Como sabemos, o sistema de progressão na carreira com base nos créditos obtidos em acções de formação validadas e certificadas pelo Ministério da Educação não foi construído pelos professores, mesmo se por eles (e elas) foi tolerado e usado como mal necessário.

No meu caso pessoal, sempre evitei até aos limites do possível frequentar tais acções (usei os créditos de um mestrado para uma progressão, os de corrigir provas de aferição para outra, mais uns de participação em colóquios com creditação ministerial e acho que só fiz duas ou três acções regulares em todo este tempo) por saber o que muitas vezes lá se passa: formadores a repetirem acções de formação semestre após semestre, ano após ano, outros a trocarem as voltas ao sistema acabando por dar o que não corresponde à designação da acção, outros a pouparem-se ao máximo para receberem a remuneração pelo mínimo trabalho, etc, etc. Não quero com isto dizer que não existam boas acções de formação creditadas, simplesmente acho que são como o El Dorado: ouvimos falar dele, perseguimo-lo, mas demora muito a achá-lo.

A verdade é que o sistema foi erguido para sugar fundos europeus à conta do PRODEP e nesse aspecto o Ministério da Educação foi o principal responsável pela sua criação e manutenção até ao último suspiro do último quadro de apoio comunitário que seja possível explorar. As acções de formação, boas ou más, só existem após certificação ministerial tal como os formadores também só as dão depois de certificados por delegação ministerial. Nada foi criado de base e mesmo os centros de Formação são entidades que estão longe, em muitos casos, de se terem erguido a partir dos interesses dos docentes, mas assim a partir de directrizes emanadas do topo.

Se muita gente tem ganho com isso? Não sei se é muita, mas sei que alguns têm ganho muito, pois as redes clientelares e de amiguismo imperam neste domínio. Desde a formação dos próprios funcionários ou auxiliares de acção educativa e elementos de secretarias das Escola, assegurada por um grupo restrito de formadores muitas vezes em flagrante acumulação e sobreposição com o seu horário de trabalho, até à formação dos docentes em áreas sacramentais como as TIC ou as Necessidades Educativas Especiais por parte dos mesmos grupos de formadores (quantos dos quais são técnicos da estrutura do ME…? e quantos são sindicalistas e quantos sindicatos foram criados e alimentados umbilicalmente pelo ME por esta via?) que correm em tournée uma mesma região ou mesmo várias zonas do país sempre com o mesmo conjunto de transparências e/ou slideshows, tudo foi desenhado de forma a captar os fundos europeus e dar-lhes bom destino. O interesse dos docentes era avaliado com base nuns inquéritos, mas penso que seja um mito urnbano, a crença de que depois eles eram mesmo analisados e as conclusões usadas para acertar o tiro.

No meio disto há dezenas de milhar de professores que foram obrigados a frequentar Acções de Formação por imposição estatutária, sendo que essas Acções de Formação sempre apareceram com a chancela ministerial. Agora, é o mesmo Ministério que mantém o “sistema em funcionamento”, que aparece a clamar quanto à sua deficiente qualidade e que é necessário reformular os critérios de progressão. Houvessem mais fundos do PRODEP e garanto-vos que tudo continuaria na mesma.

Mas o mais caricato é ouvir falar dos últimos estertores da coisa, quando já ninguém parece acreditar no que vai sendo feito, com uns a ganharem os últimos milhares de euros para umas férias caribenhas ou nordestinas e os outros a tentarem a cumular os últimos créditos antes de serem a pagantes. As rotinas continuam as mesmas e os rituais repetem-se.

Um dos mais divertidos passa por aquela técnica que deve ter sido inculcada à nascença em todos os formadores para “quebrar o gelo” do grupo de trabalho, técnica essa que se repete há anos e anos sem ganhos especiais e gastando um belo par de horas, quando não é mais, do que deveria ser a dita formação, a qual passa então a coisa por todos os elementos de grupo se apresentarem entre si – mesmo que já se conheçam há muito – com base em auto-retratos ou naquela do “e se eu fosse?“.

Eu, nas poucas situações em que fui obrigado a fazer esta cena triste (num dos casos tratava-se de fazer uma espiral de um texto em que o escriba seguinte continuava o texto do anterior, a partir das últimas duas palavras), optei sempre por dizer o meu nome e explicar que aprecio imenso um bom bolo de chocolate, se possível daqueles com cobertura de chocolate derretido e nozes. O remédio era santo: a partir desse momento o(a) formador(a) passava a olhar-me como se fosse um ET. Mas essa sempre foi a minha estratégia para avaliar até que ponto do outro lado estava alguém com capacidade de adaptação a situações inesperadas.

Mas nunca me aconteceu o que me contaram hoje e que foi, por entre outras perguntas inanes, alguém perguntar o que cada uma das pessoas presentes seria se fosse um electrodoméstico.

Caramba. Esta ia-me deixando sem reacção de queixo caído.

Mas recuperei depressa e achei a resposta.

Atendendo ao meu volume físico actual, talvez fosse um frigorífico bem recheado, não necessariamente topo de gama, mas pelo menos um modelo assim bem grandinho e robusto. E possivelmente com alguma electricidade estática, para dar uns choques aos utilizadores mais inconvenientes.