Confesso que fico especialmente divertido quando revejo os livros em que aprendi a ler ou a desenvolver o gosto pela leitura e literatura, desde o aspecto profundamente naif dos livros da Primária, ainda do Estado Novo, ao entusiasmo militante dos do Preparatório, completamente imbuídos do espírito revolucionário de então.

Este livro de Português do 2º ano do ciclo editado em 1976 pela Politécnica Editora é particularmente interessante neste aspecto, pois abre com o poema “O Povo” de Pablo Neruda, passando em seguida para uma secção com o título Comunidade que começa com um texto de Sidónio Muralha da revista Vértice e continua, depois de uma incursão pelo Principezinho, por autores como Júlio Conrado (excerto de O Deserto Habitado), Jacinto Martins (Carreiro de Gente) e Ribeiro Maçarico (A Terra não dá pão, Senhora Mãe). No caso deste último texto, a sugestão de trabalho assume a existência de um qualquer tipo de cooperativa na localidade dos alunos e sugere a entrevista aos associados, assim como interroga sobre a viabilidade de criação de uma cooperativa na própria escola que permitisse adquirir livros mais baratos.

Mas é a segunda secção de textos dedicada às Transformações Sociais que entra pelo campo da pura e simples epopeia com novo poema de Pablo Neruda e textos de Miguel Torga, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Alves Redol, Mário Braga, Jaime Cortesão e Luís de Sttau Monteiro, entre outros textos como notícias de jornal ou textos de publicações operárias.

Visto a 30 anos de distância o sorriso é inevitável. Na própria época tudo isto parecia natural e líamos textos de duas páginas sobre o significado histórico do 1º de Maio como agora se lêem textos de 3 ou 4 parágrafos com fábulas da Carochinha.

Não sei se o efeito (uma inculcação ideológica indisfarçável) pretendido foi alcançado ou não mas inclino-me sinceramente para a segunda hipótese. Mas sei que nos dividiu entre aqueles que aos 12 anos já tínhamos a nossa conta de neo-realismo e muito mais (já então lera da colecção de bolso da Europa América os Esteiros, os Gaibéus, a Engrenagem, o A um Deus Desconhecido, etc, etc, tudo de enfiada e sem hesitações) e daí partimos para outros voos e aqueles que ficaram para sempre bloqueados sem vontade de ler mais do que A Bola ou o jornal mais popular e sensacionalista do momento,

Mas não deixa de ser curioso como em cada momento histórico, a leitura pode ser utilizada como instrumento ideológico e como isso acaba por marcar cada geração.

Por isso, talvez não seja estranho que quem já tenha apanhado uma fase posterior a tudo isto no seu percurso escolar, com a crescente infantilização das leituras recomendadas, depois também acabe por revelar um menor interesse em qualquer tipo de leituras “adultas” mais elaboradas ou mesmo por demonstrar uma atitude mais amorfa perante o que vai sucedendo em seu redor.

Estou longe de achar que antigamente é que era bom. Apenas acho que antigamente, mesmo a preto e branco, os livros acabavam por ser mais coloridos. Contavam mais as palavras do que a bonecada em seu redor.