Pelo despacho 114/ME/88 do Ministro Roberto Carneiro seria criada uma comissão para estudar a situação do professor do ensino não-superior. O relatório dessa comissão seria relativamente rápido e a sua divulgação surgiria no nº 103/104 da revista Análise Social do próprio ano de 1988.

Esse estudo seria, em grande parte, motivado exactamente pelo processo que então estava em decurso de revalorização da profissão docente e de reestruturação da carreira. Não sei se agora se fez algo mais do que calcular a massa salarial, a sua distribuição e o melhor local para aplicar o torniquete.

Eu não me vou alongar muito na descrição do contexto, que corresponde praticamente ao meu início de carreira, intermitente, como professor, mas apenas em algumas das conclusões do relatório, em especial as que se referem à situação profissional então existente e à relação ambígua estabelecida com a tutela, já então a tender para uma atitude mero patrão:

O enorme crescimento, sobretudo quantitativo, dos professores, a partir dos anos 70, acompanhado de uma desqualificação profissional e académica, que hoje tende porém a ser corrigida, bem como de uma juvenilização do corpo docente, também hoje a ser contrariada, contribuíram para uma degradação do estatuto socioprofissional dos docentes, de que a progressiva feminização parece ser um reflexo.

Foi um crescimento que se traduziu numa certa litoralização e urbanização da concentração de professores, e que acarretou, com a crescente estatização do ensino, também uma maior estatização do seu estatuto profissional, já que o Ministério passou a ver cada vez mais sobre posta a sua função de tutela com a de entidade patronal da grande maioria de professores. (“A situação do professor em Portugal” in Análise Social, nº 103/104, 1988, p. 1206)

O destaque é meu porque, depois de algum aligeiramento da tendência, a função de patrão parece estar de volta e com ela tudo o que sabemos sobre a complicada relação entre os interesse do patrão e dos empregados sobre o melhor destino a dar ao capital. Isto até pode soar um bocado marxista, mas talvez desta forma se despertem velhos fantasmas adormecidos em alguns espíritos acomodados aos novos ventos da desideologia.