Na Sic-Notícias Maria de Lurdes Rodrigues é entrevistada, em modelo de trio com Teresa Calado e Ana Maria Magalhães, por Maria João Avillez que lhe pergunta o que é uma boa escola pública.

Como vai sendo habitual, a senhora Ministra não é capaz de responder directa e objectivamente à questão e no arremedo de discurso que alinhava diz algo que se ouve e não se acredita de tão trôpego e incoerente: antes de mais afirma que os países “com que nos identificamos”, os países da “liberdade, da democracia“, etc (quase que ouço o eco do Durão Barroso à saída da cimeira dos Açores), conseguiram o seu desenvolvimento com base numa escola pública de qualidade. Eu por acaso até lamento que assim (não) seja, mas isto não é verdade. A Inglaterra, os Estados Unidos, a Escandinávia, tudo nações que marcaram diversas fases do crescimento económico e da sociedade (pós)industrial moderna, foram nações onde um sistema público de ensino só surgiu depois de estar no terreno um forte sector educativo privado. É um facto histórico, nem sequer dá para contestar. Com escrevi até lamento que assim tenha sido, porque em Portugal não confio muito no papel do sector privado na Educação, mas as coisas são como são, ou foram como foram e não como convém afirmar que terão sido.

Em seguida, MLR envereda por um outro naco discursivo estranho sobre a igualdade de oportunidades e sobre a Escola como plataforma necessária para atenuar as fortes desigualdades sociais que existem em países como nosso, para que não se verifiquem processos de reprodução das desigualdades (por onde anda o PJ que me acusou de ser adepto do Bourdieu?). E seguindo uma lógica que me escapa afirma que só com rigor e qualidade na escola pública é possível uma igualdade de oportunidades.

Vamos lá a ver uma ou duas coisas: eu sou a favor da igualdade de oportunidades e do rigor e qualidade na Escola, mas lamento de novo dizer que o nexo causal entre estas variáveis pode ser ténue, em especial se a igualdade de oportunidades for feita com base no abaixamento dos critérios de avaliação, o que necessariamente implica uma redução do rigor, se não mesmo da qualidade do ensino. A resposta estará no facto de, muito provavelmente, o rigor a que se estaria a referir MLR seja apenas o que se aplica aos docentes.

Mas o que é sempre estranho, muito estranho, é que este cruzamento de lugares-comuns aparentemente incontestáveis, mas expressos de um modo incoerente do ponto de vista lógico, com as partes a não encaixarem num todo articulado, passe sempre sem reparo, como se fossem pérolas de sapiência quando são apenas manifestações do inverso, de um enorme vazio de ideias encoberto por uma barragem de clichés. Quase faz lembrar aquele aluno que, tendo empinado a matéria sobre um dado tema, quando pretende responder à questão, debita de forma desordenada e desarticulada tudo o que memorizou sem se preocupar em perceber se está na ordem certa e com as causas a antecederem os fenómenos delas decorrentes.

Já sei que me dirão que este é um ataque à pessoa e não à política, mas a isso eu replicarei que este é um ataque a uma nuvem difusa de ideias que nem percebo se lá estão verdadeiramente. Lamento, mas é com toda a sinceridade e sem qualquer especial má-vontade aquilo que penso sobre este tipo de declarações.