Infelizmente não sou um especialista instantâneo em tudo e mais alguma coisa. Por isso, procuro evitar meter-me em meandros que domino muito mal ou que desconheço por completo. No caso da gestão de empresas ou dos modelos organizacionais o que sei resulta do facto de, para além de retalhos de cultura geral, ter ajudado há uma meia dúzia de anos nas leituras realizadas por uma pessoa da família que fez um Mestrado em Gestão exactamente com uma tese sobre o desempenho comparativo entre departamentos da administração pública e o sector privado.

À época li uma dezena de artigos sobre o tema e uma meia dúzia de obras cujo conteúdo condensei, tretendo apenas a informação que achei mais interessante, em especial da autoria de autores como Peter Drucker ou Henry Mintzberg, entre outros. Já então achei interessante a crítica desenvolvida aos modelos hierárquicos e centralizados das organizações, económicas mas não só, ficando-me a ideia da emergência nos anos 90 de uma tendência que apontava para a maior rendibilidade dos modelos reticulares e desconcentrados, em que a responsabilidade é partilhada e as funções obedecem a diversos graus de rotatividade.

Hoje, com uma manhã livre entre mãos (um dos “privilégios” que me resta, por enquanto…), fui instruir-me mais um pouco e lá fui em busca de literatura mais recente sobre o tema. Entre diversas leituras rápidas, enquanto tomava o café, lá reencontrei o que procurava, a diferença entre o modelo americano taylorista da organização com estrutura piramidal em A e o modelo japonês, mais flexível, em rede e com rotação de funções e responsabilidades, o que parece motivar mais os recursos humanos do que o encerramento numa única função, em J, que se mostrou progressivamente mais eficaz na gestão dos recursos humanos das empresas e que em grande parte explica o sucesso de diversas corporações nipónicas.

Mas esse é apenas um dos aspectos que me faz crer que a defesa do modelo hierárquico para a organização da docência é apenas um entre vários possíveis, sendo agora preferido por razões meramente instrumentais. Aliás, mesmo no campo da pesquisa educacional, o tema da análise organizacional já deixa de ser inédito e são alguns os estudos que vão aparecendo, em tradução ou nacionais, com base em pesquisa inédita ou em síntese dos conhecimentos actuais.

Fiquemos, então, apenas com uma breve citação de um texto que, apesar de razoavelmente cerrado, eu fiz por seleccionar uma parte facilmente inteligível:

De acordo com este novo espírito, o próprio conceito de empresa passa a ser visto também, a partir dos anos 90, segundo o modelo de rede – em detrimento dos princípio hierárquicos – como forma de coordenação e de dominação (…) por outras palavras, a forma reticular seria, como comentam os autores citados [Boltanski e Chiapello] como um novo one best way, ao mesmo tempo que mobilizaria um novo sistema de valores para a produção de juízos, para discriminar comportamentos adequados e de exclusão, para atribuir preço às qualidades e atitudes, para legitimar novas posições de poder e para seleccionar aqueles que dela beneficiam. Isto significa que esta organização em rede, embora tenha existido noutros tempos, deixa agora de ter o “selo da clandestinidade” e de periculosidade contra a hierarquia oficial, ganhando foros de cidadania plena. (Carlos V. Estevão, “Abordagens Sociológias Outras da Escola como organização” in Compreender  a escola: perspectivas de análise organizacional. Porto: Edições Asa, p. 272.)

Pronto. Parece que aquilo que eu tenho defendido por uns quantos posts e comentários não é nenhuma teoria abstrusa e desligada do que actualmente se considera ser bastante válido (já nem digo o melhor), do ponto de vista organizacional, não apenas para as escolas mas para as próprias empresas. Se há quem queira ficar agarrado às teorias do passado, herdadas do taylorismo e do fordismo, tudo bem. Só é pena que, pelo caminho, acabem por fazer (ou concordar com) dezenas de milhares de “vítimas” da aplicação de receitas requentadas.