Sexta-feira, 1 de Dezembro, 2006


(c) Antero Valério

Ainda pelo Expresso de hoje decidi espreitar o caderno de Economia, o que para mim é pouco habitual, mas um tipo não deve negar uma “ciência” que desconhece.

E por lá encontrei dois textos sintomáticos do que é o “ser português” no que tem de fatalista e ao mesmo tempo de crítica ao fatalismo. Num deles, Nicolau Santos escreve sobre a necessidade de deixarmos de ser cépticos quanto às nossas possibilidades de vingarmos e termos sucesso e dá exemplos de várias coisas boas com origem em Portugal e usadas lá fora por pessoas e instituições de renome.

O problema é que o mais certo é que essas coisas (sejam programas informáticos para a Nasa ou sapatos para o Spielberg) é não serem reconhecidas pelos seus utentes como portuguesas ou, inclusivamente, serem usadas apesar de… É verdade a nossa proverbial baixa auto-estima não é um mito e, principalmente, não é um mito cá do torrão. A nossa imagem lá fora está longe de ser a de um país de inovação e qualidade, praias e golf para aposentados ou empresários de média gama à parte.

Para além de que, para quase todos os países do mundo, é possível encontrar exemplos equivalentes.

Mas talvez o mais grave seja o que vem exactamenbte nas páginas anteriores a este texto optimista de Nicolau Santos. Nas páginas 2 e 3 do mesmo caderno dá-se a saber que deixámos há muito de ser auto-suicientes numa das nossas tradicionais e emblemátcas produções, o azeite, sendo que mesmo o que consumimos e é produzido a partir das nossas oliveiras, acaba por ser transformado e nos é revendido por empresas espanholas.

Tudo isto porque, vão lá duas décadas, muito boa gente acorreu aos subsídios da então CEE para extirpar oliveiras, porque existiria então um excedente de azeite na Europa comunitária. Exactamente há 19 anos, em Dezembro de 1987, eu concluía um curso de pós-graduação em detecção remota (uma modernice da altura paga com alguns dos primeiros fundos do FSE), cujo trabalho prático passou por analisar através de fotografia aérea e de satélite, e depois no terreno, a eventual existência de restos arqueológicos soterrados nos campos de algumas zonas do Alentejo. E foi nessas fotos que vi pela primeira vez a cratera criada pelo arranque de oliveiras centenárias e me choquei com o atentado ambiental que aquilo significava, assim como a absoluta irracionalidade de subsidiar a não-produção e mesmo a tentativa de quase extinguir uma actividade tradicional, em vez de pagar para a sua modernização.

Mesmo muitos pequenos e médios produtores preferiram receber de uma vez o dinheirinho, à boa e velha moda portuguesa de olhar só para o curto prazo, do que investir algo na melhoria do seu modo de vida. Agora vemos no que isso deu. Até o azeite contribui para nos desiquilibrar a balança comercial.

Por isso mesmo, e por muito que goste de por cá viver e nunca me tenha ocorrido seriamente emigrar para lado nenhum, não posso deixar de achar que nós temos o país que merecemos, pois fomos nós que o transformámos no que é, com todas as suas limitações resultantes do acomodamento e as virtudes de desenrascanço. Será certamente muito interessante saber que o Blair veste umas fatiotas feitas ali para o norte ou que os bonecos da Guerra das Estrelas calçam umas sapatolas de origem nacional. No entanto, e chame-me saudosista quem quiser, preferia que tudo isso fosse feito a par com a modernização dos clusters empresariais da nossa economia que apresentam um carácter específico e competitivo nos mercados internacionais, onde temos vantagens comparativas (eu sei, fui dos que li e gostei do relatório Porter sobre o assunto) do que ir apostar em sectores que hoje já estão ocupados por quem lá chegou muito antes de nós. Podemos ter exemplos de sucesso nessas áreas, mas serão sempre casos relativamente isolados e singulares e não uma rede capaz de servir de base para um modelo de desenvolvimento.

Fatalismo? Desânimo? Não, apenas consciência de 20 anos falhados de generalizada subsidiodependência, sem capacidade de criar um modelo de desenvolvimento específico, que não passe pela venda de telemóveis, a abertura de grandes superfícies ou pelo negócio das obras públicas e construção civil.

