O texto que se segue é do leitor/comentador e agora postador PJ. Como ele, os restantes visitantes do Umbigo que sintam interesse nisso têm os posts deste espaço à sua disposição, para divulgarem as suas análises e reflexões sem qualquer tipo de limitação editorial. Em relação a esses textos eu inverterei o funcionamento normal do blog passando eu a mero comentador.

Partilho de algumas das perplexidades do Paulo Guinote relativamente à prova de avaliação de conhecimentos e competências prevista no Estatuto da Carreira Docente, nomeadamente com as medidas que se anunciam ao nível da avaliação e acreditação dos cursos do ensino superior. Todavia, convém recordar alguns factos relativos à formação de professores. Em Portugal nunca houve uma política de avaliação da formação inicial de professores contrariamente ao que sucede em inúmeros outros países. Existia um conjunto de obrigações inscritas na lei e, supostamente, as instituições cumpririam essas obrigações. Finda a sua formação o professor era aceite como profissionalizado pelo Estado e estava em condições de concorrer ao ensino público. Este sistema era mau porque as instituições não eram avaliadas. Na prática o Estado delegava nas instituições o processo de avaliação e aceitava como bons e fiáveis os seus produtos, neste caso a qualidade dos professores que formava.

O crescimento do ensino superior e dos ensinos básico e secundário fez aumentar substancialmente a necessidade de contratar novos professores a partir de meados da década de 70. Ao longo da década de 80 e início dos anos 90 o sistema público de educação absorveu grande parte dos professores formados pelo ensino superior público e também privado. E aqui surge a primeira distorção do sistema. Com algumas excepções, em Portugal o ensino superior privado sempre foi de fraca qualidade. Contudo, as médias de licenciatura dos seus diplomados são bastante superiores às dos diplomados pelo ensino público, apesar de se saber que em grande parte as suas notas de candidatura ao ensino superior são mais baixas.

O que acontece até aos dias de hoje é um problema brutal que terá consequências gravíssimas durante muitos anos. Uma vez que a média de licenciatura era o único elemento que diferenciava os professores profissionalizados, os concursos de admissão são sistematicamente enviesados a favor dos diplomados pelo sistema superior privado. Estes são piores alunos ao longo do ensino secundário, analisando as suas notas de candidatura ao ensino superior, têm uma formação de menor qualidade, porque as instituições que os formam são igualmente de menor qualidade, e no final obtêm melhores médias de licenciatura e entram mais depressa no sistema público de ensino. Este é um dos piores cancros da nossa educação. Sem bons professores não é possível uma educação de qualidade e os nossos melhores professores não são os que entram no sistema público de educação, que é aquele que me interessa analisar.

Como afirmou o Professor António Nóvoa, actual Reitor da Universidade de Lisboa, na conferência que proferiu em Maio na Assembleia da República no decurso da abertura do Debate Nacional sobre Educação, “não há nada, absolutamente nada, que substitua um bom professor. O seu exemplo, a sua inspiração, acompanham-nos pela vida fora. Da existência de bons professores, e do seu prestígio, depende, e muito, o futuro das nossas escolas.” E continuando insistia no “reforço dos programas de formação de professores, pois o que parece desenhar-se no quadro do Processo de Bolonha suscita sérias inquietações. As escolas de formação estão, hoje, numa situação de grande fragilidade e não se vislumbra qualquer saída. Portugal tem de decidir se quer, ou não, apostar seriamente na qualificação dos seus professores. E isso implica um reforço dos conhecimentos disciplinares, mas também a aquisição de uma cultura profissional, no quadro de uma relação próxima com as realidades escolares concretas.”

 PJ