Quinta-feira, 16 de Novembro, 2006


João Costa, Presidente da Associação Portuguesa de Linguística aparece hoje em artigo de opinião na revista Visão a, por um lado, defender a TLEBS dos ataques que tem sofrido nos últimos tempos e, por outro, a colocar em perspectiva a sua aplicação acrítica nas escolas.

Não podia estar mais de acordo com as passagens destacadas, em que o articulista indica que a TLEBS não revoga os programas vigentes nem o currículo nacional, assim como os docentes devem ter margem de autonomia para a adaptar às suas necessidades. Não esquecendo ainda uma estocada aos manuais em que a TLEBS terá sido «despejada sem critério».
O problema é que anda muita gente sobre brasas e com o permanente receio de ser penalizada por não aderir o mais rapidamente às novas directrizes ministeriais, assim como há aquele tipo de fundamentalistas que quiseram imediatamente mudar tudo o que havia para acomodar a TLEBS em todo o tipo de materiais. Isto para não falarmos no desespero que existe em busca de novas Gramáticas como se o sol amanhã não nascesse caso as ditas não sejam encontradas, agora, já e imediatamente.

Eu, com toda a sinceridade e cepticismo do costume, vou apenas introduzindo o que considero passível de assimilação pelos alunos que tenho, de acordo com a sua idade e capacidade, sendo um pouco selectivo nas pressas de me mostrar no ponto. Agora que em algumas mentes há uma correria desenfreada em busca de tudo e mais alguma coisa para tornar a TLEBS quase que um cânone novo da componente de Gramática do programa de Língua Portuguesa, lá isso é indesmentível.

Em alguns casos é apenas precipitação amedrontada. Mas em outros é mesmo aceitação acrítica, com o manto de erudição modernaça.

Começo a ficar ligeiramente preocupado com o eventual excessivo entusiasmo que certos sectores sindicais possam estar a experimentar com o sucesso das manifestações de desagrado dos professores e, pensando estarem de volta a outros tempos, não perceberem que a ideia é avançarem para o futuro. Aliás, o sucesso muito relativo da greve da Função Pública deveria começar a esfriar os ânimos.

Seria interessante que os sindicatos de professores, nomeadamente o mais representativo da classe, percebesse que o pior que podem fazer é tentar recuperar as velhas técnicas do passado que levaram à erosão do seu poder e credibilidade no seio da classe docente. O amplo movimento de desagrado que existe é real, mas não resulta predominantemente da acção dos sindicatos; em muitos casos, os sindicatos foram ultrapassados pelos acontecimentos e a adesão a manifestações e greves excederam as suas melhores previsões exactamente porque muitos docentes antes alheados da acção sindical se encontram agora muito mais activos e interessados. E esta é uma situação quase única, mas os sindicatos, e a Fenprof em particular, deve entender que este não é um momento para colocar na mesa outra agenda que não a defesa dos interesses dos docentes, nem tentar baralhar as coisas.

Isso, se pode ser interessante em termos de táctica política, pode ser um lamentável e irremediável erro estratégico. Começo a pressentir um frentismo desenfreado e um ou vai ou racha que pode acabar mal depois de inícios e desenvolvimentos tão auspiciosos. Mesmo no caso de pessoas que até gosto de ouvir, começo a notar certo monolitismo argumentativo e alguma falta de imaginação. Como se houvesse um retorno ao passado. O que não é o caso.

O caminho para um fracasso fragoroso passa muitas vezes por erros de cálculoe de apreciação das forças em presença. Os docentes estão, como quase nunca estiveram nas últimas décadas, globalmente unidos numa luta. Aqueles que são os seus representantes devem lembrar-se disso e nunca se esquecerem daqueles que dizem defender. As outras fidelidades são, por ora, para deixar em pausa.

E se as declarações do Secretário de Estado a lamentar isto são descabidas, de qualquer forma é melhor tentar que tais “coincidências” não voltem a coincidir. É que não se ganha nada em deixar o gato todo de fora só com o rabo escondido. É que tudo o que sobe pode acabar por descer.