Cumpri ao findar o dia de hoje 28 horas de componente lectiva e 37 no total de horário que sou obrigado a permanecer na Escola e que incluem as famigeradas OTE’s, horas de Apoio Pedagógico Acrescido e mais uns pózinhos. Vou no 6º dia de aulas.

Há 3 anos atrás, neste mesmo dia teria cumprido as mesmas 28 de componente lectiva, que seriam o total de horas de obrigatoriedade de permanência na Escola.

Graças ao congelamento da progressão na carreira, encontro-me tal como então no 7º escalão e ganho, com um ligeiramento ajustamento de 2% anuais, mais cêntimo, menos cêntimo, praticamente o mesmo. Isto significa, na prática, que pelo mesmo dinheiro passei a permanecer mais 30% de tempo no local de trabalho. Ou seja, o Estado desvalorizou nos referidos 30% o valor do meu trabalho, pois paga o mesmo por mais. Eu acho que o Marx explicava bem este fenómeno, mas também acredito que a nossa Ministra da Educação ainda se lembre dessas leituras, mesmo que as tenha oportunamente renegado em nome das novas tendências sociológicas.

Dizem os defensores da política ministerial que assim é que é, pois os professores ficavam pouco tempo na Escola e estavam a ser muito bem pagos e que a obrigação formal é de um horário semanal de 35 horas como os restantes funcionários públicos, nomeadamente os da carreira técnica superior, seus teóricos equiparados.

A isso eu respondo com a recordação de alguns detalhes que andarão a escapar às memórias mais frágeis ou que talvez só a alguns espíritos cansados acorrerão:

     a) A história das 35 horas semanais é um mito, nascido de uma conjuntura negocial que parece não ter deixado quem dela se recorde. Como por esses tempos eu até saltitei entre a docência e a carreira técnica lembro-me bem do que se passou e como o horário de 22 horas lectivas dos docentes, para além da especificidade da função, ter resultado da não equiparação salarial entre a carreira docente e a carreira técnica superior. Isto ainda hoje é fácil de comprovar, comparando o salário de um técnico superior de 2º classe em início de carreira e o salário de um docente, já não digo no 1º escalão, mas no 3º que equivale ao início do percurso de um licenciado.

     b) Não gosto de fazer valer a minha posição denegrindo a dos outros, mas a verdade é que eu não posso colocar o casaco nas costas da cadeira e deixá-lo a dar aula enquanto vou tomar o sacramental cafézinho. Para além de que, quando o Ministério reduziu em 5 minutos as horas lectivas há uns anos – sem que para isso os docentes tenham dado qualquer parecer – obrigou a que todos esses minutos fossem contabilizados e repostos em 2 horas de trabalho suplementar no total semanal (que tinham designações variadas como os TOA’s, tempos para outras actividades). Se é para falarmos em mesquinhez, podemos ficar por aqui.

     c) Aparentemente, os docentes são aquelas pessoas que não querem ocupar o tempo em que os seus alunos não têm família disponível em casa para cuidar deles, pois toda a gente está a trabalhar, em virtude dos novos modos de vida. Ou seja, a Escola tornou-se um depósito de crianças e jovens, que nela devem encontrar não apenas instrução mas toda uma variedade de formas de ocupar o tempo de que a família não dispõe para sua socialização á moda antiga. Até compreendo isso. Só não compreendo é porque ninguém parece lembrar-se que o(a)s docentes também são pais e mães que, pelos vistos ao contrário do resto da população, preferem estar com os seus filhos e filhas, em vez de os deixar a cargo de outros. Pois, para os professores guardarem os filhos alheios até que as respectivas famílias os posssam acolher, como conseguirão acarinhar devidamente os seus? É que em vez de se reclamarem condições sociais mais progressivas, que libertem tempo às famílias para conviverem, o que se faz é exactamente o contrário. Eu hoje passei 4 horas com os alunos de uma turma e 3 com os de outra (4 com os que vão dispor de APA), o que é tanto ou mais do que passei com a minha própria filha acordada e do que eles passarão com os seus próprios familiares. Será esta a solução certa? Será este o modelo social correcto? Não me parece, mas também me ocorre que serei eu a ver mal todas estas questões.

     d) Por fim, gostaria de realçar que toda a investida retórica contra os docentes e o seu aparente mau desempenho na opinião do Ministério é uma estratégia errada pois, para além das concessões materiais exigidas e à redução de direitos adquiridos de forma arbitrária, pretende-se a adesão de uma classe a políticas que não reservam qualquer espaço para o reconhecimento público da sua actividade, antes apostando em rebaixá-la perante o público. Claro que a curto prazo podem obter-se alguns resultados, mas a médio prazo, e apesar do tradicional acomodamento nacional ás adversidades, a insatisfação acabará por grassar e por dar origem a diversas formas de resistência passiva ao que é sentido como uma injustiça.

Mas, infelizmente, os políticos que temos já só têm capacidade de trabalhar numa perspectiva de curto prazo, perdendo completamente uma visão estratégia de longo alcance. Aliás, foi assim que chegámos ao ponto a que chegámos, de reforma em reforma, de remendo em remendo, de inovação em inovação. Ou acham que são mesmo os professores os verdadeiros causadores do abandono e do insucesso escolar e não uma superestrutura ministerial permanentemente entretida em inflectir o rumo e em experimentar em cima da experiência e em enxertar em cima do enxerto, para não falar de uma sociedade incapaz de se organizar de modo a produzir e distribuir a riqueza de uma forma equitativa e justa, assim criando condições para uma efectiva melhoria das condições de vida e, como consequência natural, um melhor desempenho escolar das crianças?

É que é ridículo ver evocar o exemplo de países que, já não falo no facto de terem ética e um sentido cívico assente na responsabilidade individual e na crença no esforço e rigor como base do sucesso, atingiram patamares de literacia e alfabetização a rondar os 100% há mais de um século e em vários casos de forma independente do aparelho de ensino estatal, como no caso da Escandinávia.

Como é que querem que consigamos em meia dúzia de anos recuperar um século de atraso? Andamos todos numa de aceleração da História à la Trotsky? Eu sei que na actual equipa ministerial houve devaneios passados por paragens (próximas) dessas, mas não fizeram já todo(a)s o devido acto de contrição e voltaram ao bom caminho do Centrão?

E que tal se percebessem que, de acordo com o dito popular, Roma e Pavia não se fizeram num dia, mesmo recorrendo a trabalho escravo?