Outubro 2006


Volto a declarar que considero que em Portugal foi feito um esforço substancial para equipar as Escolas durante boa parte dos anos 90 e já no presente século. As Escolas, nomeadamente as Básicas e Secundárias, estão melhor equipadas do que estavam há 15 anos. Isso é inegável.

Mas também é verdade que alguns investimentos ainda são muito escassos para os resultados que se pretendem obter. Há muito poucos dias passou o Dia Internacional das Bibliotecas Escolares e, quase em simultâneo, chegaram a muitas delas as comunicações sobre as verbas concedidas para dinamizar o Plano Nacional de Leitura. Eu sei que há muitas escolas no país e os recursos são finitos, mas 2500 euros como recebeu a Biblioteca da minha, sendo claramente melhor do que nada, estão muito longe de chegar para transformar o pão em rosas.

Aliás os números sobre a evolução da despesa com a Educação entre 1995 e 2003,  no contexto da despesa pública do Estado português, apontam para uma ligeira quebra de um valor que rondava a média dos países da OCDE para um valor que se afasta desa média, sendo o 14º em 26 nações.

Por isso, quando se elabora um discurso que sublinha de forma bastante acentuada o custo da Educação em Portugal, nunca nos esqueçamos que ainda estamos a recuperar de um grande atraso e, depois uma aproximação às médias internacionais, até começamos de novo a divergir.

De novo, um ano depois, pouco mudou…

Será que alguém vai levar isto a sério e de forma literal?

Antigamente existiam uns cromos muito ingénuos com um menino e uma menina com o título “O Amor é…” e depois existiam múltiplas soluções.

Já quanto a saber o que é um “bom professor” confesso que agora, mais do que nunca, ando cheio de dúvidas. É que fui apanhado de surpresa por um colega meu, 10º escalão, larga experiência de docência e cargos vários, que de sorriso afivelado me inquiriu quando eu espreitei para o espaço dos fumadores, “E tu o que achas que é um bom professor?”. Pois ele próprio andava às voltas com a questão e não lhe encontrava solução.

Não sou de ficar sem resposta facilmente, mas desta vez fiquei meio parado sem saber o que dizer, ou como juntar de forma coerente um par de pensamentos que ultrapassassem o óbvio. É que em perto de 20 anos muita coisa mudou e o conceito de “bom professor” foi naturalmente evoluindo e sofrendo múltiplas transformações, normalmente no sentido do seu alargamento para novos domínios.

Nos meus primeiros tempos, achava eu que ser um bom professor passava por ensinar o melhor possível os meus alunos, tornando-os capazes (agora é seria melhor escrever “competentes” ou ainda melhor “dotados das competências”) de obter bons resultados nos momentos de avaliação e, ambição maior, que esse saber pudesse ser útil no seu futuro; assim como também passava por cumprir as minhas obrigações formais na Escola e não atrapalhar os outros colegas. Este último detalhe não era, de todo, de desprezar.

Com o passar do tempo as coisas foram-se modificando em meu redor e eu próprio passei de caloiro a jovem professor e, a certa altura, comecei a ver-me a meio da carreira, tão perto ou longe do seu início como do seu fim, a meio caminho entre a completa inexperiência e o conforto de um saber profissional capaz de dar resposta às diversas solicitações da função. Que é por onde ainda estou.

Só que, entretanto, a função do professor desdobrou-se em múltiplas dimensões e, para além de educador, tornou-se um elemento activo de uma ou mais equipas (os Conselhos de Turma), de uma organização (a Escola), um profissional que se pretende reflexivo e crítico (foi a moda na segunda metade dos anos 90 do século passado), alguém que deve estar atento a todo e qualquer perfil de aluno nas suas aulas, uma miríade de exigências de que, sinceramente, nem sempre me sinto à altura.

Talvez não saiba definir o que é um “bom professor”, porque tenha o receio de encarar a dura verdade de eu próprio não me considerar um bom professor, um entusiasmado e dedicado elo na grande engrenagem do sistema educativo. Porque não sou capaz de sacrificar todo o meu tempo em prol da Escola, roubando-o à família. Porque não sou capaz apenas de pensar no “trabalho pedagógico” e na sua preparação e perco muito do meu tempo a ler ou mesmo, sacrilégio, a ver televisão. Porque nos fins de semana me recuso a estar horas agarrado a dezenas de testes, procurando o equilíbrio supremo da avaliação justa, ou a conceber “novos materiais” de apoio, e preferindo ir dar um passeio até aos jardins da Gulbenkian, onde a minha filha possa dar umas côdeas aos patos sem precisar de se desviar constantemente de fezes caninas ou ciclistas entusiasmados.

