Sábado, 11 de Novembro, 2006


 

São os meus votos e os do Antero Valério, claro. E é aproveitar enquanto dá para as castanhas e a água-pé, pois daqui a um ano já é capaz de ser necessário fazer bem as contas às castanhas e beber apenas Tang bem diluído, cortesia de quem bem sabemos.

Ia para escrever “A Sinistra Entrevista da Ministra“, mas achei que estava a abusar da imaginação de outras colegas blogueiras.

A razão para o relativo atraso na prometida análise da entrevista ao Jornal de Negócios deve-se ao facto de – inconsciente explica – ter deixado o jornal em causa esquecido no cacifo. Mas agora já o recuperei, assim como do choque causado pelo muito que li, e até como a cabeça já esfriou é mais fácil isolar as pérolas lançadas a nós, professores.

Comecemospela forma como MLRodrigues se autodefine e se defende da acusação de arrogância. Afirma ela:

O que acho é que se procura trazer para o debate político para um nível que considero inaceitável, que é o das características pessoais. Eu gosto de discutir questões de política: como inverter o problema do insucesso escolar como vamos combater o abandono e melhor o funcionamento das escolas, como é que vamos lançar o inglês e a rticular o trabalho com as autarquias.

Nada me faria a mim, e a muitos milhares de professores, mais feliz do que saber que a senhora Ministra pretende discutir essas elevadas e relevantes questões, deixando de lado detalhes de ordem pessoal. Só que foi a senhora Ministra que repetidamente invectivou os docentes – aliás não consegue fazer declarações sem ser relapsa nesse aspecto triste – extravasando em muitas afirmações do foro profissional do desempenho dos docentes para outros, como por exemplo quando deu a entender que todos os que protestam é porque não leram as propostas ministeriais e/ou não as compreenderam. Eu devolveria o “mimo” pois me parece que a Ministra também ou não percebe ou não quer perceber o protesto dos docentes. Pior, sabe-se agora que na preparação do programa Prós e Contras de triste memória a Ministra impôs as suas condições, vetando participantes (caso de Mário de Nogueira) e condicionando a forma do programa.

Mas quanto às questões de fundo, até hoje nunca consegui ler ou assistir a quaisquer declarações da equipa ministerial que, em defesa das suas propostas, demonstrassem da sua bondade para além da utilização de chavões demagógicos e para consumo das massas. Por exemplo, ainda hoje não ouvi ou li qualquer documento (e bem que tenho procurado) em que se citassem experiências ou estudos – nacionais, internacionais, o que seja – que demonstrem uma relação entre o sistema de progressão na carreira docente que se pretende implantar e uma efectiva melhoria dos resultados escolares dos alunos. Eu com um par de exemplos já me satisfazia, pois teria pelo menos mais do que isso para apresenter em contrário. O que sei é que o Secretário de Estado Pedreira afirmava exactamente o contrário no final da década de 90 em relação aos efeitos de um sistema de vagas reduzidas para acesso aos lugares de topo na carreira académica superior.

Mas para além disso, acho sempre extremamente deficiente a forma como a Ministra defende a política que afirma ser “sua” e considero, ao contrário do que por vezes gostam de me fazer notar, que essa insuficiência não é de tipo simplesmente comunicacional e idiossincrático mas mesmo de conteúdo. Não é dito nada mais aprofundado, porque nada há para dizer para além de elocubrações teóricas sem substância que as prove. Para ir mais além e dizer algo com fundamento, bastaria dizer que as medidas são apenas ditadas pela necessidade de fazer cortes orçamentais. Ponto final e não enganemos mais a malta.

Por fim, por agora, é ainda estranho que sempre que recorra a números para explicitar um ponto, esse números raramente batam certo com o que podemos conhecer ou mesmo entre si. E mais estranho é que isso fique sem contraditório pelos entrevistadores. Tomemos um exemplo desta entrevista, quando MLR responde à pergunta sobre a forma como vai conseguir reduzir para 80% os gastos com o pessoal no próximo ano. Leiamos a resposta:

Sobretudo à custa da diminuição do número de professores contratados. Houve um ajuste às reais necessidades do sistema. Para este ano orçamental, que corresponde ao ano lectivo passado, contratámos menos 9.000 professores. Este ano no mês homólogo ou seja em Setembro, tínhamos contratado menos 6.500. E a nossa expectativa é que no fianl deste ano lectivo tenhamos contratado menos 5000.

Ora bem. Cá temos nós aquelas contas de merceeiro, que é impossível estarem certas de acordo com as suas próprias premissas. A Ministra afirma que uma quebra de 20% nos gastos se vai dever apenas à diminuição de 5000 contratados. Ora isto é absolutamento destinado a enganar toda a gente, não passando de uma rematada asneira ou então de contas muito mal feitas.

Porquê?

Simplex!!!

