Terça-feira, 12 de Dezembro, 2006


Um dos aspectos de que mais se fala em matéria de “reconfigurar” o sistema educativo passa pela chamada territorialização da Educação e do reforço das responsabilidades e competências das autarquias nesta matéria.

Não poderia estar em maior desacordo, por muito que o próprio Presidente da República venha agora afirmar que o poder local deve entrar numa fase de «maturidade política».

O problema é que a maioria do Poder Local ainda não entrou nesse estado de maturidade e, em muitos casos, demasiados mesmo, ainda luta com muito acne juvenil e as autarquias não passam de comissões de obras (como num rasgo de lucidez lhes chamou hoje Miguel Sousa Tavares) e de agências de empregos para detentores do cartão certo.

Em especial nos municípios mais populosos do litoral urbano, onde a rede escolar se encontra sob maior pressão, se a territorialização significar municipalização então é uma autêntica caixa de Pandora que se vai abrir. A minha experi~encia como técnico autárquico já é muito remota, mas eu bem me lembro de como as coisas (não) eram feitas nos primeiros tempos da transferência de competências do Estado Central.

O Poder Local já deveria estar mais maduro? Pois deveria! Mas não está. Ou então está como excepção. O exemplo singular de Lisboa onde, como ontem se voltou a falar no programa Prós e Contras, se gasta muito mais num único evento de pirotecnia do que na manutenção do parque escolar do 1º ciclo, não deixa de ser elucidativo.

Mas como esse exemplo, existem dezenas de outros, cada um à sua escala, por esse país.

Chamem-me centralista se quiserem, mas antes um sistema que se pretenda neutro (mesmo com falhas), do que uma miríade de micro-sistemas, cada um encerrado sobre si mesmo e enredado nas suas lógicas de poder muito particulares, provocando uma manta de retalhos incongruente. O nosso país não é assim tão grande que implique um sistema tão “pesado” como querem fazer crer e quando se usam exemplos internacionais para estabelecer comparações, por favor, vejam lá a dimensão das unidades de análise que utilizam. Um condado inglês ou um estado americano não são bem o mesmo que um distrito português.

Sinceramente, não vale a pena experimentar tal panaceia em grandes doses. A menos que queiramos que o doente acamado fique em três tempos moribundo e a precisar da extrema-unção.

Querem fazer umas experiências-piloto? Façam-nas, mas por favor não caiam no erro recorrente de achar que alguns sucessos pontuais, de casos monitorizados ao detalhe e com todos os apoios para darem nas vistas, se podem converter, de um momento para o outro, obrigatoriamente em soluções milagrosas para todos os casos.

Essa estratégia já deu tão maus resultados em tantas outras ocasiões e de boas intenções não está o nosso sistema educativo carenciado. Tanta vez foi atropelado a atravessar a estrada por gente cheia de boas ideias que foi entrevadinho como bem sabemos. Querem dar o poder às escolas? Tudo bem. Agora não as coloquem na dependência dos Valentins e das Fátimas deste jardim à beira mar atravancado de rotundas.

Embora muitos dos meus alunos ainda sejam demasiado novos para entenderem toda a mensagem do filme, sempre que uma turma tem alunos com maior maturidade ou apresenta um perfil etário mais alto do que a média para o 6º ano e inclui jovens em situações de risco, gosto de recorrer a este filme para demonstrar toda a espiral de violência gratuita e sem sentido que o ódio ao outro e a quem é diferente pode provocar, assim como é difícil fazer o caminho inverso quando se entra em tal lógica.

O filme (American History X ou América Proibida na versão nacional), bastante duro de digerir e sem muito cuidado em procurar soluções ou retratos felizes, passa-se na América e tem como pano de fundo a xenofobia e o racismo neo-nazi, mas por vezes só a cobertura muda, a essência permanece. E o perigo nasce e alimenta-se do medo irracional e da intolerância.

Grécia proíbe telemóveis nas escolas

Filmagem de violação levou Governo a avançar com decisão
Os alunos gregos estão proibidos de utilizar telemóveis dentro das escolas. A decisão tomada pela Ministério da Educação helénico foi tomada depois de uma jovem de 16 anos ter sido violada e as imagens do crime terem sido captadas e divulgadas através de telefones móveis.
Os contornos do caso causaram escândalo na sociedade grega.
(…)
A nova proibição determina que os alunos que a infringirem, de forma repetida, poderão mesmo ser expulsos.
A Grécia também tem assitido ao crescimento de casos de filmagens, através de telemóvel, de agressões em ambiente escolar, algumas delas transmitidas pela televisão helénica, o que terá contribuído para acelerar a decisão governamental.
A medida tem sido defendida por professores e psicólogos que consideram que a gravação destes actos encoraja os alunos a repeti-los e até a entrarem em competição no registo de situações cada vez mais chocantes.

