Antes de mais estes não vão ser textos a pender para o erudito, citando este e aquele autor por tudo e por nada. Este é apenas o primeiro de um conjunto de textos opinativos, necessariamente decorrentes do cruzamento da minha experiência pessoal com leituras pretéritas e presentes, que pretendem apresentar um ponto de vista e nada mais. Um blog ainda é, e tão só, um blog. Não é uma revista científica ou uma sessão de um seminário ou colóquio.

Posto isto, metamos a mão na massa.

A Escola é uma espaço, uma experiência e um período (maior ou menor) da nossa vida por que quase todos nós passámos. Os mais aventurados passaram mais tempo e isso todos reconhecemos. Em especial a Escola Primária é sempre recordada com alguma nostalgia, acredito que mesmo pelos meus colegas que levavam 20-30 reguadas por cada ditado de 20-30 linhas. Passado tempo, tudo parece ficar mais dourado, em primeiro lugar porque são memórias de um tempo de infância que, por mais difícil que tenha sido, à distância parece quase sempre melhor do que foi no próprio momento.

Essa é a razão porque, como um leitor já assinalou e muitos estudiosos também constataram, todos têm um ponto de vista sobre a Escola, mesmo se nem sempre de forma clara sobre o seu aspecto institucional ou organizativo, muito menos de forma devidamente informada. Mas, como no futebol, da bancada todos conseguimos ver os erros dos intervenientes e chamar fdp ao árbitro e ao avançado que falhou o golo. Lá dentro, mesmo quando se ofende o árbitro ou os adversários, isso muitas vezes é castigado com um falhanço próprio. Ou seja, só quem não está lá, se encontra livre de errar. Mas também isto é acessório.

Foquemo-nos no essencial e comecemos pelo princípio, para não sermos excessivamente originais. E onde é o começo? O começo de uma análise da Escola encontra-se não em si própria mas no que a envolve, condiciona e modela. A Escola é uma instituição, uma espaço, uma organização (ou o que lhe queiram chamar) social e resulta de uma necessidade da sociedade. Em particular a chamada Escola de Massas que temos resulta de uma necessidade das sociedades industriais massificadas encontrarem uma instituição que, perante o crescente envolvimento de homens e mulheres em actividades económicas a tempo inteiro e perante a desagregação da chamada família alargada como espaço de socialização das crianças, proceda a essa mesma socialização e à preparação de crianças e jovens para a sua vida activa futura, mediante um processo educativo que lhes transmita aqueles que são considerados os apetrechos intelectuais básicos para essa mesma vida. Sei que esta é uma tirada algo generalista, passível de críticas de várias perspectivas, mas tudo bem.

Sendo uma instituição/organização que resulta de uma necessidade social, a Escola não existe isolada do contexto mais (país, nação) ou menos (região, comunidade) alargado em que se insere, nem das necessidades específicas desse contexto. Apesar das teorias universalistas de um modelo de escola-padrão, uma escola no Nepral não é o mesmo que uma escola na Suiça, apesar de eventuais semelhanças. Também por isso, a Escola desempenha uma função social (aqui eu sei que vou descair para alguma sociologia pouco modernaça) indispensável e que, na minha opinião mas não só, poderá ser tão mais eficaz quanto se perceber que é uma função específica e especializada e não generalista e indiferenciada.

Um hospital é um hospital e um tribunal é um tribunal. Um hospital pode ter lá dentro uma farmácia, mas não é essa a sua função central, assim como um trobunal pode ter celas, mas não é uma prisão.

Ora por estas bandas tende muitas vezes a considerar-se que uma Escola não é uma Escola mas outra ou muitas outras coisas. Normalmente procura metamorfosear-se esta tendência com o recurso ao chavão da “reconfiguraçao”, ou “redefinição” ou “adaptação” da Escola e do seu papel, como resultado da evolução dos tempos, dos hábitos e de tudo o mais. Curiosamente, essa reconfiguração só muito superficialmente é advogada para outras instituições, cuja função central permanece consensualmente inalterada.

