Este livro bastante recente traz-nos o depoimento desencantado umas vezes, dramátido em outras de perto de uma dezena de professoras que, independentemente da idade ou mesmo do seu tipo de vínculo, foram obrigadas a fazer a trouxa e a ir leccionar para centenas de quilómetros de casa, para terem a certeza de manter o seu emprego e salário.

Se muitas vezes procuro evitar este tipo de depoimentos nos meus textos é não apenas porque, como regra, optei por outro modelo de discurso e porque, tenho de ser sincero, na quase dúzia de anos de contratado nunca fiquei a mais de 25 km de casa, embora com o sacrifíco, no mínimo,  de mês e meio a dois meses de salário (colocações apenas da segunda semana de Outubro em diante) e de algumas centenas de dias de serviço (anos com horários incompletos devido a substituições muito tardias ou em circunstâncias anedóticas). Foi uma opção que fiz, perdi dinheiro (ou talvez não), perdi tempo de serviço e posições no concurso, mas procurei manter a minha errância pelo país circunscrita apenas aos casos de extrema necessidade ou de lazer.

Mas por isso mesmo, e até pelo facto dos testemunhos serem femininos – perdoem-me o estereotipo, mas ele até é assumido pela autora da compilação – este livro é particularmente revelador sobre os dramas pessoais e familiares que o exercício da docência acarreta em muitos casos. Já sei que há opiniões e vozes que acham que é mesmo assim que tem de ser, e que é preciso lutar pelo emprego e tal, assim como também já conheço o facto das macro-teorias de gabinete tratarem apenas de números e não de pessoas, nem se compadecerem com as situações particulares daqueles cuja vida afectam com as suas medidas.

Por acaso ou talvez não, é quase só aos professores que se exige que, em vez de números, vejam sempre rostos, e que no lugar de avaliar objectivamente desempenhos, tenham sempre em consideração a especificidade de todos e cada um dos seus 100, 150 ou 200 alunos anuais.

Parece que quem não corre acha que quem corre o faz por gosto e, logo, não se cansa. Mas olhem que cansa e não é pouco.