Terça-feira, 5 de Dezembro, 2006


Quando houver tempo:

  1. Análise dos aspectos essenciais do depoimento “É preciso salvar a escola” de Laurent Lafforgue.
  2. A Minha Escola – 3. Os Actores Principais
  3. O Estatuto da Escravidão Docente – 6. A Selecção Ministerial

Algo me escapa sempre quando leio certas prosas inflamadas anti-professores. Assim como me faz a chamada “espécie” o tipo de raciocínio subjacente ao ataque a todos (sejam professores ou outros profissionais) em nome do mau desempenho de alguns. Mesmo nunca tendo acreditado no mito piedoso do bom selvagem, também demorei uns bons anos a desacreditar na bondade das pessoas em situações de normalidade, sem que exista uma razão muito clara para se ser mesquinho e se dirigir a primeira pedrada a alguém.

Mas a sanha triste de alguns comentadores e opinadores em relação à classe docente chega a raiar a obsessão doentia. Tudo serve para apoucar, para diminuir, para desmerecer os outros, porque parece que há quem só se sinta alguém obrigando os outros a agacharem-se ao seu nível. Alguns acham que por terem “sucesso”, normalmente medido por contas bancárias mais chorudas e carripanas de maior potência, para não entrar em outros detalhes mais caricatos que tenho só uma pontinha de pudor em aflorar, esquecem-se das suas próprias insuficiências e da sua grunhice fundamental e essencial.

Normalmente o bestunto escasso é encoberto com uma retórica aguerrida e tendendo a intimidar o “outro”, sendo sacramental a atitude hipócrita de dizer “Ahhh… mas eu até tenho um amigo que é  xyz”, sendo que a variável foi evoluindo conforme as conjunturas e circunstâcias. Acredito que o fundador desta tendência tenha sido um Neanderthal que depois de ter esmagado o crâneo a meia dúzia de outros hominídeos mais fraquinhos, terá grunhido algo equivalente a “ahhh… mas até tenho uns australopithecus conhecidos lá à esquina onde vivo”, sendo que um dos seus herdeiros poderá ter sido um simpático nazi que após a Noite de Cristal, medianamente incomodado com o cheiro do fumo, suspirou um “mmmm, mas o meu padeiro até é um judeu simpático”.

Este tipo de atitude condescendente, paternalista, que nem sempre consegue sequer mascarar a profunda intolerância que vai em certas almas, renasce sempre que cheira a disputa em que a distribuição dos poderes está claramente desequilibrada. Pois, porque esta nata da nata tenta sempre estar do lado que lhe surge como sendo o “mais forte” e deita as garras de fora, por trás do brutamontes que ameaça o lingrinhas oculista no pátio para lhe ficar com o lanche, argumentando que o lanche dele é demasiado bom para um mero lingrinhas oculista.

Não vou estar com rodeios, nem fingir que isto não tem destinatário, porque isso seria ser tão cínico e hipócrita como aqueles que estou a criticar. Pelo Umbigo passam com maior ou menor regularidade, alguns destes adeptos do bullying social e profissional, que se acoitam na rectaguarda do Ministério da Educação que temos, brandindo os varapaus afiados para conduzir os professores ao redil, aproveitando a onda que passa. Não percebo o que ganham com isso, para além de uma qualquer compensação psicológica por qualquer trauma passado ou neurose mal resolvida, tendo-se verificado um qualquer fenómeno de transfer que nos calhou em azar.

