Domingo, 19 de Novembro, 2006


Mail amigo depositou-me na caixa de correio este artigo de José Gil no Courrier Internacional em defesa da docência como função específica, complexa e a merecer o respeito devido por quem de direito. Nestes tempos e na impre(n)sa que vamos tendo é um texto de coragem, quase como defender os judeus após a Noite de Cristal.

Obviamente, identifico-me com muito do que aí está escrito e, obviamente também, não me identifico com o seu contrário. Pois, por estranho que pareça a alguns leitores, cuja opinião naturalmente respeito, as minhas opiniões são as minhas e não as suas contrárias. Porque isso seria – penso eu de que – algo estranho. Eu ter ideias contrárias às minhas poderia revelar um estado de esquizofrenia que agora não me seria muito útil em termos de carreira, atendendo à possibilidade, de acordo com a nova legislação que por aí anda, de acabar a fazer a manutenção da instalação eléctrica ou das fechaduras da minha Escola.

Este parece ser um esclarecimento redundante, mas talvez não o seja, pois um leitor interessado chamou-me a atenção para o facto de eu discordar das opiniões de que discordo (sim, é para si meu caro H.) o que não deixa de ser uma forma interessante de gastar um comentário. Mas lá o volto a escrever, cada um ocupa o seu tempo e expressa a sua opinião da forma que acha mais adequada.

Não estou a ser politicamente correcto nem enjoativamente tolerante ou condescendente como a prosa anterior poderia fazer supor, pois todas essas são qualidades que há muito sei não possuir. Estou apenas a divertir-me.

O Antero Valério já tem um blog em seu nome – o Anterozóide – onde está a fazer a compilação dos seus materiais com a ordem devida. A visitar sem falta.

Na edição deste domingo do Público o notável proto-senador da República António Barreto disserta sobre a necessidade das instituições prestarem contas pelo seu desempenho, usando como recurso principal para a demonstração da sua tese o caso do sistema educativo, das Escolas e dos professores que, segundo ele, viverão num «circuito fechado», não prestando contas a ninguém sem ser ao Ministério, que AB parece considerar uma autoridade distante (o que revela o seu desconhecimento da situação concreta), Ministério que por sua vez prestaria contas ao Parlamento se o articulista não achasse «esse processo perfeitamente inútil».

Perante isto sinto-me, do grau raso de opinador que ocupo, motivado para esclarecer o seguinte:

  1. Antes de mais declarar, para transparência dos factos, que embirro solenemente com António Barreto desde há muito, sendo para isso decisivos factores como o seu percurso político ziguezagueante entre finais dos anos 70 e meados dos anos 80 (sair do PS pela direita e reentrar pela esquerda), o facto de no ano lectivo de1986/87 em plena agitação académica (por onde andei em segundíssimo plano), o mesmo ter aparecido como visionário da dita cuja, anunciando o que já era passado e, por fim, pelo facto de AB depois da fase em que se tentou colar a todos os poderes que pareciam vir a ser (para os largar quando via que nada tinham de vultuoso para lhe oferecer) se ter tornado com Pulido Valente um dos Marretas da República, sempre contra tudo o que existe e a favor de tudo o que inexiste.
  2. Em seguida, e mais substancialmente, fazer notar que para além do sistema educativo muitos outros “sistemas” vivem nesse tipo de circuito fechado e em muito maior escala do que o educativo. Lembremo-nos apenas do judicial e do carácter quase intocável dos juízes, assim como do tristemente célebre caso do «envelope 9» em que o Ministério Público decidiu olimpicament ignorar todo o tipo de prestação de contas, incluindo as pedidas pela Presidência da República. Mas como o mal dos outros não deve justificar os próprios, acho interessante que AB traga o sistema educativo à baila, exactamente no actual contexto, quando todos bem percebemos até que ponto a ingerência da tutela se faz sentir no quotidiano das Escolas. Querer que as escolas prestem contas, por exemplo, às autarquias como AB propõe é apenas o 3º passo da melhor forma de acabar de vez com o nosso sistema educativo.
  3. Por fim, e por agora, realçar o facto de António Barreto parecer extremamente interessado na prestação de contas de professores e Escolas, mas parecer ignorar a necessidade de prestação efectiva de contas por parte dos responsáveis políticos que delineram as políticas educativas nos últimos 15-20 anos. Aliás, considera mesmo «inútil» essa prestação perante o Parlamento o que não deixa de ser curioso. Com que então os responsáveis máximos pela Educação e por toda a asneirada legislativa que se foi sucedendo, com sucessivos remendos e inflexões a cada governo que passa, ficam isentos de responsabilidades e são os peões da história que devem ser julgados.

Ou António Barreto e eu vemos o mundo às avessas – e nesse caso acredito que seja eu a criatura mais limitada de entendimento pois, caso contrário, seria eu o articulista residente do Público e uma das eminências pardacentas da opinião publicada em Portugal – ou então algo está mal neste reino a sul da Dinamarca, quando se acha que a fiscalização da acção dos Ministros é inútil e nem vale a pena falar nisso, mas a dos professores já é uma exigência de Estado.

Pensando bem, talvez isso até tenha s sua lógica porque afinal deve dar-se prioridade ao que é mais importante.

Não significa que fossem melhores. Apenas se vivia com menos ódio e com mais respeito pelo(a)s professore(a)s. Mesmo dentro do nosso próprio grupo profissional. E o que se passa em alguns fóruns de discussão sobre educação é perfeitamente pavoroso e por vezes chega-se a justificar actos como este. A catarse de traumas passados ou de frustrações quotidianas precisa de um alvo e, seguindo as insinuações da própria Ministra, esse alvo passou a ser em grande medida a classe docente.

A imagem foi recolhida algures, sem uma identificação de autoria.