Domingo, 26 de Novembro, 2006


Na Sic-Notícias Maria de Lurdes Rodrigues é entrevistada, em modelo de trio com Teresa Calado e Ana Maria Magalhães, por Maria João Avillez que lhe pergunta o que é uma boa escola pública.

Como vai sendo habitual, a senhora Ministra não é capaz de responder directa e objectivamente à questão e no arremedo de discurso que alinhava diz algo que se ouve e não se acredita de tão trôpego e incoerente: antes de mais afirma que os países “com que nos identificamos”, os países da “liberdade, da democracia“, etc (quase que ouço o eco do Durão Barroso à saída da cimeira dos Açores), conseguiram o seu desenvolvimento com base numa escola pública de qualidade. Eu por acaso até lamento que assim (não) seja, mas isto não é verdade. A Inglaterra, os Estados Unidos, a Escandinávia, tudo nações que marcaram diversas fases do crescimento económico e da sociedade (pós)industrial moderna, foram nações onde um sistema público de ensino só surgiu depois de estar no terreno um forte sector educativo privado. É um facto histórico, nem sequer dá para contestar. Com escrevi até lamento que assim tenha sido, porque em Portugal não confio muito no papel do sector privado na Educação, mas as coisas são como são, ou foram como foram e não como convém afirmar que terão sido.

Em seguida, MLR envereda por um outro naco discursivo estranho sobre a igualdade de oportunidades e sobre a Escola como plataforma necessária para atenuar as fortes desigualdades sociais que existem em países como nosso, para que não se verifiquem processos de reprodução das desigualdades (por onde anda o PJ que me acusou de ser adepto do Bourdieu?). E seguindo uma lógica que me escapa afirma que só com rigor e qualidade na escola pública é possível uma igualdade de oportunidades.

Vamos lá a ver uma ou duas coisas: eu sou a favor da igualdade de oportunidades e do rigor e qualidade na Escola, mas lamento de novo dizer que o nexo causal entre estas variáveis pode ser ténue, em especial se a igualdade de oportunidades for feita com base no abaixamento dos critérios de avaliação, o que necessariamente implica uma redução do rigor, se não mesmo da qualidade do ensino. A resposta estará no facto de, muito provavelmente, o rigor a que se estaria a referir MLR seja apenas o que se aplica aos docentes.

Mas o que é sempre estranho, muito estranho, é que este cruzamento de lugares-comuns aparentemente incontestáveis, mas expressos de um modo incoerente do ponto de vista lógico, com as partes a não encaixarem num todo articulado, passe sempre sem reparo, como se fossem pérolas de sapiência quando são apenas manifestações do inverso, de um enorme vazio de ideias encoberto por uma barragem de clichés. Quase faz lembrar aquele aluno que, tendo empinado a matéria sobre um dado tema, quando pretende responder à questão, debita de forma desordenada e desarticulada tudo o que memorizou sem se preocupar em perceber se está na ordem certa e com as causas a antecederem os fenómenos delas decorrentes.

Já sei que me dirão que este é um ataque à pessoa e não à política, mas a isso eu replicarei que este é um ataque a uma nuvem difusa de ideias que nem percebo se lá estão verdadeiramente. Lamento, mas é com toda a sinceridade e sem qualquer especial má-vontade aquilo que penso sobre este tipo de declarações.

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Radicalidade e coragem, pois, dois ingredientes raros na maioria dos livros que enlixam as prateleiras das livrarias que ainda restam. E mais raros ainda numa obra sobre o universo concentracionário a que alecremente chamamos «comunicação social». Um mundo que por tão obscenamente exposto é tão quotidianamente (mal) falado, nem parece ser o tabu que, na verdade, é.

Um mundo dirigido, em regra, por serventuários dóceis, dessa geração que Serge Halimi, tão bem captou ao descrevê-la como de «jornalistas que a golpes de audácia bem calculados” efectuaram “com êxisto uma bela reconversão do militantismo de extrema-esquerda para o centro-esquerda mediático». Viagem de novos convertidos que lhes acicata o ódio a quem outrora os testemunhou ou simplesmente não pensa como eles, e lhes agiganta o despudor com que disfarçam o embaraço que tantas vezes lhes traz a jornada. Percursos simultaneamente tão desculpabilizadores, tão apaziguadores de consciências mal apagadas, como remuneradores, de bolsos bem recheados. Servido por discursos de lugares-comuns, reenquadrados por meta-discursos a seu respeito constituídos, por seu lado, de lugares-comuns (…). (Vicente Romano, A Formação da Mentalidade Submissa, p. 15)

Afinal Espanha sempre está aqui bem mais perto e com traços bem mais comuns aos nossos do que se pensaria. E o que aqui se transcreve sobre o mundo da comunicação social é facilmente decalcável para outros espaços sociais…

(c) Antero Valério

Este livro bastante recente traz-nos o depoimento desencantado umas vezes, dramátido em outras de perto de uma dezena de professoras que, independentemente da idade ou mesmo do seu tipo de vínculo, foram obrigadas a fazer a trouxa e a ir leccionar para centenas de quilómetros de casa, para terem a certeza de manter o seu emprego e salário.

Se muitas vezes procuro evitar este tipo de depoimentos nos meus textos é não apenas porque, como regra, optei por outro modelo de discurso e porque, tenho de ser sincero, na quase dúzia de anos de contratado nunca fiquei a mais de 25 km de casa, embora com o sacrifíco, no mínimo,  de mês e meio a dois meses de salário (colocações apenas da segunda semana de Outubro em diante) e de algumas centenas de dias de serviço (anos com horários incompletos devido a substituições muito tardias ou em circunstâncias anedóticas). Foi uma opção que fiz, perdi dinheiro (ou talvez não), perdi tempo de serviço e posições no concurso, mas procurei manter a minha errância pelo país circunscrita apenas aos casos de extrema necessidade ou de lazer.

Mas por isso mesmo, e até pelo facto dos testemunhos serem femininos – perdoem-me o estereotipo, mas ele até é assumido pela autora da compilação – este livro é particularmente revelador sobre os dramas pessoais e familiares que o exercício da docência acarreta em muitos casos. Já sei que há opiniões e vozes que acham que é mesmo assim que tem de ser, e que é preciso lutar pelo emprego e tal, assim como também já conheço o facto das macro-teorias de gabinete tratarem apenas de números e não de pessoas, nem se compadecerem com as situações particulares daqueles cuja vida afectam com as suas medidas.

Por acaso ou talvez não, é quase só aos professores que se exige que, em vez de números, vejam sempre rostos, e que no lugar de avaliar objectivamente desempenhos, tenham sempre em consideração a especificidade de todos e cada um dos seus 100, 150 ou 200 alunos anuais.

Parece que quem não corre acha que quem corre o faz por gosto e, logo, não se cansa. Mas olhem que cansa e não é pouco.