses) do neuropsiquiatra Boris Cyrulnik. Algumas ideias a reter, por entre muitas coisas que estão para além da opinião e se baseiam no estudo do cérebro com as novas técnicas da Imagiologia:

a) O período dos primeiros anos de vida parece ser ianda mais marcante do que se pensava em matéria de modelamento do cérebro, do ponto de vista intelectual, emocional e mesmo no plano dos gostos.

b) O excesso de mimo e protecção pode conduzir a distorções da personalidade e da relação com o (in)sucesso tão complicadas como a negligência e o abandono.

c) A aprendizagem do medo é uma fase essencial do desenvolvimento psíquico das crianças e, nas palavras do próprio a principal condição para desenvolver uma ligação segura com os outros indivíduos e a vida. Só assim conseguirá ultrapassar a fase da frustração perante a não gratificação imediata dos seus desejos. Só em segundo lugar surge a segurança.

Porque dou alguma importância a estas considerações? porque são obtidas com base em investigação científica palpável e não em meras teorizações sobre o abstracto.