Enfim, muita coisa me faz acreditar que não estou em condições de ser um “bom professor”.

O que nunca me tinha ocorrido é que essa condição poderia estar dependente de leccionar uma dada e muito específica percentagem – digamos, assim por acaso, 95% – de aulas. Nunca considerei esse critério quantitativo como elemento indispensável e exclusivo (no sentido de excluir quem o não cumpre) para a minha definição como bom, muito bom, menos bom ou francamente mau professor. Nunca pensei que em 709 aulas previstas para este ano lectivo poderei ser um bom professor, ou mesmo muito bom, se der 676, mas já só poderei ser considerado suficiente se apenas der 672.

Sinceramente, durante muito tempo quis acreditar que a qualidade do meu trabalho não seria mensurável nestes termos. Mas pelos vistos vivi o suficiente para assistir a esta forma de classificar o trabalho de um professor. Porque, não o esqueçamos, este critério quantitativo é aquele sem o qual todos os outros são irrelevantes. Não interessa se eu tiver formado óptimos alunos e futuros cidadãos; que nas provas de aferição eles tenham performances estonteantes e acima da média nacional, que tenha desempenhado as minhas missões administrativas a contento na Escola (podendo hipoteticamente ser de Director de Turma, ou Coordenador de Departamento ou isto ou aquilo); que os encarregados de educação me adorem sem excepção.

Se não der as 675 aulas determinadas pela fórmula mágica e me descuidar, tudo vai por água abaixo e “bom professor” terei logo a certeza de não ser. Pelo menos as minhas dúvidas terão fim.

… nomeadamente a quem trabalhar com alunos para quem o Português não é a Língua Materna ou mesmo em casos em que sendo-o oficialmente depois o nível de proeficiência linguística deixa muito a desejar, aqui fica a sugestão de uma publicação que ajuda, tanto no plano teórico como no prático, a encarar o ensino do Português como Língua Não-Materna de forma menos problemática.

Tem um pózinhos de eduquês, mas nada de mais.

Pedindo ao Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, o envio é gratuito.

Afirma hoje José Manuel Fernandes no seu editorial no Público sobre a fundamentação de distribuir portagens por algumas SCUT:

O gato ficou escondido com o rabo de fora, e nos estudos há muito mais alçapões. Só é pena que o Governo julgue que todos são tolos. Não são. (…) Seria mais honesto e coerente, pois nem sempre gerir a informação consegue evitar o inevitável: que se perceba quando se está perante argumentos falacciosos e mentirosos.

Perante este tipo de análise ocorrem-me alguns pensamentos estranhos que passo a expor para apreciação colectiva:

  • a) Não me move neste blog qualquer interesse mais geral do que discutir assuntos relacionados com a Educação, pelo que este não é um fórum anti-governo ou de análise sistemtática de outros temas.
  • b) Apesar disso, é de saudar com todo o vigor o interesse colocado por órgãos de comunicação social (o Público, mas também o Jornal de Notícias) em desmontar a fundamentação “técnica” que o governo apresenta para legitimar certas opções políticas e assim encobrir a verdadeira razão porque decide como decide.
  • c) Continuo à espera de equivalente esforço na desmontagem do discurso emanado do Ministério da Educação e seus organismos ou criaturas-satélite sobre a origem dos males educativos nacionais, assim como sobre a bondade de muitas das actuais propostas.
  • d) Arrisco, sem grande probabilidade de me queimar, que se os senhores jornalistas – e os jornais para onde escrevem – com competência para isso tivessem a coragem de fazer tal exercício em torno dos “mitos” a Educação, provavelmente chegariam a conclusões similares às de José Manuel Fernandes sobre as SCUT.
  • e) Se o mundo da comunicação social fosse um verdadeiro quarto poder, onde imperasse a liberdade de investigar e opinar, não era necessário que tantos jornalistas e opinadores precisassem de criar e escrever em blogues o que, aparentemente, lhes é vedado no seu trabalho quotidiano.

A descolagem consciente da realidade pelos políticos, com intuitos mistificadores, assim como a retória da “justiça social” com base em dados técnicos “objectivos”, deveriam ser sempre objecto do escrutínio dos cidadãos e daquelas instituições que, querendo ser um poder anti-poder, têm meios para investigar e divulgar a informação de forma crítica e não meramente como instrumento fotocopiador de dossiers cordatamente aceites nas redacções (se alguém pensou naquele suplemento da Visão de há umas semanas, pensou bem… mas há muito mais por aí…)

O Rapaz Mal Desenhado e o seu Suspiro Silencioso

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