Quarta-feira, 6 de Dezembro, 2006


Não deixa de ser curioso que no dia mais sombrio de posts aqui no Umbigo se esteja a atingir um dos níveis mais altos de audiências de sempre, neste momento a passar as 900 visitas.

Se chegar perto do milhar ainda desafio o Antero para fazer uma BD em tons de novela venezuelana com jovens professoras estagiárias maquilhadas mesmo quando tomam banho de espuma, exploradas e atraiçoadas por professores titulares de cãs grisalhas e bigode à Saddam, enquanto professoras encravadas a caminho do 8º escalão, de madeixas e vestuário berrante, congeminam artimanhas mil para conseguirem a promoção.

Pensando bem, até que é uma ideia bestial para uma novela da TVI: manda-se a Alexandra Lencastre de novo à recauchutagem para fazer de estagiária (e recordaríamos a Rua Sésamo feita com o patrocínio altíssimo do ME nos idos de 1989), convence-se o Nicolay Breyner a deixar crescer bigode como nos tempos da Vila Faia e, continuando na vaga revivalista dos anos 80, recuperam-se a Lídia Franco e a Helena Isabel para o papel de pérfidas de serviço.

Desculpem-me mas talvez esta tenha sido a melhor ideia alguma vez postada neste blog. Ou não…

Parece que os últimos posts estavam a deixar os leitores com a estranha sensação de que eu estaria demasiado sorumbático (ooopsss, há um blog com este nome linkado e tudo por aqui…) e porventura excessivamente melodramático.

Nem por isso.

Foi apenas um assim como que uma espécie de rodopio estilístico, que produziu mais efeito do que o esperado, a avaliar por alguns comentários. Bom… é verdade que o meu Sporting voltou ontem a ser humilhado por uma equipa russa em pleno Alvalade XXI, mas isso agora não interessa aqui nada.

Para (re)animar as hostes fica então aqui a parte final (a versão completa foi mandada retirar pela NBC) da presença de Sacha Baron Cohen, a.k.a. Borat Sagdiyev no programa de Jay Leno há poucos dias e que passou hoje na Sic-Comédia, quando Martha Stewart tenta sem qualquer sucesso demontrar como se faz “bem” uma cama.

Por estranho isto até tem tudo uma relação profunda, pois Sacha é formado em História e não por qualquer Universidade, mas exactamente pela vetusta e séria Cambridge. Afinal, os Monty Python também andaram por lá e por Oxford.

Os assuntos sérios seguirão depois desta interrupção e agora não digam que sou bipolar e caí no extremo oposto porque eu não sou dos que se arrepanha todo por causa do politicamente mais que incorrecto Borat.

Goya, O Três de Maio (1808)

Quanto aos longos títulos de alguns dos últimos posts, não foi desarranjo mental profundo, foi apenas para provar a mim mesmo que podia ter sido eu a escrever os títulos de alguns dos livros mais antigos do Garcia Marquez ou quiçá mesmo dos mais recentes do Lobo Antunes.

Ouço na TSF que uma equipa de investigadores do ISCTE – de onde haveria de ser? – quase que aposto que formada por sociólogos renomados ou aspirantes a, dilectos colegas de instituição da actual Ministra, chegou à conclusão, após um estudo em 4 escolas (4!!!) que os alunos de origem socio-económica mais favorecida, em escolas melhor equipadas e com pessoal docente mais estável têm níveis de insucesso escolar muito menores do que os de origem mais desfavorecida, com um certo peso das chamadas minorias étnicas e culturais e que andam em estabelecimentos pior equipados e com um pessoal docente mais flutuante. Parece que até imaginaram uma qualificação original para o fenómeno: “guetização escolar”.

Caramba, que realmente isto é uma coisa que só se sabe estudando muito, mesmo muito, se possível com um subsídio da FCT para fazer o estudo e pagar o trabalho de campo aos estagiários!!!

Mas então esperavam o quê? Que a Lua nascesse de manhã? Mas será que isto não está mais do que demonstrado há décadas e décadas?

E já agora, o que será de esperar de uma maior liberalização do ensino, nomeadamente na capacidade das famílias escolherem as escolas e destas seleccionarem os seus alunos? Está-se mesmo a ver que a “guetização” desaparecerá num instante, que as escolas em zonas problemáticas ficarão com corpos docentes estáveis e os equipamentos rejuvenescerão como que por um passe de mágica e as taxas de insucesso e abandono escolar cairão que nem tordos nestas zonas.

E agora entra o coelhinho da Páscoa em cena, com ovinhos fresquinhos, acabados de pôr pelas renas do Pai Natal.

Haja paciência.

A questão merece outro desenvolvimento, mas aqui fica apenas para registo já que vou oferecer à escola pelo menos meia dúzia de horas não remuneradas a desmanchar uma Feira do Livro, contabilizar as vendas, reempacotar os cartapácios, contactar as editoras para a devolução do material não vendido e tudo aquilo que muitos colegas fazem nesta altura do ano.

Mas depois de um voo rasante sobre comentários ne textos em outras paragens, gostaria de deixar aqui as minhas dúvidas sobre a validade de dar a predominância ou superioridade a alguém no processo educativo. A moda das últimas décadas é tornar o aluno o centro desse processo, alegando que sem ele o professor perde a razão de existir; há quem resista afirmando que sem professor também não há aluno, pois se não existir quem transmita o conhecimento é irrelevante se existe ou não quem o queira receber.

No meu caso não gosto de nenhuma das teorias porque implicam uma hierarquia valorativa. Prefiro que se concebam os papéis como diferentes, cada um dos nquais com os seus atributos, direitos e deveres, sendo para mim claro quem deve deter o exercício preferencial da auctoritas para que tudo funcione, o que significa necessariamente uma superioridade, mas apenas uma necessidade prática.

Prefiro considerar que no centro de tudo deve estar o conhecimento, o corpo de saberes que são transmitidos e sem os quais é que nem professor nem aluno fazem sentido. Os construtivistas poderão argumentar que esses saberes – ou competências – se podem construir em cooperação, sem necessidade de um professor. Pois, se quiserem voltar à Idade da Pedra e redescobrir o fogo e a roda a cada geração que passa, só para negarem o papel indispensável dos professores, estejam à vontade e sirvam-se.

Eu, por mim, prefiro desfrutar de algumas vantagens da evolução social e cultural e não ter de andar por aí à traulitada aos animaizinhos para comer e a apanhar valente diarreias por errar na escolha das bagas certas.

Mas, já agora e para finalizar, fica ainda uma outra dúvida que me assalta: então e quando o professor também é aluno? Eu estive nessa situação em muitos dos últimos 15 anos? Ali sou superior, mas acolá já sou inferior?