Um dos aspectos mais importantes na função docente passa pela sua dimensão humana e pela necessidade de estarmos em contacto directo e constante com situações particulares por vezes dramáticas e de extremo risco. São problemas familiares cada vez em maior número com consequências disruptivas no comportamento de crianças e jovens, são os perigos do envolvimento em situações de marginalidade e criminalidade, um sem-número de variantes com que professores, directores de turma, tutores, etc, são obrigados a lidar, quantas vezes apenas com o seu bom-senso, as suas capacidades pessoais e pouco mais, visto que a formação nestas áreas é escassa e raramente down to earth, se é que me percebem.

Não estou aqui a contestar se existem ou não outra profissões com problemas similares. De há muito que acho que a defesa do que é meu não passa em especial por estabelecer comparações e denegrir a situação alheia. Eu defendo aquilo que acho correcto para a minha situação, explicando-a e demonstrando o que são os meus argumentos, no máximo acentuando diferenças. Não pretendo nivelamentos, nem dizer que o que os outros fazem não tem valor, apenas acho que devem então defender-se a si.

Mas voltando ao caso que deu origem a este post: ontem a minha cara-metade acabou de saber que tinha uma nova aluna na sua Direcção de Turma (9º ano). A aluna em causa é a filha mais velha do casal que sofreu aquele trágico acidente nos Olivais que agora vai viver com os tios. Está profundamente afectada pelo sucedido e mal fala com alguém. Ora este é tipo de situações para que ninguém nos prepara, muito menos as formações livrescas. É que o simples facto de pedir à aluna para preencher o seu registo biográfico pode ser penoso, pois é necessário identificar a ascendência e o actual encarregado de educação. É óbvio que este é um detalhe burocrático praticamente irrelevante que neste caso assume uma importância que facilmente se pode esquecer. E como dar uma aula sobre a I ou II Guerra Mundial com recurso a imagens sobre o morticínio verificado ou os campos de concentração? Apenas impossível.

Agora mudando para outros casos, apenas um par entre muitos com que eu trabalhei ao longo dos anos, como qualquer docente que (sobre)viva profissionalmente em escolas localizadas em zonas suburbanas e de risco ou meramente em escolas por onde passam as crianças da sociedade que vamos tendo.

Há uma meia dúzia de anos fui Director de uma turma de 20 alunos com 8 casos de Necessidades Educativas Especiais. Um mimo, como deverão calcular, se a isso associarem o facto de estar em profissionalização (era em serviço, fez-se nas calmas, não foi o maior problema). Entre os 8 casos, qual deles o mais “interessante”, tinha uma criança adoptada, que tinha sido maltratada e abandonada muito pequena, sofrendo de surdez total num ouvido e parcial no outro, a quem durante o ano foi diagnosticada esclerose múltipla. Para além disso, apesar de dócil, tinha súbitos rompantes de agressividade e o psicólogo que a seguia achou correcto dar-lhe tranquilizantes que a deixaram, durante umas semanas e até em contacto com a família eu ter pedido para ser reavaliada a situação, completamente sonâmbula durante a maior parte da manhã. Para além disso, a família fazia questão que os detalhes em causa (familiares e de saúde) fossem sigilosos e partilhados apenas por mim e a professora dos Apoios Educativos. E isto teve de ser gerido durante um ano, nestes termos.

Outro caso, novamente numa Direcção de Turma, um par de anos antes do anterior. Entre os alunos de uma turma do 6º ano estava um rapaz de 14 anos que aos 9 perdera uma perna ao fugir de um comboio em andamento, quando estava envolvido num gang que fazia assalto à noite nas composições da CP. Depois de ter uma prótese, o miúdo tornou-se atleta paralímpico e estava pré-seleccionado para os jogos de Sydney. Era o delegado de turma e, apesar de muitos avisos sobre a possibilidade de voltar a envolver-se com as anteriores companhias, foi um delegado de turma exemplar. Alguém que eu tinha prazer em ter como aluno e com quem discutia os problemas da turma – que obviamente não passavam só por ele – pois ele aparentava uma maturidade acima da média e uma postura que durante aquele ano foi irrepreensível. Dois anos depois, quando já estava em outra escola no 8º ano, voltou às tais companhias e, na sequência de um assalto nocturno a um outro estabelecimento de ensino da zona, assassinou o respectivo guarda-nocturno porque alegadamente o tinha reconhecido. Actualmente cumpre pena em virtude da condenação por esse acto.

Já sei que todos tivemos contacto com situações deste tipo. Ou melhor, talvez nem todos. Ou melhor ainda, talvez não com tantos casos como aqueles com que muitos docentes lidam todos os anos. Porque estas não são situações episódicas, repetem-se todos os anos e não são acompanhadas durante uma ou duas semanas, mas durante 1, 2 ou mais anos. Só que estas são algumas das nossas memórias profissionais, volto a afirmá-lo, de quem muitas vezes funciona como primeira ou segunda linha do Estado perante situações de risco de crianças e jovens.

Vão dizer que só temos o trabalho que escolhemos. É possível. No meu caso até é mesmo, pois tive outras experiências profissionais e até a possibilidade de abandonar a docência. Não terei então do que me queixar.

Tudo bem. Mas serei obrigado a ter de aturar os despautérios de quem só lida com números?