Ouvi hoje de raspão a notícia de que muitas Universidades vão receber verbas que nem chegam para pagar ao pessoal permanente. A reitora da Universidade de Aveiro tecia as suas considerações e incitava o Governo a definir com clareza o que pretende exactamente do Ensino Superior.

Se é verdade que acho que o Ensino Superior cresceu, no sector público e privado, de forma desordenada e sem qualquer tipo de planeamento nos anos 90, dando apenas resposta às exigências imediatas, de procura e de emprego de clientelas, sem qualquer visão de futuro a médio prazo, também não deixa de ser uma realidade que tudo isso foi feito com a aprovação explícita do Estado que deu licença e alvará a toda a agremiação que quis usar do título de Universidade ou Instituto Superior ou Politécnico de qualquer coisa, com um pessoal docente entre o fictício – os das folhas que seguiam no processo para o Ministério – e o real – aqueles que em regime de pagamento à jorna ou à hora aseeguravam efectivamente as aulas de cursos destinados a fazer ingressar muitos milhares de licenciados directamente no desemprego ou a verem frustradas as suas ilusões e serem obrigado(a)s a entrar no mercado de trabalho com as habilitações pré-universitárias.

Só que agora o Estado decidiu moralizar o sector e vai de cortar a eito aquilo que deixou crescer de forma desordenada e nesse aspecto o PS não tem propriamente as mãos limpas. Para além disso, a actual divisão ministerial entre Ministérios, com um a tratar dos graus básico e secundário e o outro a tratar das Universidades e da Investigação Científica não é a melhor solução, em especial se tivermos em conta o titular da pasta deste último.

Eu explico porquê: em primeiro lugar, porque ao “partir” a ligação entre ensino não-superior e superior se torna muito mais difícil articular a transição entre o Secundário e o Superior, em especial no que se refere aos critérios de acesso à Universidade; em segundo porque Mariano Gago, desde os tempos cavaquistas da JNICT sempre foi um seduzido pela I&D (agora crismada de C&T), em especial a que funciona em regime de capelinhas. O meu escasso contacto com o sector em finais dos anos 80 e inícios dos anos 90 (já não era ele, eu sei…) fez-me perceber como tudo se movia e, claro, como sempre se moveu e moverá nesta área. Agora isso comprova-se pois o Orçamento para 2007 do MCTES tem um crescimento inusitado de verbas para a tal C&T, mas isso parece estar completamente desligado das Universidades o que é um puro disparate.

Ou seja, as Universidades, em especial com a bolonhização que levaram em cima e à qual acederam num sinal de extraordinária cegueira “modernista”, vão levar pela mesma medida do resto do sector educativo. Como se a investigação em Ciência e Tecnologia surgisse ex nihilo e o Ensino Superior não servisse para nada.

Mas é o preço a pagar, antes de mais por partir o velho Ministério da Educação em dois com o pretexto do seu gigantismo e depois por colocar à frente do MCTES quem só está interessado em “outra coisa” que não o sistema de ensino, mesmo que seja o Superior. Mas lá que haverão muitos grupos de trabalho, institutos disto e daquilo e observatórios daqueloutro com as mãos cheias de numerários fresquinho, lá isso não podemos negar.