Quarta-feira, 27 de Setembro, 2006


Não são escritos novos, mas ajudam sempre a desempoeirar as meninges e estimulam as sinapses por caminhos novos ou meio esquecidos.

E principalmente ensinam que a clareza e a simplicidade não são antónimos de rigor, antes pelo contrário.

Desde os meus primeiros tempos como prof. que descobri que, em boa verdade, em matéria de trabalho docente o que me interessa é mesmo dar aulas.

Se quisesse ser burocrata e sentar-me com uma revoada de papéis em meu redor e a necessidade de um rabisco ou carimbo para cada “acto administrativo”, certamente que teria estendido a minha fugaz e já distante experiência de 15 meses como técnico superior.

O tédio, por todas as alminhas, o tédio em que andam a transformar tudo o que é feito numa Escola. Ao pé do que anda por aí, O Domínio dos Deuses é uma caricatura demasiado benévola e aquilo por que passa o Astérix uma mera iniciação de nível 1 em 10 do que se tornou o labirinto escolar.

Não há nada com tanta aparência de eficácia e rigor como os números quando se pretende comprovar uma argumentação, um raciocínio sobre a realidade, uma política que se pretende ser a mais justa e correcta. Daí o constante recurso aos números e às estatísticas como armas de arremesso contra os docentes quando se trata de substanciar o que se querem fazer passar por evidências. Já vi a Ministra atirar gráficos para uma mesa durante uma entrevista, sem que ninguém os colocasse em causa ou sequer lhe pegasse, assim como desde o início que aqueles gráficos marotos no suplemento da Visão me deixaram algo perplexo perante aquilo que julgava saber sobre a evolução do nosso sistema educativo.

Manipulação voluntária ou falta de jeito para a construção de séries estatísticas, algo não batia certo quando olhava para aquelas linhas e as achava erradas.

Perante isso nada como ir às fontes da informação e então, encarando a coisa como um investimento paralelo ao meu actual trabalho em história da Educação, lá encomendei os dados oficiais do GIASE sobre as séries cronológicas para docentes e alunos relativos ao período de 1985-2005.

E o que se constata? Constata-se que alguém andou a fazer as somas erradas ou então que andou a usar incorrectamente os dados ou a “colar” séries de dados com origens ou critérios diferentes.

Se o que está em julgamento é o sistema público de ensino básico e secundário, os números disponíveis estão longe, muito longe, de demonstar uma evolução acentuadamente divergente entre docentes em exercício e alunos matriculados nas últimas décadas e muito em particular na última década.

De acordo com os volumes publicados pelo GIASE com os dados que suponho oficiais, em 1997/98 existiam no sistema público de Ensino Báico e Secundário, 1.448.817 alunos e 141.930 docentes em exercício. Em 2005/06 os números foram de, respectivamente 1.236.854 e 141.301. Para 1991/92, apontam-se como “não disponíveis” os dados para o número de docentes, apenas apresentando o total em gráfico para ensino público e privado.

Ora de acordo com os valores referidos a uma quebra de perto de 15% nos alunos, correspondeu um ligeiro decréscimo no número de docentes. Isto está longe, como já escrevi, do retrato que tem sido dado sobre a relação entre alunos e professores, nomeadamente o famoso ratio de 10 para 1, que também ele resulta de uma apresentação falaciosa dos dados.

É óbvio, e só não percebe isso quem não quer, que se uma turma de 25 alunos tiver 8 docentes, até podemos afirmar que existe um professor por cada 3 alunos, se optarmos por ser desonestos na análise.

Claro que cada docente tem mais de uma turma. Não podemos fazer uma transposição deste tipo, há tantos alunos, há tantos professores, divide-se e pronto está tudo explicado! Não, está explicada apenas uma parte da questão.

E outro aspecto perfeitamente anedótico é o de inflaccionar o número de docentes que não leccionam e contribuem para estes números, incluindo nessa situação toda a gente, nomeadamente quem ocupa órgãos de gestão e nem sequer lecciona ou lecciona muito poucas horas.

Para não falar – como acontece no concelho onde lecciono – em casos de criação de Escolas Profissionais com o apoio do próprio Estado (Central e Local) que vão colher os seus alunos à rede pública regular e deixam docentes com horários zero, enquanto nessas escolas leccionam não se sabe bem quem e com que critérios.  Mas desses casos ninguém parece lembrar-se ou estar interessado em que alguém se lembre. Enfim…

Mas os números são atirados como pedras e muita gente encolhe-se em vez de tentar perceber se o pedregulho é tão atemorizador como parece.

É verdade que a evolução demográfica faz com cada vez existam menos alunos no sistema de ensino, assim como a má orientação das políticas educativas tem feito com que muitos outros fujam para instituições privadas. Mas isso não é culpa dos docentes que, pelos vistos, não se têm multiplicado ao ritmo de coelhos com o cio.

É que usando correctamente os dados disponíveis é muito mais interessante argumentar e só assim é possível não ficarmos com a sensação de se estar a tentar enganar o parceiro ou deixá-lo ficar mal visto perante terceiros.

O passo seguinte é tentar perceber se as comparações com os dados internacionais são o que nos querem fazer parecer, ou se também andará por aqui qualquer lente desfocada ou máquina de calcular com falta de pilhas.