Sexta-feira, 17 de Novembro, 2006



Style Council, How she threw it all away

A reprodução não é a melhor, mas é uma das minhas favoritas de sempre e o título adequa-se…

Tornar o Poder o Privilégio de uma Casta com Base na Cooptação

É um método extremamente simples de destruir por completo o ambiente de qualquer Escola, em particular, e a transparência do funcionamento de todo o sistema escolar/educativo, em geral, embora bastante eficaz em termos de controle da classe docente por parte do Ministério e dos seus novos próceres.

A maneira de o implementar é simples: instauram-se quotas de acesso aos lugares que têm o exclusivo da ocupação dos cargos de gestão das escolas (Conselhos Executivos, Assembleias de Escola), de coordenação departamental – e por inerência do orgão conhecido por Conselho Pedagógico – e de avaliação dos restantes docentes. A isso junta-se a não regulamentação de um limite para os mandatos.

Numa escola de dimensão média com 78-80 docentes ou mesmo com 90-100, isso significa que os membros da nova casta serão entre 20 e 30. Se tentarmos preencher os cargos disponíveis este número não chega ou chega nos limites, se não quisermos a existência de acumulações. Mas, mesmo sem acumulações, os cargos tornam-se virtualmente vitalícios ou prestam-se a uma falsa rotatividade. Numa escola com mais docentes, mesmo acima dos 150, com o aumento do número de Departamentos, a situação não se altera de forma substancial, apenas abrindo uma ligeira folga.

Em seguida, em virtude do controle da avaliação dos restantes docentes e consequentemente do acesso aos novos lugares disponíveis na casta, os novos elementos acabam por ser escolhidos num regime de cooptação por parte da oligarquia dominante. E não tenhamos ilusões, se em alguns casos o carácter das pessoas conseguirá ultrapassar a tentação do clientelismo e do nepotismo, em muitos outros a carne será fraca e teremos a cristalização de um sistema clientelar e seguidista, com meios fáceis de bloqueio a todas as vozes críticas. E a alternativa será impossível. E qualquer tipo de simulacro de funcionamento democrático, mesmo que imperfeito, desaparecerá.

Parece ser este o modelo que o actual Ministério pretende implantar, que alguns opinadores parecem considerar o mais adequado e que algumas teorias organizacionais datadas parecem ter prescrito há um quarto de século atrás.

Na minha opinião será o primeiro passo para acabar de vez com o sistema educativo que temos e que, apesar dos seus defeitos, ainda contém algumas virtudes que parece ser urgente extirpar. Parece que a insistência no discurso da necessidade de uma liderança forte nas escolas se confunde com a implementação de lideranças de tipo caudilhista e plebiscitário. Está bem, sempre podemos pedir instruções ao Alberto João Jardim, ao Kim-Il-Jong ou mesmo fazermos uma visita de estudo a Cuba.

(c) Antero Valério

Pode ser uma ideia perfeitamente disparatada, mas eu nunca aqui escrevi que tenho os neurónios todos no alinhamento certo. Faço por isso, ou melhor, disfarço por isso, mas nem sempre consigo. E depois da discussão em torno do post Efeito Boomerang, fiquei a pensar o que poderíamos fazer “de novo” e que nem fosse uma estratégia de luta tipo piloto-automático, nem acabasse por nos prejudicar apenas a nós (embora, a contracorrente, ache que agora as greves de professores a sério até têm mais impacto do quie há 20 anos), nem passasse apenas por aquelas iniciativas simbólicas e de alegre convívio para os participantes, mas pouco eficazes.

Estando fora de causa a boa e velha breve à antiga britânica que a Thatcher enfrentou – por tempo indefinido com os sindicatos a accionarem os fundos de greve criados para esse efeito, que por cá nunca foram ideia muito popular – só ainda me consegui lembrar de

uma não-greve.