Já aqui repetidamente escrevi sobre o que acho ser a mais completa campanha de manipulação informativa deste governo e talvez uma das mais eficazes da história do nosso regime actual: com efeito, acho que o aparelho de comunicação colocado ao serviço do Ministério da Educação faz empalidecer por comparação aquelas tacanhas tentativas de criar uma Central de Comunicação no tempo do governo Santana/Portas.

Também já destaquei o facto de achar que, entre outros poisos, a revista Visão tem sido uma das publicações que de forma mais cordata tem acolhido esse tipo de intervenção. Hoje gostaria de acrescentar que talvez mais do que a Visão seja boa parte do grupo a que pertence a estar associado às actuais políticas na área educativa, como se viu pela entrevista (?) feita na Sic-Notícias à titular da pasta e a detalhes que vão polvilhando, por exemplo, o Expresso, como hoje no seu caderno Actual.

Se tiverem a gentileza de abrir o dito suplemento na página 18 encontrarão no balanço semanal em alta a Ministra da Educação e, nem de propósito, logo ao lado a Texto Editora.

As razões adiantadas para esses posicionamentos não deixam de ser curiosas: MLR está em alta porque a Fundação Gulbenkian, pela mão de Marçal Grilo, decidiu oferecer 450.000 euros para apoiar o Plano Nacional de Leitura. A Texto Editora está em baixa porque decidiu acabar com a revista Pontos nos ii, devido, de acordo com a opinião do seu até agora director Santana Castilho, ao incómodo que certas opiniões que veiculava estavam a produzir junto da própria Ministra da Educação.

Isto significa que MLRodrigues está em alta por algo que não fez, pois limita-se a receber a tença da Gulbenkian e nisso não há especial mérito, mas não surge em baixa por, ao que parece, ter estado na origem da decisão de uma editora fechar uma revista para evitar dificuldades, visto ser fundamentalmente uma editora de manuais escolares e outros materiais destinados às escolas e a um mercado específico (alunos, professores, encarregados de educação), onde os ditames do ME são de importância fulcral.

Já agora fica aqui republicado o texto escrito a 13 de Janeiro exactamente a propósito do aparecimento desta revista, assim como da 2 Pontos, com a qual não me voltei a cruzar:

Os professores têm andado em bolandas, atirados daqui para ali, desrespeitados e mal pagos, obrigados a fazer o que o seu Estatuto profissional não prevê, mal defendidos pelos seus sindicatos e apresentados como os maus da fita à opinião pública.
Mas, de repente, surgem revistas em sua aparente defesa, dando-lhes algum espaço para as suas palavras.
O problema é que, se formos á ficha técnica, estas revistas são dominadas pelas duas grandes editoras de manuais do mercado (Porto e Texto).
E, minhas amigas e meus amigos, não há revistas que fiquem de borla.

Um tipo já anda há demasiado tempo nisto para se dar ao luxo de ser ingénuo.

Wassilly Kandinsky (1940)

E, já agora, não consigo visualizar os vídeos do YouTube que tento colocar em posts. Será só problema meu?

Dois excelentes textos enviados por leitores, um por Mário Artur Machaqueiro, de sua autoria, com o título “CONTRADIÇÕES E DISFUNÇÕES NO SISTEMA DE ENSINO EM PORTUGAL”, resultante de uma comunicação ao IV Congresso Português de Sociologia.

O outro enviado pelo António Ferrão, que procedeu á tradução do original, tem o título “É PRECISO SALVAR A ESCOLA!” e é de Laurent Lafforgue (matemático), resultando de uma conferência dada em 24 de Abril 2006 em Versailles para a associação “Audace et Responsabilité”, a 26 de Abril em Paris para a associação “Prospective 2100” e a 23 de Maio em Antony para a “l’Association des Scientifiques Chrétiens”, estando ainda disponível on-line no site do autor: http://www.ihes.fr/~lafforgue/.

Ambos são análises bastante penetrantes do fenómeno educativo e levantam muitas questões para discussão. A sua colocação em forma de posts no Umbigo é incomportável pela extensão, mas talvez venha a criar uma página específica para este tipo de textos mais longos. Entretanto, logo que me seja possível, farei os principais destaques de ambas as leituras.

Fazer textos mais curtos e concisos, pois eu perco-me a escrever e depois há quem se perca na leitura, como bem notou o Miguel Pinto. Neste caso é um feitio que é por vezes um claro defeito.