Parecendo que não, vivemos por Portugal as mesmas situações, ou muito parecidas, de forma recorrente, em especial quando se trata da relação entre o Estado e os cidadãos e/ou determinados grupos profissionais, sendo que os professores constituem um dos mais antigos sectores dependentes desse mesmo Estado.

Neste caso temos uma espécie de manifesto, com abaixo-assinado, dos professores do Ensino Secundário a propósito da preparação de uma nova reforma dos ditos estudos, em que se pareciam ir reforçar os mecanismos diferenciadores entre os professores do mesmo nível de ensino, o que era considerado injusto já em 1908.

Portanto não é de agora este tipo de tentativas do poder político para introduzir mecanismos discriminatórios e diferenciadores na carreira docente, assim como a consequente tentativa de resistência. Também surgem as queixas perante as repetidas reformas e os critérios financeiros como soberanos nas medidas que vão sendo tomadas. Leiamos pois este excerto do referido texto, encontrado entre as páginas de uma publicação resgatada a um alfarrabista lisboeta há uns anos atrás:

Na actual legislação escolar secundaria existem algumas disposições que se teem introduzido subrepticiamente e pouco a pouco nas successivas reformas dos ultimos annos, as quaes tendem a formar dos professores dos lyceus centraes uma especie de casta privilegiada, com manifesto prejuizo e injustiça para com os professores dos lyceus nacionaes. Assim, o ordenado de cathegoria dos professores dos lyceus centraes é maior do que o dos outros lyceus; em concurso de transferencias p professor do lyceu central prefere o professor do lyceu nacional; os professores dos lyceus centraes podem presidir aos jurys dos exames do curso geral, 2ª secção, os outros não (art. 20º § 2º).

(…) Ora taes disposições devem desapparecer da legislação, pois contituem uma flagrante injustiça que nada justifica. Todos os professores dos lyceus, sem excepção alguma, são funccionarios de egual cathegoria; o concurso que a lei lhes impõe é perfeitamente o mesmo para todos, deve pois conferir a todos, sejam dos lyceus centraes ou dos nacionais, eguaes direitos e regalias.

Para quem pensa ou afirma que os professores actuais é que são esquisitos, muito ciosos dos seus “privilégios” e que a difusão de uma mentalidade igualitária entre os docentes é uma criação recente, quiçá mesmo do Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor, este tipo de texto com quase 100 anos poderá servir de contributo para reverem os seus preconceitos.