Quinta-feira, 9 de Novembro, 2006


Ainda antes de análise mais detalhada da entrevista da ministra ao Jornal de Negócios, fica aqui apenas a expressão da minha respeitosa admiração quanto à forma como se passaram a usar artisticamente estatísticas para deliberadamente acirrar a opinião pública contra os docentes, a partir de uma utilização abusiva de amostras parciais e dificilmente significativas.

Num exercício repetido de ataque aos docentes, MLRodrigues decidiu afirmar que os docentes estão a faltar menos 40% de acordo com os seus dados e aproveita para acrescentar que é uma conclusão com base nos dados homólogos dos meses de Setembro deste ano e do ano passado.

Em primeiro lugar, isso significa tão só e apenas uma amostra correspondente a uns 10 dias úteis de aulas, o que está longe de ser significativo, antes lembrando outro episódio triste quando MLR decidiu há um ano atirar para a rua um número de faltas dadas pelos professores, não explicando que era uma extrapolação e não uma análise rigorosa e que os números se referiam a tempos lectivos e não a dias.

Em segundo, omite o facto de o concurso do ano passado ter padecido ainda de diversos males, atrasos e situações anómalas – que foram cirurgicamente arredadas dos olhares públicos – que fizeram com que muitos docentes fossem tardiamente colocados de forma correcta, no que se incluem professores dos quadros de nomeação definitiva, QZP’s e não só. Sei o que foi passar pela DREL nos primeiros dias de Setembro de 2005, com gente amontoada a receber senhas para resolver situações que especificarei logo que me apeteça escrever sobre o ridículo, a incompetência e os “amanhos” do Ministério da Educação nessa matéria, bastando relembrar os casos de horários de 16 ou 18 horas por prover enquanto ficavam QZP’s à espera sem colocação definida ou a exclusão do concurso de muito e muitos docentes por terem direito a redução parcial de horário por razões médicas.

O que significa que em Setembro de 2005 houve muitas aulas não dadas que não corresponderam a faltas, mas sim à ausência de colocação correcta e atempada de docentes. O que não é da sua responsabilidade, mas do…

Este ano, e felizmente, o concurso decorreu a horas pela primeira vez de há um tempo para cá e – se esquecermos o caso em torno dos professores de Português/Inglês que não levou a falta de professores, mas a uma distribuição estranha das colocações – muitos docentes chegaram a tempo e horas às Escolas.

Por isso acredito que nas duas últimas semanas de Setembro tenham sido dado mais aulas do que em período “homólogo” do ano anterior, o que não significa que tenham sido dadas menos 40% de faltas pelos docentes do que em 2005, pois quem não está colocado não pode faltar.

Mas eu apostaria a unha encravada do dedo mindinho do meu pé direito que a comparação “homóloga” esqueceu estas minudências que, apenas por mero acaso, acaba por ser conveniente ignorar no momento de fazer declarações públicas do tipo “pedrada na malandragem”.

(com cartoon de Antero Valério)

… a revista Pontos nos ii de Novembro decidiu comparar o discurso actual da actual eminência parda (será um Richelieu ou um Mazarino?) da equipa ministerial que tem negociado com os sindicatos sobre a carreira docente com o seu discurso enquanto líder sindical dos docentes do Ensino Superior.

Tal como Valter Lemos que também hoje surge ao serviço de uma política completamente contrária ao que escreveu há uma dúzia de anos, Jorge Pedreira também aparece agora como paladino de um sistema que enquanto presidente do SNESUP procurou combater de forma activa.

Todos podemos mudar de ideias, eu sei, mas a mim afligem-me as tergiversões quando as pessoas já deveriam ter uma opinião formada sobre certos assuntos. É que não estamos a escrever sobre desvarios ideológicos da juventude. Estamos a falar de pessoas já perfeitamente conscientes das suas opções, que se acredita terem estudado os temas antes de emitirem opiniões quando ocupam lugares de responsabilidade.

Em 1997, Jorge Pedreira-sindicalista achava que as limitações artificiais à progressão dos docentes no Ensino Superior eram más, injustas e que desmotivavam e desencorajavam as pessoas por cortar-lhes as perspectivas de progressão, não correspondendo a uma correcta recompensa do mérito.

Desde 2005, Jorge Pedreira-governante acha exactamente o contrário e contradiz-se a si mesmo com o maior dos despudores. Das duas três, ou JP-sindicalista estava errado nas suas posições, ou JP-governante é que se encontra equivocado. A menos que seja válida a terceira hipótese: a de que não são as opiniões que mudam, são os lugares que se ocupam, sendo que as opiniões que se expressam acompanham as circunstâncias e não as convicções.

Na última página da revista Visão de hoje José Gil faz um dos mais belos textos sobre a situação de incompreensão da parte da Ministra e da sua equipa para com a classe docente. O seu diagnóstico é claro e coloca o dedo em todas as feridas, com destaque para a ausência de qualquer tipo de incentivo para com os professores por parte da Ministra, enquando se multiplicam as menções directa ou indirectamente ofensivas para os professores no seu todo ou para os seus sindicatos representativos que, por uma vez unidos numa plataforma comu, até são mesmo representativos da classe.

No entanto, e na linha de outras inclinações visionárias em favor desta Ministra, o destaque escolhido do conjunto do texto (assinalado por mim a verde) é uma passagem que pretende dar uma ideia completamente diversa do seu conteúdo, apresentando uma declaração isolada que parece insinuar que o texto escrito é sobre outro assunto, como se fosse apenas e só sobre a relação entre um eventual insucesso da política educativa e o fracasso de toda a política orçamental.

Quem ler o texto percebe que esta é uma digressão lateral à sua essência, mas a equipa editorial da Visão – será que andou por ali teclado de Paulo Chitas – preferiu destacar o detalhe por sobre a substância da mensagem de José Gil que é fortemente crítica da acção do Ministério.

Em vez de se salientar uma frase que dessse uma ideia do conteúdo geral do artigo de opinião, prefere insinuar-se que J. Gil estabelece uma relação directa entre o insucesso da Ministra e o fracasso de todo o Governo, como se fosse dela que dependesse todo o Orçamento. A estratégia editorial, a mim, parece-me intelectualmente muito desonesta, tanto para o autor como para os leitores, mas como provavelmente o objectivo era apenas dar uma ideia geral a quem lê estes artigos na transversal, o trabalho foi “bem feito”.


O Fado do Do(c)ente…

(É agora que vamos ser mesmo colocados fora da carreira… e não desesperem que a imagem por vezes custa a carregar, pois somos estreantes nisto…)