Algo me escapa sempre quando leio certas prosas inflamadas anti-professores. Assim como me faz a chamada “espécie” o tipo de raciocínio subjacente ao ataque a todos (sejam professores ou outros profissionais) em nome do mau desempenho de alguns. Mesmo nunca tendo acreditado no mito piedoso do bom selvagem, também demorei uns bons anos a desacreditar na bondade das pessoas em situações de normalidade, sem que exista uma razão muito clara para se ser mesquinho e se dirigir a primeira pedrada a alguém.

Mas a sanha triste de alguns comentadores e opinadores em relação à classe docente chega a raiar a obsessão doentia. Tudo serve para apoucar, para diminuir, para desmerecer os outros, porque parece que há quem só se sinta alguém obrigando os outros a agacharem-se ao seu nível. Alguns acham que por terem “sucesso”, normalmente medido por contas bancárias mais chorudas e carripanas de maior potência, para não entrar em outros detalhes mais caricatos que tenho só uma pontinha de pudor em aflorar, esquecem-se das suas próprias insuficiências e da sua grunhice fundamental e essencial.

Normalmente o bestunto escasso é encoberto com uma retórica aguerrida e tendendo a intimidar o “outro”, sendo sacramental a atitude hipócrita de dizer “Ahhh… mas eu até tenho um amigo que é  xyz”, sendo que a variável foi evoluindo conforme as conjunturas e circunstâcias. Acredito que o fundador desta tendência tenha sido um Neanderthal que depois de ter esmagado o crâneo a meia dúzia de outros hominídeos mais fraquinhos, terá grunhido algo equivalente a “ahhh… mas até tenho uns australopithecus conhecidos lá à esquina onde vivo”, sendo que um dos seus herdeiros poderá ter sido um simpático nazi que após a Noite de Cristal, medianamente incomodado com o cheiro do fumo, suspirou um “mmmm, mas o meu padeiro até é um judeu simpático”.

Este tipo de atitude condescendente, paternalista, que nem sempre consegue sequer mascarar a profunda intolerância que vai em certas almas, renasce sempre que cheira a disputa em que a distribuição dos poderes está claramente desequilibrada. Pois, porque esta nata da nata tenta sempre estar do lado que lhe surge como sendo o “mais forte” e deita as garras de fora, por trás do brutamontes que ameaça o lingrinhas oculista no pátio para lhe ficar com o lanche, argumentando que o lanche dele é demasiado bom para um mero lingrinhas oculista.

Não vou estar com rodeios, nem fingir que isto não tem destinatário, porque isso seria ser tão cínico e hipócrita como aqueles que estou a criticar. Pelo Umbigo passam com maior ou menor regularidade, alguns destes adeptos do bullying social e profissional, que se acoitam na rectaguarda do Ministério da Educação que temos, brandindo os varapaus afiados para conduzir os professores ao redil, aproveitando a onda que passa. Não percebo o que ganham com isso, para além de uma qualquer compensação psicológica por qualquer trauma passado ou neurose mal resolvida, tendo-se verificado um qualquer fenómeno de transfer que nos calhou em azar.

Para mim, e não sei se serei ofensivo mas a ideia é mesmo sê-lo, não me incomodam as opiniões contrárias às minhas, mas aquelas que apenas visam denegrir o próximo, a eito, só porque partilham uma determinada identidade dão-me uma certa náusea intelectual, admitindo que como professor me permitem achar que ainda sou dotado de intelecto. Não me interessa se dizem ou escrevem que, “mas veja lá, isto não é nada pessoal, você até parece ser assim e assado” ou o tal auto-justificativo “mas eu até tenho bons amigos professores”. Isso não chega para abafar o vómito, muito pelo contrário. Já lá dizia o um tipo alemão que viveu há muito tempo e parece que até era comunista, um Bertoldt qualquer coisa, que primeiro levaram uns e uma pessoa não nota muito, depois levaram os outros e encolhem-se os ombros, mas que só quando nos calha a nós é que damos por isso. Sei que a citação correcta não é assim, mas quero disfarçar a erudição, para que não me distingam da maralha e tratem como uma excepção e me excluam do extermínio desejado e anunciado.

Nestes casos, como em outros, prefiro estar do lado dos acossados do que pactuar com os esbirros. Feitios, sei lá…

O cartoon é do Antero, certamente outro incompetente relapso como eu, absentista recorrente e pessoa sem carácter, no geral e até no particular, não desmerecendo todos os outros 70, 80 ou mesmo 99% de docentes incapazes e responsáveis por todos os males desta Pátria Lusa incluindo as Berlengas, a ilha da Armona e até quiçá mesmo aqueloutro ilhéu que se vê não sei bem de onde, salvo os “amigos” dos tais, entenda-se.