Continuando na digressão pela literatura que à aproximação do Outono de 1992 se abateu sobre as Escolas e as massas docentes pouco esclarecidas sobre o que então procurava ser uma investida decisiva contra o insucesso escolar em Portugal que tanto manchava a nossa imagem no exterior, eis que agora temos aquela que considero uma das publicações seminais do eduquês enquanto discurso educativo oficial do ME em boa parte dos anos 90.

De autoria não especificada, a obra em causa, de subtítulo Outras práticas para o sucesso educativoprocurava apresentar, depois da transcrição da legislação que entrava em vigor, as respostas que se pretendiam definitivas uma dúzia de objecções que se poderiam colocar à sua implementação ou dúvidas sobre os seus efeitos na qualidade do ensino. Hoje sabemos que muitas dessas dúvidas tinham todo o cabimento e se vieram a comprovar, mas na altura a barragem discursiva destinava-se a demonstrar que ali vinham amanhãs educativos que cantavam de alegria e sucesso.

Ora então vejamos:

Poderá certificar-se, através da leitura de estudos váriosm que a reprovação, para além de gerar novas reprovações, pode gerar atitudes de rejeição da escola, desmotivação e afectar a auto-estima, o que compromete a realização pessoal e social dos educandos.
Não se trata de uma opinião. Numerosos estudos científicos têm comprovado esta evidência, E têm alertado para as consequências profundamente deseducativas dos sistemas avaliativos fundados na selecção. (p. 13)

Isto é profundamente interessante a tantos níveis que umas boas páginas não chegariam para descrever. Eu, para começar, daria um salto temporal e tentaria adequar este discurso ao actual sobre a avaliação dos professores, pois agora (e lembremo-nos sempre que há permanências de algumas pessoas entre os dois momentos) afirma-se exactamente o contrário, considerando-se que a selecção não é nada desmotivadora para o desempenho dos docentes. Para além disso é sempre interesante como aludindo-se a estudos e evidências, nunca se especifiquem quais, nem a publicação tenha uma mini-bibliografia de apoio sequer para que os docentes pudessem confirmar tudo o que é afirmado e sentirem-se ainda mais convencidos da bondade de tudo o que lhes era dado como óbvio e adquirido.

Depois tinhamos aquelas passagens perfeitamente pós-modernas e relativistas sobre o ser e o nada, como:

O que é passar, o que é saber?
(…) Por outro lado, você que [sic] não há um mas vários insucessos escolares. Pode haver o (in)sucesso ligado á instrução. Mas há também o (in)sucesso da socialização e da estimulação. O saber e o não saber são assim compósitos e plurais e muitas vezes a classificação apenas dá conta do êxito/inêxito da instrução.
Assim, o que se pretende é um sucesso educativo integral e não um sucesso reduzido à sua dimensão instrutiva. (p. 15, destaques da própria obra)

Todos sabemos que o insucesso da socialização é o problema menor de muitos dos alunos com insucesso escolar, mas nem vou por aí. Resta-me assinalar a entrada das pluridimensionalidades no discurso, algo que viria para ficar em conjunto com outras designações iniciadas por “trans” e “multi”. Assim como a retórica do “sucesso” centrada na responsabilização dos docentes e não dos alunos.

Nós ouvimos dizer: o professor é um profissional e não um funcionário. Ora a principal função do funcionário é obedecer aos superiores hierárquicos, cumprir programas, esperar que lhe digam o que fazer. Se o professor quer ser um profissional, a sua principal obrigação é para com o sucesso dos alunos. A reivindicação (e a construção) da profissionalidade terá tanto mais ~exito e será reconhecida e valorizada pela sociedade quanto mais a a acção docente for profissional.
Considera que um profissional está sempre à espera que alguém lhe dê todas as condições para exercer o seu trabalho? (p. 17)

Lia-se isto (e ainda se lê) e não se acredita(va), em especial a parte da justificação da falta de condições de trabalho. Aliás, agora lê-se e acredita-se na parte do professor como funcionário e não como profissional pois, aparentemente, o Ministério agora acha mesmo que os docentes não passam de funcionários como outros quaisquer.

Mas havia melhor, pois a cada objecção a resposta enveredava por delírios progressivos, na tentativa de destruir mitos arcaicos e erguer uma nova verdade, como por exemplo sobre a dimensão das turmas, mesmo se a argumentação cinduzisse a paradoxos:

(…) não há qualquer comprovação que, de uma forma geral, os alunos das turmas muito pequenas aprendam mais e melhor do que os alunos das turmas que têm 20/25 alunos. (…) A dimensão da turma, sendo, nalguns casos, condição importante, não é a “pedra angular” do sucesso. A sua experiência não lhe demonstrará esta evidência. Não poderemos gerir, dentro da mesma turma, apredizagens diversificadas, ritmos diversos? (p. 21)

Claro que eu aqui já tinha entrado em completo estertor pois no ano lectivo anterior, de 1991/92, tinha leccionado 11 turmas (ONZE) de 9º ano (da B à L, que a turma A tinha o Presidente do Conselho Directivo que era meu colega de grupo), 10 das quais acima dos 25 alunos, o que me tinha dado a linda soma de cerca de cerca de 300 alunos. Ter tal experiência e ler que devia diversificar as estratégias de trabalho na sala de aula e na avaliação e seguir ritmos diferentes foi algo que me deixou em estado de avançado paroxismo perante a absoluta descolagem do que era a realidade do quotidiano escolar de muitos docentes no início dos anos 90.

Mas esta obra merece análise mais detalhada e a reprodução de algumas das imagens inseridas que tornavam ainda mais burlesca toda a situação, com os professores a assumirem a figura de sádicos promotores do conformismo e felizes com o insucesso dos seus alunos, em especial se fizermos a retrospectiva do que se veio a passar e se ligarmos o discurso de então sobre a avaliação dos alunos com o discurso actual sobre a avaliação dos docentes.

Eu até compreendia a mudança de rumo e de crenças, acaso não encontrássemos, como já antes afirmei, algumas figuras comuns às duas épocas e aos dois tipos de discurso.

Porque, ao que parece, o direito ao sucesso e o efeito traumatizante da retenção quando nascem não são para todos.