Sou alérgico a todo o tipo de apressada e despropositada comparação de tudo o que se passa no plano político nacional com o “fascismo”. Já tive muitas discussões sobre isso, porque considero que andar com o fascismo – ou o salazarismo, como prefiro especificar – para cá e para lá só o vulgariza e o torna algo demasiado corriqueiro. Esse tipo de paralelismos só deve ser feito quando a substância o justifica e não quando parece dar jeito para dirigir uma ofensa ao interlocutor ou ao(s) visado(s).

Por isso mesmo é como excepção que considero que a actual política governamental para com os docentes significa um retorno ao passado em dois planos:

Antes de mais a tentativa de transformar o professor não num profissional com autonomia na sua acção pedagógica quotidiana e com uma perspectiva alargada de carreira, mas meramente num funcionário da máquina estatal de educação de massas está bastante próximo do esvaziamento da formação académica e proletarização salarial que o Estado Novo procurou fazer do papel do professor primário que, na fase final da Monarquia Constitucional e na Primeira República, tinha assumido um papel de relativo destaque na sociedade. De qualquer forma, a diferença é que o Estado Novo compensava esse esvaziamento e menorização político-profissional com um investimento retórico no papel simbólico do professor que agora claramente deixou de existir.

Por outro lado, e em termos organizacionais, a recuperação um modelo hierárquico da Escola em que existe uma cúpula dirigente evoca, tanto na nomenclatura (o termo de “professor titular” não é novo, só que então era o professor titular de uma determinada cadeira ou disciplina) como na substância, o tempo em que os Liceus eram dominados pelas figuras dos reitores, então de nomeação governamental, algo que já esteve mais longe de acontecer atendendo à permanência da corrente que continua a defender a nomeação de gestores.

Para quem quiser aprofundar estas questões nada como confirmar com a leitura de obras como O Estatuto Socioprofissional do Professor em Portugal (1901-1951) de Áurea Adão, publicado em 1984 pelo Instituto Gulbenkian da Ciência ou Os Liceus: Organização Pedagógica e Administração (1836-1960), de João Barroso e publicado em 1995 pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Se o fizerem, notarão certamente mais pontos de contacto entre as soluções de outrora e as actuais do que talvez esperariam. E, principalmente, perceberão que agora estamos muito longe de soluções viradas para um futuro inovador por muito que nos queiram fazer crer que se está a criar um Novo modelo de Estado.