De acordo com os próprios números do Ministério da Educação – consultar revista Pontos no ii deste mês e muitas declarações avulsas do aparelho ministerial – existem mais de 125.000 docentes integrados na carreira (com mais de 50% nos 3 ou 4 escalões mais bem pagos), fora os contratados. Mesmo que os contratados fossem apenas alguns milhares, a poupança em 5000 contratatados, representaria uma redução de menos de 4% na “mão-de-obra“, sendo que essa é a mão de obra pior paga em todo o sistema, pois recebe pela base da remuneração (um licenciado contratado recebe pelo 3º escalão da carreira) e muitas vezes tem horário incompleto, o que diminui ainda mais a remuneração mensal.

No País dos Números Reais, uma diminuição de 5000 contratados equivalerá, quanto muito, e upa, upa, a 2% de poupança na massa salarial total paga pelo Ministério. Como daí a Ministra dá o salto estatístico para 20% só está ao alcance dos habitantes do País dos Números Imaginários, os mesmos que normalmente fazem as contas às faltas dos docentes.

Num País a Sério isto é uma mentira, digo, uma “inverdade” (para os mais sensíveis) ou uma “falta de rigor” (para os mais políticos) completa, pura e dura. No Portugal de Hoje, é um argumento.

Só que tudo isto que escrevi é algo muito claro, muito simples de demonstrar e perfeitamente indesmentível para um tipo com formação em História e a tabuada aprendida no início dos anos 70.

O resto é uma grande treta.

E sem o brilho do António Feio e do José Pedro Gomes.

Apenas uma treta embaciada e mal amanhada.

… escrever para os jornais a protestar contra as suas inexactidões em matéria de facto ou acerca de puros ou médios disparates escritos por colunistas?

Porque a filtragem de opiniões desalinhadas na imprensa está liga quase para o máximo. Tentem lá publicar mais do que uma mão cheia de parágrafos médios num jornal de referência e mesmo nesse caso no recanto escondido das cartas ao director?

Esta semana o Expresso permite-se o luxo de deixar passar pelo crivo dois “textos” sobre o debate em curso em torno da carreira docente (cf. página 42), sendo que em qualquer dos casos são meros excertos das “cartas” (ou mails) enviada(o)s. Sobre o caso do texto opinativo de Fernando Madrinha que eu sei ter suscitado bastantes protestos, é dada a palavra a Joaquim Dionísio de Portinmão, sendo publicado um naco de prosa que é amputado de tal maneira que não se percebe o sentido principal do que o autor terá escrito. Leiam lá e digam-me se alguém acaba por perceber o que o autor pretendia demonstrar… eu não percebo pois os cortes realizados deixaram o texto sem nexos de continuidade. Mas, se alguém protestar não passa das caixas de comentários dos fóruns, verdadeiros cemitérios de desabafos que actualmente os órgãos de comunicação social usam como caixote do lixo virtual para quem pretende opinar sobre o que surge em texto impresso.

É um método mais “moderno”, claro, e muito mais cómodo e económico do que dar a palavra na mesma coutada dos iluminados opinadores e articulistas. Tudo e todos pretendem apresentar-se como muito democráticos, mas tudo não passa de um método de manter as hostes vulgares bem afastadas. A menos que se seja administrador de uma qualquer empresa, empresário “de sucesso”, deputado ou “alguém” ou ainda “filho de algo”.

As prosas rebarbativas e remoques de Miguel Sousa Tavares sobre os professores ficam sem qualquer contraditório. Eu ainda tentei saber se, sei lá, poderia ser que… mas disseram-me logo que não havia hipótese. Mas ele tem direito a todo o espaço que quer para contra-atacar a blogosfera por inteiro quando lhe tocam no que ele justamente considera a sua “honra” e “dignidade”. Só que ele faz o mesmo e, enquanto o blog que o acusava ainda deixou espaço para comentários adversos, tentem lá que o Expresso permita desdizer MST com um destaque  mínimo!

Eu detesto dar razão a quem está nos antípodas da minha visão geral sobre o mundo, mas sou obrigado a concordar com Hugh Hewitt, analista americano neo-conservador e autor do livro Blog – Understanding the Information Reformation That’s Changing Your World, quando afirma que os grande órgãos de informação se tornaram cidadelas de grupos que se consideram acima da crítica e do vulgo, que funcionam de acordo com estratégias de defesa mútua e de distorção dos factos ou cedência a interesses sempre que isso auxilia as suas estratégias comerciais particulares e/ou os seus alinhamentos político-ideológicos.

Por isso, salvo casos muito pontuais – como um protesto bem quentinho enviado para a redacção da Visão sobre aquele suplemento sobre o Estado da Educação e os textos nele incluídos da autoria de Paulo Chitas, que ficou sem qualquer retorno – prefiro já nem perder tempo a gastar o meu latim, com quem se está positivamente nas tintas para ir além de um simulacro de interesse pelo que nós escrevemos e dizemos.