Cá a moda dos telemóveis também existe mas por enquanto ainda não com esta utilidade, pelo menos de uma forma generalizada. O habitual é esconderem os telemóveis nas mochilas ou no corpo, pedirem a colegas para ligarem de fora das salas, para que se ouçam os toques nas aulas – se possível os toques mais irritantes ou ofensivos – e depois negar, negar tudo e esbracejar e gritar por aqui d’el-rei que me estão a infringir os direitos,  caso o(a) docente se dirigir ao(à) aluno(a) ou à dita mochila

Mas quase aposto que se fossem proibidos por cá os telemóveis nas Escolas, caía o Carmo e a Trindade, pois, como sabemos, sem telemóveis os direitos, liberdades e garantias dos indivíduos estão em risco.

E, escusa de aparecer a acusação do costume, esclareço desde já que eu não mantenho o meu ligado nas aulas, com ou sem som, e em eventuais casos de extrema emergência – que felizmente são raríssimos – informo a turma em causa da necessidade. E aceito que o mesmo aconteça por parte dos alunos.

Não é que seja assim tão politicamente correcto como isso, apenas acho que há situações em que o melhor método de demonstrar civismo é dando o exemplo.

Agradeço ao Luís Ferreira a indicação desta notícia.

Esta semana começo a deixar a avaliação dos meus alunos para que os Directores de Turma possam ter a possibilidade de preencher os 47 impressos necessários para a realização das reuniões de avaliação que se estendem por quatro dos cinco dias úteis da próxima semana. O Ministério não precisa de proibir formalmente o gozo de férias pelos docentes porque elas inexistem naturalmente devido ao brutal peso burocrático do actual funcionamento da avaliação.

Para acicatar os ânimos mais críticos, eu diria que a avaliação se foi tornando cada vez mais adivinhação, à medida que passou a incidir não sobre aquilo que o aluno faz (o produto palpável do seu trabalho), já quase que não sobre aquilo que se percebe que talvez seja capaz de fazer (as competências), mas principalmente sobre aquilo que seria capaz de fazer, debaixo das condições iedeais de ambiente (as capacidades, inatas ou das outras) se porventura não fizesse tudo ao contrário do que mandam, digo, solicitam os docentes.

Apesar disso, não tenho normalmente grandes dramas de consiciência e, quase como o nosso presidente, as dúvidas são poucas e os problemas com a justiça da minha avaliação inexistentes até á data (mas nunca digas que um recurso não te aparecerá ao dobrar da esquina… bater três vezes no tampo da secretária que é de madeira). Mas há muita gente que se consome nestes momentos, com os dilemas decorrentes desta conjuntura de final de período. Apesar do que dizem por aí em contrário, (quase) todos nós lidamos com a avaliação dos alunos cheios de paninhos quentes e receios mil, dos protestos e recursos e queixas directas para o Ministério, porque se conhece lá alguém com capacidade de influir junto de quem está perto de alguém com poder.

O que é triste.

Eu concordo com o facto de não serem avaliáveis apenas os conhecimentos dos alunos e que muitas variáveis devem ser tidas em consideração.

Mas confesso que nunca tive tanta dificuldade em dar uma classificação positiva como quanto estive numa Escola em que os intens relativos às atitudes e valores eram maioritários, comparativament aos destinados a avaliar os conhecimentos e competências.

Muitas vezes, tais eram as falhas nesse domínio geral das atitudes e valores, que quando chegavam aos conhecimentos, muitos alunos já tinham o destino tristemente marcado.

Porque, não nos iludamos, a falha gritante no desempenho escolar dos alunos começa e acaba na cada vez maior falha nos domínios das atitudes e valores, nas regras de convivência em sociedade e comunidade, no respeito pelos outros, na capacidade de tolerar a diferença e o próximo e de dominar a pulsão para satisfazer a sua própria vontade, por todos os meios, como se fosse a suprema ou mesmo a única a respeitar.

Os conhecimentos falham como consequência directa da completa falta de regras, de respeito e de auto-disciplina.

Quem promove isso? Pois, pois, pois…