Eu explico: em vez da greve tradicional com pré-aviso e tal (com perdas salariais acumuladas que provocam “encolhas” e os subreptícios artigos 102 a entrarem nas secretarias para o Ministério descontar nos níveis de adesão), eu sugeria que os sindicatos convidassem os professores todos a faltarem de forma simultânea um dia (ou dois) por conta das férias. Eu sei que existem obstáculos à exequibilidade da ideia – desde logo as burocráticas – mas olhem que se tivesse a adesão da anterior greve não me parece que fosse possível aos Conselhos Executivos ou Ministério contrariá-la ou penalizar os aderentes, sendo que seria uma pedrada – antes um pedregulho – no charco e algo profundamente perturbador para as boas consciências e os opinadores alinhados.

Ora aqui vai mais um pequeno texto, um pouco como o Efeito Boomerang, para suscitar mais a discussão do que a anuência, porque talvez seja hora de olharmos para as nossas próprias culpas em tudo isto.

Neste momento existe uma união conjuntural entre a larga maioria dos docentes em relação às propostas ministeriais. A reacção, mais ou menos informada, mais ou menos emocional, mais ou menos politizada, não deixou de ser extremanente positiva e para mim uma agradabilíssima surpresa atendendo ao que se observa em muitas Escolas em termos de aproveitamento das mínimas hipóteses de clivagem entre colegas de profissão.

Não nos iludamos: a estratégia do Ministério passou e passa por suscitar divisões entre a classe, prometendo a uns cargos de relevância simbólica e algum poder efectivo sobre os restantes, para melhor impôr as suas medidas. O alargamento aos professores no 8º escalão da possibilidade de acederem a titulares e até a repescagem de alguns do 7º passa por aí. Na prática, em termos salariais, apenas lhes darão aquilo a que já tinham direito mas investem na vaidade alheia e no desejo de sobressair por entre as massas como forma de dividir as hostes.

Até agora a coisa ainda não funcionou, mas pode vir a funcionar se todos não se compenetrarem que é mais o que une a classe docente, do que aquilo que nos divide, apesar da enorme diversidade na origem e formação dos docentes.

E aquilo que por vezes o quotidiano nos devolve como reflexo das práticas de alguns de nós nem sempre é animador. Ao longo dos anos assisti a muitas tristes formas de docentes se esforçarem por demonstrarem o seu “estatuto” de superioridade perante outros, das formas mais mesquinhas possíveis. Em tempos de contratado já assisti a lugares reservados nas salas de professores para determinados figurões e ao modo ostensivo de não dirigir a palavra aos novatos; em outras paragens, não muito distantes em termos de tempo, presenciei colegas que por leccionarem apenas Secundário se sentiam lesados na sua dignidade quando precisaram de ver o seu horário completado com turmas do 3º ciclo;  mesmo já como QZP assisti a um Coordenador de Departamento de uma EB2+3 que declarava que certo docente que queria intervir numa discussão sobre a distribuição dos tempos lectivos no 3º ciclo, tão só por ser do 2º ciclo, não o deveria fazer por não ter nada a acrescentar de relevante. Recentemente vi uma pessoa e colega que sempre achei de natureza ponderada e séria afirmar que, “como estou há muito tempo a dar 9ºs anos, não me sinto à vontade para ir dar aulas de substituição a um 7º ano“.

Enfim, para mim isto é profundamente confrangedor porque, na maioria dos casos, isto são apenas formas patéticas de, no reino dos pequeninos, alguns se mostrarem menos pequenos do que os seus pares. Ou, de acordo com a metáfora orwelliana, mostrarem que sendo todos nós iguais, há alguns mais iguais do que outros.

E não tenham dúvidas, a estratégia do ME passou desde o início por fomentar este tipo de pequenas ambições e vaidades, desde logo procurando arregimentar para o seu lado os Conselhos Executivos, seduzindo-os com reuniões e a atribuição de uma importância e poderes acrescidos. Assim se entendendo a forma de os querer blindar perante o exterior.

Mas claro que o verniz é fino e para os mais renitentes e resistentes sobraram as ameaças mais ou menos veladas de consequências disciplinares em caso de não submissa adesão às ordens.

E o mesmo se está a passar e passará com a generalidade dos docentes, se os interesses particulares substituirem o interesse geral de todos. Adaptando o que bem cantavam há uns anos os Manic Street Preachers, se tolerarmos isto, a seguir seremos todos nós.