Já se falou muito em stress docente e até se fizeram interessantes pesquisas que chegaram às conclusões óbvias, aquelas que infelizmente nos últimos tempos andam algo esquecidas.

Quando ouço falar ou leio algo sobre a necessidade da carreira docente obedecer às mesmas regras de outras carreiras da Função Pública (e esta não uma resposta apenas aos comentários do leitor PJ) ou de os professores terem as mesmas “obrigações” que outros profissionais, fico sempre a pensar que quem afirma isso terá uma ideia algo errónea das condições de trabalho da maior parte dos docentes.

É que, já nem falo na quantidade de alunos – pois não tenho neste momento razão de queixa, mas há quem leccione de 8 a 10 turmas, o que pode equivaler a cerca de 250 indivíduos -, o problema reside no nível de atenção e envolvimento que se exige aos docentes em relação a cada um dos seus alunos.

Enquanto advogados, enfermeiros ou médicos têm como exigência na sua formação o não se envolverem com a dimensão particular/pessoal dos seus clientes ou pacientes, aos professores exige-se que tenham sempre em atenção nas suas aulas, em todas as actividades, na avaliação e tudo o mais, as condições familiares, sociais, económicas e culturais de todos os seus alunos que, vamos lá fazer uma média simpática, andarão normalmente pela centena (4-5 turmas de 20-25 alunos).

Enquanto o funcionário típico normal despacha os seus assuntos e vai para casa, atende um utente e com sorte não o verá de novo ou só enquanto determinado processo demorar a resolver, os professores têm os seus alunos quase todos os dias da semana – no mínimo dois ou três – e lá têm eles de processar toda a informação: “aquele tem o pai ausente no estrangeiro e a mãe doente”, “aquela vive com a avó e 4 irmãos em 2 asoalhadas com uma pensão de sobrevivência“, “este aqui é disléxico”, “esta tem um irmão toxicodependente e a família foi despejada da sua casa”, “estes dois nem pequeno almoço tomam de manhã“.

E nem sequer estou a entrar nos problemas mais complicados que é necessário resolver.

Claro que há quem pense que todas as escolas são microcosmos isolados da realidade social de profunda crise e desigualdade económica em que vivemos; a Escola é o enorme oásis onde tudo se esquece, as diferenças desaparecem e os problemas se esbatem.

Sim, até é verdade. Mas quantas vezes à custa do envolvimento emocional de docentes que ao fim do dia estão esgotados exactamente por todo o envolvimento e atenção individualizada que se lhes exige.

Essa é a sua função, tal como a do médico lidar com a vida e a morte e a do polícia poder ser obrigado a lidar a cada momento com o perigo conforme a sua zona?

Pois é. Mas não me digam que um técnico superior sentado num gabinete de uma autarquia a organizar eventos culturais ou de uma repartição ministerial a analisar processos (que deviam ser para si) anónimos tem o mesmo tipo de desgaste e que por isso todos temos de estar 35 horas a trabalhar como se tudo fosse igual.

Lamento, mas não é verdade. Se não nego que muitos técnicos superiores e assesores vivem os seus dramas profissionais, não me venham é dizer que, enquanto grupo profissional, têm o mesmo desgaste emocional do que os docentes.

Isso só pode ser mero desconhecimento. Eu até passei muito do meu tempo nestes últimos 15-20 anos a fazer investigação em diferentes departamentos do Estado Central (do próprio ME à Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Ajuda, muitos e variados etc’s) por isso sei bem o que vi e a intensidade de muitas funções. Houve momentos mesmo que me senti em pleno Matrix, no papel do Neo (mas com mais peso e cabelo e óculos menos cool) olhando em redor como se tudo decorresse em câmara lenta.