Para mim, e não sei se serei ofensivo mas a ideia é mesmo sê-lo, não me incomodam as opiniões contrárias às minhas, mas aquelas que apenas visam denegrir o próximo, a eito, só porque partilham uma determinada identidade dão-me uma certa náusea intelectual, admitindo que como professor me permitem achar que ainda sou dotado de intelecto. Não me interessa se dizem ou escrevem que, “mas veja lá, isto não é nada pessoal, você até parece ser assim e assado” ou o tal auto-justificativo “mas eu até tenho bons amigos professores”. Isso não chega para abafar o vómito, muito pelo contrário. Já lá dizia o um tipo alemão que viveu há muito tempo e parece que até era comunista, um Bertoldt qualquer coisa, que primeiro levaram uns e uma pessoa não nota muito, depois levaram os outros e encolhem-se os ombros, mas que só quando nos calha a nós é que damos por isso. Sei que a citação correcta não é assim, mas quero disfarçar a erudição, para que não me distingam da maralha e tratem como uma excepção e me excluam do extermínio desejado e anunciado.

Nestes casos, como em outros, prefiro estar do lado dos acossados do que pactuar com os esbirros. Feitios, sei lá…

O cartoon é do Antero, certamente outro incompetente relapso como eu, absentista recorrente e pessoa sem carácter, no geral e até no particular, não desmerecendo todos os outros 70, 80 ou mesmo 99% de docentes incapazes e responsáveis por todos os males desta Pátria Lusa incluindo as Berlengas, a ilha da Armona e até quiçá mesmo aqueloutro ilhéu que se vê não sei bem de onde, salvo os “amigos” dos tais, entenda-se.

No Doc Log, Leonor Areal faz uma muito aprofundada síntese da discussão em torno da TLEBS parecendo concluir que afinal toda esta reviada de indignação tem pouco fundamento.

Pode ser que sim e que até alguns colunistas não percebam exactamente do assunto ou que tenham agora chegado à pressa ao tema, por parecer bombo fácil de bater.

Quanto a isso não me vou pronunciar por agora, pois me falta substância suficiente para entrar afoito e demonstrar que a TLEBS enquanto construção intelectual opu instrumento para o ensino e aprendizagem da nossa língua é um perfeito disparate, mesmo se há coisas que me parecem serem-nos e outros mais diplomados do que eu na matéria o parecem confirmar.

Mas deter-me-ia brevemente pelo menos na questão do processo, na forma como tudo isto tem decorrido na sua prática, primeiro com a tentativa voluntarista de generalização da “experiência” e depois no seu recuo em diversas das frentes de batalha abertas, porque tudo isso tem consequências profundamente nefastas nas Escolas.

Antes de mais, sendo a TLEBS uma terminologia e não uma gramática ou mesmo um programa de conteúdos disciplinares, conviria perceber até que ponto a portaria de 1488/2004 de 24 de Dezembro se insere no quadro legal que orienta a acção dos professores de Língua Portuguesa. Se não se substitui ao programa, supõe-se que é para aplicar em função desse mesmo programa, conforme as necessidades. Mas então o que é que exactamente se aplica a cada nível de ensino? E como se faz para que os alunos não deitem fora os seus manuais, onde as matérias se encontram expostas de outra forma?

E já agora como ficamos em relação àquela que eu considero ser a crítica mais pertinente à TLEBS ou seja, se ela estará verdadeiramente pensada para os Ensinos Básico e Secundário, nomeadamente aquilo que deve ser leccionado a cada um desse níveis.

Que a TLEBS não é um programa disciplinar, é certo, mas talvez fosse boa ideia que a sua generalização fosse pensada em articulação com um reajuste, no mínimo, dos programas e dos manuais que entretanto vão – ou não – sendo feitos sobre areias movediças.

E as coisas deveriam seguir uma ordem lógica que, para mim, seria a conclusão da TLEBS com as suas experiências-piloto para determinar a necessidade de acertos, a reformulação dos programas dos diversos níveis de ensino de Língua Portuguesa, a produção de materiais de apoio acima do nível da manta de retalhos puída e então a sua generalização seguindo um roteiro e um calendário.

Só que tudo se está a passar ao contrário. Será que estamos a fazer barulho para nada? Acho que não, acho que não, porque independentemente do acerto ou desacerto das críticas dos literatos, fica a muitíssimo importante questão prática da forma como a implementação da TLEBS está ser feita. Ou a não ser feita, já nem sei bem.