Sempre tive alguma dificuldade em compreender as formas de pensar que raciocinam segundo uma lógica em que, havendo situações melhores do que outras, se deve tudo nivelar e, pior, se deve nivelar pelo mínimo denominador comum.

Ainda nos tempos da Faculdade, quando só se dispensava do exame com 14, ficava sempre maravilhado com a lógica daqueles que, tendo 13, em vez de procurarem demonstrar a injustiça eventual da sua classificação e subi-la, apontavam para os que tinham 14 e 15 e desdiziam do seu desempenho, querendo puxá-los para baixo.

O mesmo se passa com a nossa sociedade e com um dos traços da nossa forma de ser portugueses. Eu sei que é um lugar-comum desancar os portugueses chamando-lhes invejosos, o que acho relativamente incorrecto, mas a verdade é que há situações em que me parece que os raciocínios são elaborados na forma inversa do que deviam.

Isto surge-me a propósito do já bem conhecido argumento – que continuo a afirmar que é erróneo na imagem e fundamentação – da pirâmide invertida que corresponderia à estrutura actual da carreira docente, com muita gente no topo em relação à que está na base. Tida como errada, tal estrutura deveria ser conduzida à sua forma correcta, com muita gente a mourejar na base e apenas alguns felizardos lá no topo, pelo que devem ser instaladas válvulas de acesso na progressão que diminuam o afluxo às melhores posições.

Não me entendam mal: eu sou tão avesso a anónimos igualitarismos como a extremos elitistas. É por essa razão que discordo de modelos sociais que promovam tanto uma completa indiferenciação, como uma rígida compartimentação.

Por isso mesmo discordo de medidas que, perante situações de disparidade ou distorção das formas correctas de hierarquização social ou profissional, usem como método a homogeneização pelo nível mais baixo ou um modelo de hierarquização que assume que a ordem natural das coisas é existirem poucos em boa situação e muitos em pior.

Eu sei que temos um país pobrezinho, coitadinho, e nem vou discutir de quem é a culpa. É de todos, pronto. Eu sei que nem todos podemos ser ricos ou mesmo medianamente abastados.

Só que também não posso aceitar o argumento de que, na sociedade e na vida profissional, tenhamos que ter o modelo da pirâmide “certa”. Até por razões da minha própria morfologia, prefiro as linhas arredondadas de uma oval ou de um círculo que considero bem mais virtuosas.

E porquê? Porque na impossibilidade de todos chegarmos lá acima, acho que a distribuição deve ser o mais equitativa possível, sacrificando o menor número, mesmo se por necessidade se criar um grupo no topo não muito alargado.

Ora no modelo proposto para a progressão na carreira docente, nem se combate verdadeiramente a pretensa pirâmide invertida, nem se procura uma distribuição equitativa que sacrifique o menor número de docentes às exigências da mesa do orçamento. Não se combate a tal pirâmide porque se são verdadeiros os números lançados para a opinião pública (40% de docentes no topo da carreira) e rigorosas as propostas (equiparação automática de quem está nesse topo a professor-titular), fica tudo na mesma durante uns bons anos, enquanto o pessoal não se vai reformando. Em contrapartida, limitam-se as aspirações dos grupos que, em movimento de ascensão, tendem a demonstrar um maior dinamismo na sua acção.

E desta forma, o “pior” do sistema mantém-se e o potencial “melhor” fica cerceado.

Mas posso ser eu que esteja a ver mal o problema e, afinal, as propriedade miraculosas da pirâmide existam por si mesmas e a ideologia medieval é que estivesse mesmo certa naquele princípio de que uns só servem mesmo para braços e pernas, enquanto só alguns é que estão habilitados a ser os olhos e outros órgãos nobres do corpo social.

Para mim isso é tão mau como sermos todos iguais.

São feitios.