Não vale a pena perder muito tempo com polémicas estéreis com quem se apresenta como arauto(a) dos interesses p(m)aternais e os opõe aos dos professores que fazem uma greve que causa tanto transtorno. Em especial quando dizem que não estão “do outro lado” da barricada, mas firmam os pés bem juntinhos ao lado das posições do Ministério da Educação que se colocou voluntariamente contra os professores, em actos e no discurso público.

Mas ainda bem que a greve agitou as águas remansas deste atoleiro em que se está a transformar Portugal, cinzento até não se poder mais. É sinal que a função desempenhada pelos professores é socialmente relevante e a greve cumpriu o objectivo de perturbar as consciências. Muitas famílias percebem-no e, apesar dos transtornos, entendem que o actual contexto legitima e de qua maneira o recurso à greve que, como já aqui escrevi repetidamente, muitas vezes foi mal usado e a que se deve recorrer com a devida parcimónia.

Só que há quem esteja contra as greves dos professores, seja em que situação for, extrapola incómodos pessoais para teorias sociais e parece defender uma limitação do exercício da cidadania dos professores. Ahhh… e para além disso, adoptando a postura do Secretário de Estado Jorge Pedreira, parece achar que os professores também deverão ter limitações no direito à sua expressão pública e aos desabafos. O pior é que se acham no direito de destratar, por igual, toda uma classe profissional, mas depois queixam-se se as coisas forem devolvidas no mesmo tom. Quem passa por aqui sabe que me esforço, até contra alguns ímpetos mais imediatos, por manter a discussão longe da arruaça verbal, mas se há algo que irrita solenemente é quando as pessoas não percebem que quando a sua liberdade de apoucar e ofender toca na liberdade dos outros se expressarem e agirem, a fricção é inevitável e então cada um tem a sua capacidade de ir ao choque.

Eu acho que consigo encontrar legislação do Estado Novo com conteúdos similares e até já publiquei uma cópia de um documento em que se jurava fidelidade ao regime e aos bons costumes da época por parte dos candidatos a professores. Já andámos mais longe disso. Aliás, há partes do discurso e das propostas ministeriais que roçam más memórias de controle ideológico do trabalho docente.

Lamento mas os professores não são cidadãos incompletos, com direitos limitados. Tal como os médicos, os operários, os trabalhadores dos transportes, os funcionários públicos, os oficiais de justiça e tantas outras profissões que, quando em greve, provocam transtornos ao resto dos cidadãos. São as agruras da vida em comunidade, com grupos a lutarem pelos seus direitos. Mas claro que acredito que exista quem prefira uma sociedade domesticada e amorfa, de mangas de alpaca à moda antiga, acéfalos, acríticos e incapazes de esboçarem um protesto.

A menos que o protesto seja o seu, claro.

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