Quarta-feira, 22 de Novembro, 2006


Como este há muitos exemplos. Eu sei que a CML tem problemas financeiros, mas gostava de comparar o custo da reparação de algumas escolas com o valor do contrato estabelecido para a implementação das aulas de inglês com a empresa ligada a uma conhecida socialite, certamente a hipótese mais óbvia e natural para a função.

Há, sei que as há, autarquias extremamente empenhadas em promover o sucesso educativo e que apoiam de forma activa os estabelecimentos de ensino, até para além das suas competências e obrigações. Mas também temos aquelas, e são mais numerosos os exemplos que conheço de forma directa ou não, que retêm as verbas devidas até ao limite do sustentável obrigando os professores a investir o seu próprio dinheiro ou a solicitarem a comparticipação dos encarregados de educação no custo dos materiais, dando pretexto para que a Confap apareeça logo de dedo espetado.

É o país que temos, queiramos ou não, com as suas limitações e especificidades, muito próprias de uma sociedade ainda atrasada em muitos aspectos e só com uma fina patine de modernidade.

Eu já recebi a indicação deste link há vários dias e foi mesmo um dos motivos porque fiquei com pior impressão sobre os materiais disponibilizados pelo ME/DGIDC para apoiar a generalização da TLEBS. Não entrei numa análise específica porque relembrei os terrores dos meus 8º e 9º anos unificados, mais daquele do que deste, porque no caso do 9º a extrema qualidade do professor ultrapassou estes escolhos. Apesar de razia generalizada na turma, não me fez desgostar de nada do que ensinou e os Lusíadas passaram de forma pacífica juntamente com A Abelha na Chuva e A Farsa de Inês Pereira (neste caso com gáudio generalizado mesmo entre os mais renitentes).

Para além disso, não sendo das Literaturas nem da Linguística não tenho o arcaboiço técnico para aprofundar muito a minha crítica para além de apontar o óbvio, ou seja, o pavor que é usar como exemplo da obra em causa tal estrofe e depois bombardear os alunos com aquelas propostas de análise.

Eu sei que não se deve recusar o que é difícil apenas porque é difícil. Agora acho que se deve tentar clarificar ao máximo a forma de abordar conteúdos difíceis, o que é muito diferente de simplificá-los.

Sendo contra a simplificação dos conteúdos sou totalmente favorável a métodos de trabalho que clarifiquem e permitam que o que é complexo possa ser assimilado, com esforço é certo, de uma forma não desnecessariamente agressiva. E neste caso o que se passa é uma verdadeira agressão, mascarada de modernismo powerpointiano e de um prazer taxidermista pelo detalhe.

E se o nosso desejo é despertar, manter ou aprofundar o gosto pela leitura dos clássicos esta é realmente a forma errada de o fazer. Para dividir e classificar frases ou para identificar predicados há outros textos bem mais adequados. Os Lusíadas são para saborear a linguagem. Não para amortalhá-la com etiquetas.

Um dos aspectos mais perturbadores das actuais discussões – porque são várias e não se resumem ao ECD – em torno da Educação em Portugal é a vinda à superfície de uma onda de aparente animosidade ou mesmo ódio aos professores. Não acho que seja um fenómeno muito alargado, pois acho que é concentrado em termos geracionais e até socio-culturais em certas bolsas de “opinião” ou de comportamentos, sendo que uma e outros não são coincidentes mas que acabam por se entrecruzar. Eu depois explico melhor.

Mas serve este post principalmente para fazer notar, com base na notícia do DN de hoje cuja imagem se reproduz, que se os actos descritos fossem aqui usados como certos críticos dos docentes usam exemplos isolados para denegrir toda a classe docente, a conclusão seria que os pais são todos uns vândalos, agressores e desrespeitadores da boa ordem, pois decidem agredir professoras que tentam separar alunos numa briga.

Aliás, não é caso isolado que, em fóruns de comentários a notícias similares, surjam opiniões a validarem e incentivarem este tipo de actos, umas vezes por pura ignorância, outras vezes por xenofobia, outras apenas por péssima formação cívica ou até despeito.

No entanto, essa não é a atitude correcta, a de generalizar a partir de situações episódicas. Só que infelizmente os sectores de opinião anti-docentes têm feito isso e, em muitos casos, apoiam esta política ministerial e esta Ministra apenas porque lhes parece que ela anda a castigar os docentes e não porque percebam efectivamente o que ela pretende. Esta não é uma generalização, mas apenas a constatação do que tenho visto quando calcorreio os tais fóruns.

Generalizar seria extrapolar tal constatação para o universo dos pais e famílias dos alunos do nosso sistema educativo ou pensar que, por causa daquela agressão, agora tenho de andar precavido contra os encarregados de educação dos meus alunos.

Não digo, nem nunca o escrevi, que entre os docentes não existem maus profissionais e más práticas. O que reafirmo é que, a existirem, as mesmas sejam denunciadas e punidas devidamente. Agora castigar ou ofender todos pela mesma medida é equivalente a fazer o mesmo em relação a todos os pais. E sendo eu pai e professor, ficaria muito mal comigo mesmo e vice-versa.

O Tioneu – Modo de Usar. Mas se quiserem ter uma introdução ao tema nada como ir ao DN e ver a crónica do Vasco Graça Moura.

(c) Antero Valério