Não conheço o jornalista e opinador residente do Expresso que dá pelo nome de Fernando Madrinha. Pelo que leio é pessoa bem informada, com opiniões consensuais q. b. e umas causas pontuais que lhe suscitam maior adesão ou aversão. Tudo isso acho legítimo e normal, assim como a expressão de qualquer tipo de opinião sobre este ou aquele actor político, acontecimento nacional ou o que seja.

Mas reservo-me o direito de, perante o que acho ser um rematado disparate em termos de argumentação, protestar e exercer o meu contraditório, à minha ínfima escala.

E a crónica desta semana de Fernando Madrinha sobre a questão da avaliação dos professores enterra-se naquele tipo de argumentário que, repetido sem contradição, corre o risco de se ir inscrevendo como verdadeiro no espírito das pessoas.

Retomando uma linha de raciocínio que alguns comentadores que defendem a política do Ministério da Educação gostam de usar por suporem-na irrefutável, FM afirma que uma avaliação sem quotas é uma contradição nos termos.

Não percebo bem onde é que FM (e alguns outros) colheram esta noção como indesmentível. Suponho que em estudos estatísticos sobre a distribuição da inteligência humana ou sobre o desempenho dos trabalhadores em algumas organizações. Só que esses estudos – nunca devidamente identificados, mas aludidos vagamente – dificilmente são generalizáveis a todo o fenómeno social ou a todas as práticas de avaliação, em organizações ou qualquer tipo de grupos e fenómenos humanos concretos.

Vejamos apenas dois aspectos, um de ordem prática e outro de ordem teórica, mas claramente interligados.

  1. Na prática, não indo mais longe e ficando apenas pela minha própria profissão, acontece que eu, em quase duas décadas, todos os meses, todos os períodos e todos os anos, tenho sido obrigado a avaliar mais de uma centena de alunos (por vezes menos, por vezes muitos mais). Quando o faço, faço-o de forma estritamente dependente do desempenho demonstrado pelos alunos individualmente e em termos relativos, claro. Mas nunca distribuo as classificações de acordo com fórmulas estatísticas ou mágicas, sejam elas a curva de Gauss que fazia um professor meu da Faculdade “acertar” classificações para que os factos concordassem com a teoria, ou qualquer outro artifício exógeno e condicionador da minha avaliação. Aliás, só assim compreendo o meu acto de avaliar como o mais equitativo e neutro possível. Não tenho apenas 5% de Excelentes a dar numa turma, ou 25% de Satisfaz Bastante. Há turmas em que esses valores são largamente ultrapassados, enquanto em outros são metas demasiados longínquas. E tudo varia conforme as disciplinas que lecciono e o mesmo observo em relação aos outros docentes. Em momento algum me ocorreu que, numa turma ou no conjunto de alunos que tenho, a minha avaliação teria de, para ser considerada justa, depender de artifícios deste tipo. Isso seria uma limitação perfeitamente disparatada, para além de um atestado de menoridade a todos os envolvidos, avaliador e avaliados.
  2. E daqui se parte para a questão teórica que é a seguinte: admitindo que a fórmula das “quotas” é cientificamente válida (o que duvido até demonstração em contrário, pois há distribuições assimétricas em todo o tipo de fenómenos soiciais) qual a unidade de análise que se deve tomar como base para determinar o valor da distribuição “ideal” de classificações? Voltemos ao meu caso: deverei usar como unidade cada turma por si, o conjunto das minhas turmas ou atender ao conjunto de todos os alunos da Escola? É que toda a lógica subjacente a este raciocínio parece ser a clássica “lógica da batata” pois, se fosse real uma distribuição previsível das classificações, como se justificaria que a distribuição das classificações seja tão diferente entre Escolas? No caso da carreira docente, uma quota geral de 5% para Excelentes e de 30% para classificações superiores a Bom baseia-se exactamente em quê? Que unidade de análise deve ser usada como padrão? Todo o conjunto dos docentes? Apenas os que estão integrados nos quadros? Segmenta-se por áreas currciculares? Por escalões etários? Por zonas geográficas? Ou acreditamos que, à moda do totalitarismo ideológico, tudo se distribui de forma uniforme em todos os lados?

O que me parece é que Fernando Madrinha, como muitos outros arautos deste sistema de avaliação por quotas, partilham uma concepção da sociedade, das organizações e dos grupos humanos, como funcionando necessariamente com base em modelos “redondinhos” e previsíveis. Ora sabemos há muito que esse tipo de pensamento, positivista na origem “científica” e totalitário na sua “engenharia social”, é desajustado às realidades humanas que, felizmente, ainda conseguem ter ânimo para serem singulares e específicas nas suas manifestações.

Claro que, como historiador por formação e vocação, tendo a dar demasiada atenção aos detalhes das situações concretas, às singularidades, e só gosto de recorrer a modelos como pontos de referência, ao contrário de pessoas de outra formação como, apenas a título de exemplo, economistas e sociólogos que asentam os seus esquemas conceptuais mais em modelos baseados nas regularidades, no cálculo das probabilidades e na eliminação dos elementos “estranhos” ou irregulares que perturbem a harmonia do conjunto, classificando-os como aspectos marginais e irrelevantes.

O problema é que, dessa forma, e quando aplicadas a grupos humanos, essas concepções abstractas traduzem-se em situações de injustiça para com os indivíduos e, pior do que isso, ao enquadramento forçado da realidade às determinações da teoria. Mas, ao que parece, o que está em jogo é mesmo encaixar a realidade nos 3% de défice das contas públicas e as pessoas que se arranjem. A conversa em torno do mérito é só a poeira que distrai ou perturba a visão de quem quer, ou melhor, de quem não quer ver mais longe.