Ainda antes de análise mais detalhada da entrevista da ministra ao Jornal de Negócios, fica aqui apenas a expressão da minha respeitosa admiração quanto à forma como se passaram a usar artisticamente estatísticas para deliberadamente acirrar a opinião pública contra os docentes, a partir de uma utilização abusiva de amostras parciais e dificilmente significativas.

Num exercício repetido de ataque aos docentes, MLRodrigues decidiu afirmar que os docentes estão a faltar menos 40% de acordo com os seus dados e aproveita para acrescentar que é uma conclusão com base nos dados homólogos dos meses de Setembro deste ano e do ano passado.

Em primeiro lugar, isso significa tão só e apenas uma amostra correspondente a uns 10 dias úteis de aulas, o que está longe de ser significativo, antes lembrando outro episódio triste quando MLR decidiu há um ano atirar para a rua um número de faltas dadas pelos professores, não explicando que era uma extrapolação e não uma análise rigorosa e que os números se referiam a tempos lectivos e não a dias.

Em segundo, omite o facto de o concurso do ano passado ter padecido ainda de diversos males, atrasos e situações anómalas – que foram cirurgicamente arredadas dos olhares públicos – que fizeram com que muitos docentes fossem tardiamente colocados de forma correcta, no que se incluem professores dos quadros de nomeação definitiva, QZP’s e não só. Sei o que foi passar pela DREL nos primeiros dias de Setembro de 2005, com gente amontoada a receber senhas para resolver situações que especificarei logo que me apeteça escrever sobre o ridículo, a incompetência e os “amanhos” do Ministério da Educação nessa matéria, bastando relembrar os casos de horários de 16 ou 18 horas por prover enquanto ficavam QZP’s à espera sem colocação definida ou a exclusão do concurso de muito e muitos docentes por terem direito a redução parcial de horário por razões médicas.

O que significa que em Setembro de 2005 houve muitas aulas não dadas que não corresponderam a faltas, mas sim à ausência de colocação correcta e atempada de docentes. O que não é da sua responsabilidade, mas do…

Este ano, e felizmente, o concurso decorreu a horas pela primeira vez de há um tempo para cá e – se esquecermos o caso em torno dos professores de Português/Inglês que não levou a falta de professores, mas a uma distribuição estranha das colocações – muitos docentes chegaram a tempo e horas às Escolas.

Por isso acredito que nas duas últimas semanas de Setembro tenham sido dado mais aulas do que em período “homólogo” do ano anterior, o que não significa que tenham sido dadas menos 40% de faltas pelos docentes do que em 2005, pois quem não está colocado não pode faltar.

Mas eu apostaria a unha encravada do dedo mindinho do meu pé direito que a comparação “homóloga” esqueceu estas minudências que, apenas por mero acaso, acaba por ser conveniente ignorar no momento de fazer declarações públicas do tipo “pedrada na malandragem”.

(com cartoon de Antero Valério)