Domingo, 5 de Novembro, 2006


… há quem pense de forma diferente. Não me faz querer ser iberista, mas…

La Consejería de Educación pone en marcha desde hoy martes en prensa, radio y televisión una campaña de apoyo al profesorado con el objetivo primordial de “reconocer, valorar y prestigiar socialmente la profesión docente”, según dijo ayer en Jaén la consejera Cándida Martínez. La campaña, que va dirigida a los 112.000 profesores que ejercen en la comunidad, lleva el lema Gracias profesorado, sin vosotros no sería posible, porque, a juicio de la consejera de Educación, el profesorado “es el elemento central del sistema educativo”. Por eso, añadió, otro de los objetivos que se persiguen es “agradecer en nombre de toda la sociedad el trabajo que cada día realizan estos docentes en los colegios y en los institutos”.

Notícia do El Pais de 10 de Outubro passado, cuja referência agradeço a Luís Ferreira.

Mais de um leitor/comentador me fizeram notar, de uma forma ou outra, que não é correcto atacar esta política educativa pela incapacidade dos seus promotores a conseguirem explicar de forma cabal e convincente. Em alguns casos, o reparo é feito porque eu pareço colocar em causa a competência técnica deste ou daquele governante, enquanto em outros se refere que a retórica não é condição essencial para definir um bom político, na verdadeira acepção da palavra.

Eu quase concordo com tudo. Tirando a parte em que discordo, é claro. E no que discordo: em primeiro lugar, quando um político tem dificuldade em explicar a política que pretende desenvolver, nestes tempos em que há assessores para tudo, até para aconselhar a forma de olhar, colocar as mãos e entoar certas passagens que se pretendem deixar mais impressivas no espírito de quem vê/ouve, podemos considerar isso uma inabilidade pessoal, mas também podemos considerar que a profundidade da fundamentação escasseia, muito em particular quando o discurso não se afasta de baias muito claramente reconhecíveis. Em segundo lugar, a questão da retórica atractiva e brilhante está longe de ser condição essencial; a mim basta-me a clareza da exposição ou a percepção do ajustamento do que é dito aos factos em apreço. Ora é aqui que a simpática porca torce o seu diminuto rabito. É que a bota discursiva não bate com a perdigota factual, com ou sem retórica.

Digam-me assim: é pá, estamos mal, andámos 20 anos a desperdiçar dinheiro e agora todos são obrigados a sacrificar-se e vocês não são excepção, deixem-se de coisas, lá por serem professores não pensem que escapam.

É uma forma grosseira e rude de colocar a questão. Mas, pelo menos, a mim soa-me a honestidade e franqueza. E com isso eu posso lidar, concordando ou discordando da essência da questão.

Agora quando me aparecem com falinhas sofisticadas, em tons de mérito e etcs vários, é porque já me querem fazer passar por inepto ou por candidato a atestado de menoridade intelectual  (e como a mim, muitos outros), isso já faz acrescer à discordância de fundo uns pózinhos de orgulho e dignidade em ferida.

E nesse caso eu não sou de dar a outra face ou de fingir que sou como aqueles simpáticos cadelinhos que antigamente se colocavam nos carros sempre a concordar com tudo, de cabecinha a dar-a-dar. São feitios, ou mesmo defeitos, eu sei lá.

É como os professores vão ficando à medida que todos se parecem converter aos méritos da avaliação com base em quotas com diversos argumentos (hoje foi Marcelo Rebelo de Sousa, mais um dos que não contestam a substância mas apenas a forma), qual deles o que acho mais desadequado, desde o desejo do “todos iguais” no aparelhismo estatal que me soa a qualquer coisa que pensava ter passado de moda ao problema “das mentalidades” que alegadamente impede que uma avaliação seja feita de forma diferenciada na carreira docente.

A todos esses defensores da avaliação com base em quotas que distingam o mérito, eu deixarei aqui, pela enésima vez, mas talvez com formulação mais curta e grossa, a forma que acho correcta que resolver essa questão de forma justa, se é verdade que o que se pretende é distinguir o mérito, e nesse caso até aceito a ideia geral da proposta:

  1. Antes de mais, usem a actual carreira como base para a generalidade dos docentes que têm um desempenho satisfatório ou bom e discriminem positivamente os Muito Bons e Excelentes e negativamente os que apresentam uma má qualidade no seu trabalho. Para uns criem lá então uma categoria especial, mas façam-no de forma positiva, pois agora aos Excelentes apenas garantem que chegarão onde já chegavam, só que em mais tempo.
  2. Em seguida, se acham que uma adequada classificação entre pares é impossível por “causa das mentalidades” e dos hábitos enraízados, então coloquem a Inspecção Geral do Ensino a funcionar como deve ser, de olhos abertos e com gente competente a fazer tal avaliação, em vez de andarem a perder tempo com minudências administrativas e burocráticas que em nada influem de forma relevante na vida das escolas, enquanto deixam passar debaixo dos olhos situações das mais escabrosas, mesmo quando são objecto de denúncias bem claras. É que o desempenho da IGE e a sua cegueira, por exemplo, são das coisas que mais me impressiona quando ouço relatos do seu rigor no pormenor e da sua incapacidade para detectar o pormaior.

