Quinta-feira, 23 de Novembro, 2006


Grupo de docentes aposentadas, após chegarem finalmente a titulares, algumas ainda com dentes (com o devido a agradecimento à colega MESimões).

O Governo decidiu aprovar hoje a sua versão final do Estatuto da Carreira Docente com um texto introdutório auto-justificativo profundamente hipócrita, ao insistir em qualificar como recompensa pelo mérito a manutenção da situação anterior e deixando a maioria dos docentes, de acordo com as palavras do Secretário de Estado que conduziu as negociações quando ainda era sindicalista há meia dúzia de anos (não terá sido um delírio de radicalismo juvenil, portanto), à mercê de um sistema que desmotiva os profissionais ao retirar-lhes as justas perspectivas de uma progressão não condicionada de forma artificial. Não fui eu que afirmei isso, foi Jorge Miguel Viana Pedreira.

Mas é possível que a desmotivação causada por um sistema de quotas só atinja os docentes do Ensino Superior de que ele fazia parte, certamente seres de mais elevada sensibilidade, enquanto as criaturas que mourejam nos Ensinos Básico e Secundários são cascas-grossas imunes a esses estados de alma.

Mas as incoerências e faltas de verticalidade nas opiniões ficam com quem as protagoniza e, por isso, só lamento que não exista um mínimo de pudor em reafirmar em letra de forma aquilo que se sabe ser uma absoluta mentira, ou seja, que esta forma de estruturar a carreira docente é um instrumento para a dignificar e promover a motivação e auto-estima dos docentes.

Desculpem-me lá, mas para além de espezinhar é necessário ainda gozar com a nossa cara?

… aula de substituição. Até este momento as minhas e meus colegas tinham tido o bom senso de evitar as faltas no bloco intermédio da tarde das 5ªs feiras. Mas hoje lá teve que ser e fui substitui uma colega de Ciências que em virtude de uma cirurgia está em convalescença e sem possibilidades de dar aulas. Ao que parece já não é impeditivo de chegar a titular e se calhar até estava à espera dessa confirmação para poder adoecer. Nos tempos que correm uma pessoa tem de adaptar-se às circunstâncias pois então.

Mas o que interessa é que fui confrontado com uma turma de 5º ano absolutamente desconhecida com a qual foi preciso quebrar o gelo, tentar fixar rapidamente o nome de meia dúzia de elementos claramente a pedirem medidas de remediação comportamental e lá vamos nós.

Escusam de me apontar a inanidade da ideia, mas acabei por solicitar-lhes que fizessem um pequeno texto de apresentação de si mesmos, anonimamente, para eu depois ler para o grupo tentar identificar o autor.

Recebi a dúzia e meia de textos e entre eles, salvo raras excepções bastante fraquinhos, o que reproduzo na imagem, que foi feito de forma séria, com algum esforço e concentração, não sendo uma brincadeira para chatear o substituto.

Resta dizer que o aluno tem 15 anos, pelo que percebi chegou há pouco tempo à turma e eventualmente a Portugal de um PALOP, e, acredite-se ou não, está no 5º ano. Neste momento estou seriamente preocupado com ele, com o meu colega que lhe lecciona Língua Portuguesa (e com os outros também) e com todo o sistema que faz com que ele esteja ali, naquela sala, praticamente indefeso.

Porque é triste. Pelo menos, para mim, isto tudo está profundamente errado.

Esta descrição na Educação Cor-de-Rosa sobre a epopeia dos portáteis nas Escolas, anunciados com parangonas na imprensa há seis meses, é absolutamente corroborada pelo que se passa na minha escola. Também pelas minhas bandas, se a Escola quiser ter 10 portáteis terá de ir buscá-las a outra onde chegaram os 24 que eram devidos.

Como o Ministério chegou à conclusão que tantos computadores custavam dinheiro – se calhar o ábaco do projecto inicial estava sem energia solar – e que o tempo só está para anúncios e não para a implementação dos tão publicitados projectos maravilhosos sobre os choques tecnológicos, informáticos e que tais, tentou travar a entrega dos PC’s da HP. Como a empresa já não esteve pelos ajustes e já tinha entregue o que devia a várias escolas, agora é necessário que esquadrões de resgate daqueles estabelecimentos de ensino que nada receberam se dirigiram, com armadura couraçada, a reclamar parte da oferenda mal parada.

O ridículo disto tudo, a total carência de coerência entre publicidade e realidade, a imensa falta de sentido de responsabilidade dos “responsáveis” pelo que só pode ser considerado uma verdadeira palhaçada digna do consulado santanista, são demasiado vergonhosos para um país que se quer todo moderno e virado para as novas tecnologias.

Isto é o grau zero da governança.

Felizmente, a comunicação social não nota e vai-se entretendo apenas com a TLEBS, outra tristeza, mas para mim não tão degradante como o Ministério mandar equipas de professores mendigar computadores de escola em escola.

(c) Antero Valério

Uma das discussões que por aqui se costuma acender mais é a da comparação das más práticas das Escolas por comparação com as boas práticas empresariais.

O problema é que há boas e más escolas e boas e más empresas. O que sendo óbvio, nem sempre todos assim o entendem. As escolas só não aplicam melhores modelos de gestão, porque a margem de autonomia financeira que lhes é deixada é mínima e dentro dessa margem algumas fazem verdadeiros milagres. Só quem não conhece as omoletes que são feitas quase sem ovos pode achar que as escolas não têm boas práticas de gestão.

Em contrapartida, é indesmentível que muitas empresas só se mantêm em funcionamento com base da exploração da mão de obra precária, no incumprimento dos deveres para com a Segurança Social e na fuga ao fisco.

Por isso eu repito que, comparativamente, as escolas que temos provavelmente não deverão muito a bom número das empresas que por aí andam.

Ontem ao final da noite pela RTPN dei com um debate em torno da TLEBS que meteu ao barulho representantes das Associações de Professores de Português e de Linguística, assim como dois docentes universitários (Morais Barbosa e Salvato Trigo).

Depois de muito revolteio lá chegaram a uma espécie ou aprocimação de consenso, o qual passou pelo facto de considerarem  a TLEBS como uma nova nomenclatura e não necessariamente uma nova Gramática, que os programas é que devem nortear a acção dos professores de Língua Portuguesa e que se calhar aquilo não é bem para aplicar no Ensino Básico e Secundário.

O que me deixou em estado de puro pasmo, pois a coisa chama-se Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário e não outra coisa. Não é Terminologia Linguística para o Ensino, assim sem especificar os níveis, nem é uma Terminologia Linguística, apenas assim, curtinha.

Ou será que afinal o que aquilo é, de verdade, uma Terminologia Linguística completa e acabada cujas autoras e autores pura e simplesmente se esqueceram que se destinava aos Ensinos Básico e Secundário?

Será que lhes encomendaram apenas (este “apenas” é muito relativo, claro) um fato para o dia a dia e deu-lhes para fazer um fato de cerimónia de que o cliente não precisava neste momento?

É que me quer cá parecer…