Sexta-feira, 24 de Novembro, 2006


O António Ferrão está a traduzir o depoimento de um nosso (“nosso” é como quem diz, porque há quem venha cá que não é professor) colega francês que aflora muitos temas que agora estão na ordem do dia e que servirá para lançar mais algumas discussões por estas bandas.

Entretanto, estou a embrenhar-me na versão final do Estatuto da Escravidão Docente e vou ver se consigo alinhar uns quantos posts sobre os aspectos que mais me maravilham na peça, desde logo começando pelo intróito auto-justificativo e continuando pela obrigatoriedade de quem ousar ter Excelente se ver obrigado(a) a revelar os segredos da sua actividade em prol do sucesso escolar dos alunos para exposição numa base de dados do Ministério. Só gostava de saber que classificação vão ter os autores dos materiais sobre o Tioneu autopsiado de acordo com a TLEBS. Se tudo correr bem, sou capaz de conseguir voltar a produzir mais daqueles enormes textos que começo a escrever e depois nunca mais consigo acabar.

Naquela eleição para o maior português de todos os tempos que a RTP andou a promover, passei bastante ao lado das polémicas irrelevantes sobre se o António devia ser ou não ser votado, pois desde sempre a Democracia se definiu como o regime onde todos devem ter direito ao seu lugarinho nas sondagens, eleições e concursos televisivos. Se a definição não é exactamente esta deveria ser.

Depois, por curiosidade lá fui ao site e resisti ao meu amigo que insistentemente me incentivou a votar no Buiça que para além de regicida era professor. Quando me decidi a votar a hesitação foi bem curta pois o meu critério para este tipo de questão e efeito é muito simples: quem é que foi essencial para que estivessemos aqui num país chamado Portugal, com todas as suas grandezas e misérias? quem é que, se não tivesse existido ou agido como agiu, certamente teria impossibilitado que os portugueses, enquanto tal, andassem por aí? Não digo como andam, mais ricos ou mais pobres, mais cultos ou mais rudes, mais fatalistas ou mais aventureiros; digo existirem, ponto final.

As opções, na minha opinião são bem escassas, resumindo-se a apenas dois indivíduos que foram essenciais para que Portugal existisse e, depois disso, que continuasse a existir: Afonso Henriques e D. João I, já que o D. João IV foi apenas o cabecilha de uma revolta fidalga e se não tivesse sido ele tinha sido outro como ele. Já os outros dois, provavelmente não poderiam ter sido outros a fazer o seu papel. E no caso de Afonso Henriques certamente que não.

Por isso, e pela falta imensa de documentação sobre a sua longa vida (mesmo pelos nosso padrões, pois viveu até bem entrados os 70 anos), tenho uma enorme curiosidade em saber mais sobre ele, porque pouco fui aprendendo ao longo dos anos, mesmo sendo de formação académica em História. Sou 110% a favor de o exumarem e examinarem o mais pequeno ossinho para sabermos tudo o que seja possível sobre ele.

O cruzamento entre o mito e o homem é extremamente fascinante no seu caso, em especial porque considero que ele foi um herói na verdadeira e clássica acepção do termo, mas ao mesmo tempo extremamente humano quando foi necessário ser pragmático para sobreviver e manter vivo o seu projecto que acabou por ser Portugal.

Há alguns anos li a biografia elaborada por Freitas do Amaral como compêndio e síntese dos conhecimentos existentes. Agora chegou-me a nova publicada pelo Círculo de Leitores, assumidamente mais ensaística e erudita, de José Mattoso. O tema é tão interessante para mim que consegui ultrapassar, sem me desencorajar, a introdução demasiado embrenhada em interrogações, dúvidas, mas ao mesmo tempo em indisfarçável sentimento de superioridade metodológica e conceptual.

Afonso Henriques é uma figura mítica, já sabemos. Foi construída e reconstruída ideologicamente em diferentes épocas. Mas, por muito poucos documentos coevos que restem, por muito difícil que seja a reconstituição de todos os seus exactos passos (onde nasceu exactamente e como, que participação teve verdadeiramente neste ou naquele acontecimento histórico), a verdade é que ele foi responsável pela criação do país-nação que hoje é nosso(a) e esse foi um projecto em que gastou mais de meio século entre a revolta ganha em São Mamede e o reconhecimento internacional definitivo da sua “obra” pelo Papa Alexandre III.

No meio disto tudo só é pena que nesta última biografia, o autor não tenha tido a cortesia de, sequer, mencionar na sua bibliografia a obra anterior, em especial quando o autor desta lhe agradece expressamente os esclarecimentos prestados. E quando JM afirma mesmo referir os autores que tratam o tema sem avançarem qualquer tipo de elemento inédito. Enfim…

(c) Antero Valério

Um tipo meter-se a montar uma Feira do Livro numa escola não é novidade, agora tentar fazer a coisa de forma descontraída, pausada e tentando não sobrecarregar os colegas com trabalho, mas tendo uns 25 caixotes de livros à espera para desempacotar e colocar preços não é realmente de ninguém com verdadeira sanidade mental. Dia quase inteiro na Escola, apenas para sair e descobrir que estava sem guarda-chuva e o carro a uns 100 metros. Que bela sopa.

Mas entretanto há coisas que compensam. Como estamos quase no fim do 1º período e ainda não chegaram os livros pagos com os dinheirinhos do Plano Nacional da Leitura, lá se vai fazendo o que se pode com o que há pela Biblioteca Escolar e Familiar. Desde a semana passada estou com dois 6ºs anos a passar pelo Cavaleiro Lua Cheia da Susanna Tamaro, que para adultos é uma autora um bocadito (bocadão, bocadão) demais para o delicodoce, mas que neste caso nem por isso.

Para quem diz que os miúdos já não gostam de ler, eu continuo a dizer que isso só acontece se lhes não despertarem o gosto pela leitura com textos que os façam mexer um bocadinho e divertir-se ao mesmo tempo. Agora com Tioneus está tudo feito num oito. Como são 100 páginas de livro e não se deve fotocopiar uma obra e tudo isso, anunciei que iria fazer uns saltos na história ou adaptações de capítulos. Protesto geral. Agora querem todos saber a história do gorducho Miguel.

Apesar da roupa toda ensopada, da chiadeira do carro transformado em catamarã e da chegada a casa de toda a família perto das 19 horas, depois da saída pelas 9.30, a alma vem mais morninha. E por momentos quase fico tão delicodoce como uma Susanna Tamaro para adultos. A vida de funcionário-docente tem destas coisas.

Terá sido mesmo por acaso que o ECD foi aprovado em Conselho de Ministros no mesmo dia em que se recebia o subsídio de Natal?