Com estas duas simples medidas, compensação positiva e negativa dos que se destacam de uma forma ou de outra e avaliação “externa” competente e a sério, seria possível um sistema mais justo e meritocrático.

Enquanto as medidas propostas visarem apenas criar bloqueios à progressão salarial, mascarando isso como “topos de carreira”, todos percebemos ao que andam, confessemo-lo ou não.

Eu sei que só os burros não mudam de ideia. Talvez por isso admita com facilidade a minha indisfarçável burrice ao não mudar de opinião sobre os aspectos essenciais da forma como se deve fazer a avaliação, mesmo se concedo serem necessárias adaptações a cada contexto e a às situações particulares de cada indivíduo ou grupo de indivíduos. Alguns considerarão que isso é teimosia, eu acho que é apenas defender aquilo que acho estar certo.

Um desses aspectos é a minha não adesão a esquemas de avaliação que partem do pressuposto que os avaliadores são pessoas incapazes de exercerem a sua função e que só o conseguirão fazer se forem obrigados e coagidos de forma exógena e artificial. E, claro, discordo das avaliações que devem conduzir a resultados perfeitamente geométricos na sua distribuição, sejam eles curvas ou pirâmides mais ou menos virtuosas.

Por outro lado, acho bastante interessante como alguns dos promotores, ou dos seus companheiros de estrada, da ideia de que a avaliação dos docentes não tem sido rigorosa ou selectiva, conduzindo à metáfora da pirâmide invertida, serem os mesmos que durante uma década ou mais pregaram as virtudes da não selectividade na avaliação dos alunos, considerando que o sucesso era um “direito” e que a não progressão dos indivíduos na sua trajectória – que também é uma carreira – escolar teria efeitos desmotivadores e dificilmente conteria em si qualquer tipo de vantagens.

Ou seja, o que se apresentou longamente como válido para os alunos, não é válido para os docentes que, em primeiro lugar, foram considerados pouco competentes para exercerem uma avaliação rigorosa dos alunos e, em segundo, passaram a ser criticados por eles próprios não serem avaliados com rigor, sendo cercados por todos os lados pela tutela de dedos acusadores perante a opinião pública.

Isto tem a sua dimensão kafkiana, mas eu prefiro ser mais objectivo e insistir na teoria do pragmatismo à la carte, a fórmula de sucesso dos políticos de ocasião que vamos tendo, cujas crenças evoluem com os humores orçamentais. Ontem, a não selectividade na avaliação dos alunos servia para emagrecer por via administrativa e legislativa o insucesso escolar; hoje, a necessária selectividade na avaliação dos docentes serve para emagrecer por via legislativa e administrativa o défice.

Só que ninguém teve ou tem a “coragem” (para usar a expressão de um comentário do Henriquin) para assumir com clareza a razão das suas opções.

Não há nenhum modelo virtuoso, por si só, de pirâmide. Isso é um recurso fácil para enganar os que querem ser enganados ou não têm interesse em ir mais fundo do que o valor retórico e facial do discurso político.

Eu, hoje como ontem (lá está a minha empedernida burrice que me incapacita para mudar de opinião), acho que os que o merecem devem ser recompensados, os que que não o merecem devem ser deixados como estão e os que o desmerecem devem ser penalizados. Se isso acaba por dar uma pirâmide, uma oval, um quadrado ou uma estrela cheia de bicos não me interessa. Continuo a achar que uma avaliação que se queira justa e equitativa deve obedecer a critérios de rigor e qualidade e não a propriedades salvíficas da geometria.

Será isso o verdadeiro liberalismo? Quero crer que sim, porque por liberalismo entendo algo que radica na liberdade dos indivíduos nãos serem formatados a fórmulas.

Em contrapartida, acho que muito do que aí se apresenta (de forma elogiosa ou critica, conforme os sectores de opinião) como (neo-)liberalismo mais não passa do que um pretexto para um pragmatismo casuístico da acção sem linha orientadora, desrespeitador das liberdades e direitos individuais e atribiliário na forma de implementar decisões, escondendo as suas razões evidentes com efeitos de retórica e metáforas com pés de barro. Na prática, é um liberalismo paradoxal, porque autoritário.

Nesse sentido, sim, concordo que as actuais políticas educativas (e não só) são liberais.

Nota final: A imagem é retirada da obra Avaliação dos Alunos do Ensino Básico: Outras práticas para o sucesso educativo, Lisboa, ME, 1992, p. 13.

David Hockney (1998), Garrowby Hill

E vem aí uma nova banda desenhada do novo super-herói docente criado por Antero Valério, o Tutorman