No caso da Escola, não é assim. A Escola passou a ser tudo e, como muito bem já disse alguém com mais competência do que eu, ao tentar ser-se tudo, acaba por não se ser nada verdadeiramente bem. Aparentemente, muita gente não percebe que a Escola deve centrar-se na sua função educativa e tentar desempenha essa – já de si difícil – função o melhor possível e deixar a outras instituições outro tipo de paéis e funções. A Escola até pode ter um serviço de Apoio ou Acção Social, até pode ter Serviços de Orientação ou Acompanhamento Psicológico, até pode ter milhentas outras valências, mas deve sempre perceber-se que essas funções necessitam de agentes altamente especializados, assim como a própria docência. E não misturar tudo isso. Articular, conjugar, tudo bem; agora misturar, não!

Se é verdade que os professores não podem ser os mestres distantes que debitam os seus conhecimentos por sobre uma mole amorfa de alunos, também não se pode pretender que eles sejam assistentes sociais, psicólogos educacionais e tudo o mais. Podem ser um pouco disso, mas essas funções devem ser deixadas a quem de direito. E a Escola não pode ser encarada como um supermercado ou uma loja de conveniência onde se encontra um pouco de tudo, mas necessariamente de média ou baixa qualidade.

Num país em que a mediocridade, o laxismo e a falta de rigor  imperam em larguíssimos sectores da vida, com nichos muito circunscritos de competitividade e excelência, há quem ache que a Escola é a instituição onde a Excelência é uma obrigação e uma regra a seguir sem excepção. Eu gostaria que isso fosse assim, e até considero que a Excelência deve ser sempre a meta de todos nós no que fazemos e do funcionamento de todas as instituições, mas sejamos realistas, se conseguirmos que a Escola seja meramente Boa isso já será uma enorme conquista e uma excepção no contexto nacional.

Querer que a Educação e a Escola sejam o motor do desenvolvimento económico, cívico e cultural de um país é uma ambição legítima, mas altamente irrealista em termos de curto ou mesmo médio prazo. E transformar a Educação num palco de confronto político-ideológico é um erro tremendo, assim como conceber a Escola como o principal instrumento do Estado para cilindrar as desigualdades sociais é um equívoco destinado a uma enorme fracasso.

A Escola deve ser uma instituição definida pelas sua função educativa e essa função deve ser assumida por todos como altamente especializada e não um alforje imenso onde tudo se amontoa. A Escola deve fazer parte de uma rede de instituições de natureza social que enquadrem a socialização das crianças e jovens, apoiando-as em todas as necessidades que as famílias não estejam em situação de prover e não ser A instituição por onde tudo passa.

O gigantismo e o carácter multifuncional já deixaram de ser critérios definidores de qualidade do desempenho das “organizações”. Cada vez mais se aposta na especialização npo mundo empresarial. Os programadores da Microsoft não andam a montar computadores; podem fazê-lo, mas não é nisso que são (ou não, de acordo com os defensores do software livre) muito bons. Um médico neurologista não faz biscates como oftalmologista. Num centro de saúde não se vendem edredons para quem lá chega com frio. Numa esquadra de polícia não se vendem coletes à prova de bala.

Quando tanto se fala contra a indiferenciação na avaliação das Escolas e dos professores, parece esquecer-se que no mesmo pacote discursivo vai agregada uma noção da Escola como espaço indiferenciado e multifuncional, onde parece que todos podem fazer tudo e bem.

Não é assim. Uma Escola é uma Escola, por muitas “reconfigurações” com que acenem. Pode reconfigurar-se a forma como se faz, mas não o que se faz. Eu quando dou uma aula de História de Portugal já não o faço à moda de um Heródoto a contar os mitos fundacionais da Grécia Clássica; no entanto, a função essencial de transmissão de conhecimentos (ou competências… mas isso é assunto para outro post) de uma geração para outra com vista á preparação para o futuro é essencialmente a mesma.

Há quem não perceba isso e misture tudo. Essa é a forma errada de conceber a Escola e o caminho mais curto para a conduzir para o fracasso. Para o fracasso que aqueles que o provocaram serão os primeiros a apontar.

A imagem foi recolhida aqui e é da EB1 da Gralheira
Anúncios