Sexta-feira, 8 de Dezembro, 2006


Acabadinho de surripiar no Anterozóide.

Agora sobre a TLEBS João Peres Andrade dirige uma arma de destruição maciça, não do ponto de vista dos literatos de nariz franzido, mas de quem é da própria área científica. Aqui fica uma passagem, sendo que o resto surge também no caderno Actual do Expresso (pp. 20-22), estando uma versão mais alargada (30 pp) disponível por estes lados:

No plano científico, considero a TLEBS inaceitável. Não é, claro, por ser inovadora, nem por pretender veicular uma postura científica, nem por conter termos complexos, mas, antes de mais, porque cientificamente não merece crédito e porque, mesmo que fosse digna, não poderia apoiar-se em materiais de consulta sólidos, nomeadamente uma boa gramática do português de perspectiva inovadora, que não existe. Adicionalmente, a TLEBS é chocante pela sua insensatez no que respeita à extensão, pelo carácter abrupto (se não brutal) da sua adopção e pela insensibilidade à coesão intergeracional.

Antes de explicitar as minhas críticas, respondo a uma pergunta que o leitor pode colocar-se: a TLEBS não está avaliada e creditada cientificamente, uma vez que a sua base de dados de definições foi elaborada exclusivamente por docentes universitários? Lamento responder que não está. Em primeiro lugar, porque alguns dos seus autores não são as pessoas mais qualificadas do país nas suas áreas; em segundo lugar, porque alguns excederam os limites das suas competências específicas, tratando de questões de que pouco ou nada entendem; finalmente, porque, por mais elevada que fosse a qualidade do trabalho realizado em separado por oito entidades distintas (indivíduos ou grupos), só por milagre a conjugação dessas peças autónomas no todo da TLEBS poderia ter resultado em algo de coeso e consistente, quando nem uma única vez essas diferentes entidades trabalharam em conjunto para articular a nova terminologia.

PIM!!!

No caderno Actual do Expresso surgem hoje dois textos profundamente mordazes na sua abordagem de alguns aspectos da nossa Educação. Aqui fica o excerto de um deles, neste caso do de Joaquim Manuel Magalhães com o título “Um Ministério” (pp. 54-55), que porém tem bons outros motivos de leitura como a forma como é identificada a relação necessária entre uma boa docência e o gosto pelo que se ensina:

O ensino secundário português começou a ser stragado por Veiga Simão. Culminou com Roberto Carneiro e os seus esquecimentos bem calculados. Tornou-se uma espécie de rodilha mal cheirosa, de esfregadela em esfregadela, atirada ao caso para entre um lixo inominável por todos esses ministros de que ninguém lembra o nome, como eu nem sequer sei o da actual. Sei que é uma pobre senhora que não vale a pena, com uma voz desgastada, empurrada a destruir a quase final hipótese de haver qualidade no ensino secundário português.

Eu só acresentaria que não me ficaria pelo Ensino Secundário e que pelo menos de Veiga Simão e Roberto Carneiro é possível que a História, ou mesmo apenas a história, registe o nome. Já o resto…

No Expresso de hoje, com direito a destaque e foto na primeira página, vem uma matéria bastante condensada sobre a violência nas Escolas que temos. O texto, embora curto, é bom, toca em muitos pontos interessantes, que não desenvolve um pouco mais o que é pena. Quase tudo o que lá surge referenciado em matéria de violência, criminalidade e outros desmandos que vão existindo já os conheci quase todos em directo e a cores, assim como por testemunhos directos de quem se viu como protagonista indesejado de situações rocambolescas.

As autoras da matéria referem, e muito bem, que a violência já não choca, apenas a sua banalidade e gratuitidade. E é essa é uma realidade com que precisamos de lidar, dentro e fora da Escola, porque muitas vezes as proximidades dos estabelecimentos de ensino são palcos para confrontos de grupos cujas disputas são importadas de bairros envolventes e mais ou menos distantes.

Ao longo dos meus anos de ensino leccionei sempre ou em zonas altamente problemáticas ou paredes-meias com elas. Actualmente sou efectivo (por opção e não por empurrão) numa Escola que pertence a um TEIP por estar numa zona socialmente complicada, sendo que uma das escolas identificadas na peça jornalística como das mais problemáticas do país fica apenas a algumas centenas de metros de distância da minha e os seus alunos por vezes são vizinhos de rua e quarteirão dos nossos, bem como vários amigos meus são lá professores, quase todos também por opção e convicção e não por “pára-quedismo”. Escrevo, pois, sobre o que vi ou que sei em primeira mão, e não por leituras académicas e estudos de números coligidos e analisados num gabinete adequadamente climatizado.

Mas indo ao concreto, curiosamente, presenciei e fui obrigado a lidar, em diferentes circunstâncias e papéis, com situações bem mais complicadas em escolas teoricamente localizadas em zonas mais “seguras”. A extorsão de alunos mais novos com base na coacção, a violença verbal e psicológica gratuita sobre colegas e funcionários, o absoluto desrespeito e a agressão a docentes não é para mim qualquer novidade. Fui professor e director de turma de alunos que já tinham passado ou viriam a passar por situações de criminalidade mais ou menos grave. Felizmente, até ao momento sem razão pessoal de particular queixa mas com muitos episódios por contar. Digamos que é uma experiência “no terreno” que por vezes dá origem a algumas reflexões entre colegas, mas claro que sem cunho “científico” e caução académica, porque como sabemos aos docentes do Ensino Básico não é parece ser reconhecida tal capacidade, a menos que sejam cooptados para qualquer Observatório, Grupo de Trabalho ou organismo semelhante.

