… e como sempre tomando os professores como alvo preferencial. Hoje no Jornal de Negócios vem uma memorável entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues, daquelas para guardar para a posteridade e memória futura, que irá ser objecto de análise m-u-i-t-o detalhada aqui no Umbigo porque desta vez houve um certo esmero no desacerto discursivo, seja na incoerência, seja no aparente desconhecimento, seja na demagogia.

Percebe-se que MLR se sente segura no cargo e com as chamadas costas quentes, pois alarga a frente da investida contra a classe docente e envereda por novos caminhos com a manifestação de movas opiniões sobre o sistema educativo.

Aliás, parece-me mesmo que “opiniões” é a palavra certa para certas afirmações da Ministra pois muitas carecem aparentemente de “conhecimento”, pois já os gregos distinguiam doxa e logos, não sendo por acaso que a primeira se associava ao mito e o segundo ao pensamento racional. Não que ache o discurso produzido da ordem do irracional, muito pelo contrário, ele é infelizmente racional; o problema é que todo ele se parece fundamentar em informação parcial ou lacunar sobre o sistema educativo e o seu funcionamento ou então elabora demagogicamente a partir de dados selecionados para produzir dano nos visados, encarados de forma clara como o “inimigo” a domesticar, sendo o mais notável o uso das estatísticas homólogas sobre o número de faltas durante o mês de Setembro que sabemos ser um falso mês de aulas, pois em muitos estabelecimentos o funcionamento em pleno apenas aconteceu durante duas semanas.

Mas não há problema, atira-se com 40% de faltas a menos dos profes, à laia do “estão a ver como aquela malandragem anda com medo de mim e andam todos com medo e agora até dão aulas?”.

Mas essa é uma gota num imenso mar de retorcidelas argumentativas em que se descola dos factos e se expõem “novas” ideias verdadeiramente inenarráveis. Fiquemo-nos só pelos destaques de capa, que mais logo iremos ao miolo:

  1. Os docentes deverão poder concorrer à liderança de escola que não a sua – a ideia seria interessante e concebível, não fosse a forma como o Ministério pretende “arrumar” os quadros de professores por agrupamentos (onde estão as vagas nas escolas alheias para os candidatos?) e principalmente aqueles em que a Ministra pensa, quando desenvolve o raciocínio. Como veremos, se lermos o interior, ela pensa principalmente nos membros de Conselhos Executivos que, não sendo reconduzidos no cargo em eleições pelos colegas, ficarão “fragilizados” nas suas Escolas. Eu percebo a lógica: se brevemente alguns dos seus mais empenhados aliados em Executivos forem corridos por facções críticas, há que protegê-los da turba ululante. É uma forma de proteger os “seus”, já se percebeu. Mas segundo essa lógica, se Sócrates perder as próximas eleições deveria poder emigrar e candidatar-se a Primeiro-Ministro do Burkina Faso ou da amada Finlândia o que, agora vendo bem a coisa, até que nem seria uma má ideia. Agora esta noção da “fragilização” dos detentores dos cargos executivos que não venham a ser reeleitos é particularmente interessante e percebe-se que muito estranha aos hábitos de funcionamento democrático que, apesar de algumas distorções, têm sobrevivido nas escolas.
  2. Por outro lado a Ministra gaba-se do aumento de alunos neste ano lectivo como se fosse quase obra do Governo, a multiplicação das criancinhas  quase que por geração espontânea. Claro que aumentaram, pois a rede do pré-escolar está em expansão. Na minha freguesia aumentou muitos por cento, pois desde o ano passado que finalmente há rede pública desse nível de ensino! Se a Ministra fizesse a gentileza de desagregar os números por nível de ensino (ainda não estão disponíveis esses números em lado nenhum que eu os possa consultar) talvez percebessemos do que falamos. A atribuição do aumento de alunos a cursos de tipo profissional parece-me carecer de fundamentação empírica, mas até posso estar errado. Mas enquanto se elabora sobre o vazio informativo é sempre possível avançar sem receio do desmentido formal.
  3. Por fim, nas letrinhas pequenas retorna-se à evidente inverdade de o Ministério querer remunerar melhor quem assumir maiores responsabilidades nas Escolas. Isto não é verdade tanto porque o leque salarial é o mesmo e, portanto, ninguém vai receber mais, como porque essas pessoas serão obrigadas a permanecer mais horas na Escola, o que faz reduzir o valor unitário do seu tempo de trabalho. E o que acabei de escrever é objectivo, não é opinião minha, colhida ali na esquina ou em qualquer assessor comunicacional. De acordo com o ECD que o Ministério propõe ninguém vai ganhar mais e muita gente vai mesmo deixar de poder ganhar mais. Em contrapartida, serão muitos os que irão trabalhar mais pela mesma remuneração.

Mas aconselho vivamente a leitura desta entrevista – tal como MLR me mandou ler a proposta de ECD, o que obedientemente tenho feito a cada nova versão – e destacaria ainda a ideia de desmontar o sistema nacional de colocações que David Justino tanto se esforçou por concluir, de modo a reduzir as hipóteses de compadrio que existiam a nível regional e local, em favor de sistemas regionais de colocação de professores.

Ou seja, o regresso a um passado não muito distante e, se ligarmos esse desejo de regresso a outras medidas destinadas ao acerto directo de contratações pelas escolas, a todo um mundo opaco de potencial clientelismo e desvirtuamento do escalonamento da classificação dos docentes, abrindo de forma mais escancarada uma via para a reinstalação de alguns dos piores vícios do “sistema”, que ainda não tinham sido completamente erradicados e já vêem a hipótese de voltarem em força.

Mas claro que assim os “fiéis” poderiam recrutar outros fiéis ou, pelo menos, novos vassalos para a hierarquia feudal piramidal que no actual Ministério passa por ser o modelo “organizacional” ideal.