Por isso é que acho especialmente lastimável, a roçar o patético mesmo e esta é uma opinião que manteria sem problemas em debate fundamentado com o próprio, o texto de opinião do sociólogo do ISCTE (lá está, de onde mais poderia ser…) João Sebastião, pelos vistos Coordenador do Observatório de Segurança nas Escolas, que acompanha esta matéria e que tenta desarmar o discurso que qualifica de “alarmista” em torno da segurança nas Escolas. Afirma ele que tanto apresentar casos isolados de violência como descrever a violência em algumas escolas como sendo uma norma de vida é algo que «contribui para o crescimento do sentimento de insegurança das famílias». Pois, este é o tipo de constatação óbvia e inatacável, porque, ao que parece, tanto individualizar como generalizar são métodos errados de apresentar a coisa. Pelos vistos, silenciar deverá ser a estratégia correcta para evitar o “alarme”. Deus nos livre “alarmar” as pessoas com algo que, em particular ou em geral, existe e está à vista de todos. Mais vale deixar “alarmados” mas em silêncio as vítimas e testemunhas do que se passa. O que interessa é não alarmar as famílias, mesmo que os seus filhos passem situações de puro pânico.

Depois disto, o sociólogo João Sebastião , continua no segundo parágrafo do seu texto com uma argumentação especialmente flexível e ziguezaguenate, mas sempre sem perder o norte em relação à prevenção contra o “alarme“. Primeiro afirma que «este alarme social» parece não ter «base em dados concretos que as situações de violência em meio escolar tenham assumido uma grande dimensão ou estão fora de controlo».

Pois, realmente fora de controlo não estarão, tal como um fogo depois de iniciado e tendo passado apenas um par de horas ainda não está descontrolado. Mas será isso razão para dizer que não há fogo? E a partir de que patamar é que se define a tal «grande dimensão» e o «fora de controlo»? Quando já não houver remédio? Será que só deve haver preocupação quando se der algo parecido ao que tem acontecido em França? Quantos autocarros queimados serão necessários para sentirmos uma pontinha de «alarme»? Dois, uma dezena? Ou será melhor calculá-los per capita para sermos mais rigorosos?

Mas o opinador continua reconhecendo que afinal até existe violência nas Escolas e que isso justifica uma «intervenção específica» por parte do ME, o que terá levado à reformulação do projecto Escola Segura e à promoção do programa dos TEIP. Isto é interessante porque os TEIP há muito que existem e o projecto Escola Segura tem as suas vantagens mas é incapaz de, com os meios que tem, intervir num confronto entre dezenas de jovens como um ou outro a que assisti a uma dezena de metros de uma Escola onde leccionei há uma meia dúzia de anos.

Para além de que nem sempre está presente e em situação de impedir a entrada na escola de um ou mais indivíduos armados para agredirem alunos ou docentes. E isso acontece, infelizmente, mesmo se admiti-lo pode levar à existência de algum “alarme” a certas almas.

Mas claro que a pérola final da retórica sociológica de João Sebastião é fazer repousar a responsabilidade pelo combate à violência nas Escolas exclusivamente nas Escolas, que deve desenvolver modos de organização, estratégias de intervenção e uma atitude proactiva para evitar situações de violência. É mesmo afirmado que este problemas raramente são assuntos de polícia – não sei o que será uma tentativa de agressão com arma branca de um aluno a outro no recinto escolar ou fora dele, ou atentados contra a integridade dos automóveis dos docentes ou “esperas” à saída da Escola por Encarregados de Educação com ameaças – e nem uma palavra é usada para justificar a necessidade de uma intervenção no ambiente exterior àz escolaz para desarmadilhar ou descomprimir as situações de tensão social que envolvem muitas delas, como o tráfico de droga, a vulgarização dos roubos a alunos fora do recinto escolar ou aos automóveis, etc etc.

Ou seja, a violência nas Escolas é apresentada por João Sebastião em três parágrafos como sendo um problema da Escola e que ela deve resolver, como se fosse uma cápsula no espaço e no tempo, isolada de tudo o que há em seu redor. Quanto ao resto, o Ministério já fez o que devia fazer (claro, claro, claro…) e só no final se fala na necessidade de criar redes locais para análise do problema, mas no sentido de diferenciar «o que é violência urbana e o que resulta do fenómeno escolar propriamente dito», como se isso fosse possível de fazer num largo espectro de situações. Se alguém discute por uma questão de namoradas e acaba por provocar uma luta de gangs frente à Escola ou se um pequeno conflito numa fila do bar acaba com graves agressões no exterior, muitas vezes pelos próprios Encarregados de Educação, explique-me o estudioso mais sofisticado, por favor, onde está a fronteira que diferencia “violência urbana” de “violência escolar”? Nesta altura já não estamos a falar de um par de chapadas por causa do furto de uma esferográfica. Essa fronteira já foi ultrapassada há muito.

Mesmo sendo um texto de opinião para um jornal com apenas algumas dezenas de linhas esta mensagem é profundamente errada porque volta a colocar a pressão quase em exclusivo na Escola, desresponsabilizando todos os outros actores em presença. Se é para isto que precisamos de Observatório da Segurança nas Escolas e de um Coordenador para o dito, só peço que me digam quanto dinheiro é gasto para chegar a este tipo de platitudes discursivas.