Domingo, 24 de Setembro, 2006


Não, não é o imposto a Cuba, é outro bem mais eficaz e implacável.

É, por um dos lados, o controlo que o actual executivo exerce sobre a divulgação de informação para a comunicação social e o público e, por outro, a situação de evidente asfixia em que vive a opinião publicada alternativa em Portugal nos meios de comunicação social convencionais.

No primeiro caso, temos as repetidas queixas feitas quanto à forma como o Ministério da Educação divulga selectivamente a sua informação. Esta semana um dos editores do Diário de Notícias queixava-se amargamente de querer fazer uma matéria sobre o encerramento de Escolas e de não receber os elementos desejados, enquanto esses dados eram facultados nesse dia em exclusivo ao Público. Entretanto com a Visão, e de um modo geral com algumas publicações do seu grupo, os canais de comunicação parecem bem oleados.

Ainda por estes dias de fim de semana, numa matéria redundante, o semanário Sol dava a conhecer o núcleo duro do Governo socialista em termos de planeamento de agenda política e divulgação de informação, apenas confirmando o que há muito se sabe sobre isso, ou seja, que é um grupo muito restrito de elementos que têm a capacidade e poder para intervir na política comunicacional do Governo e do próprio PS, passando a autorização para tudo o que é essencial por essas pessoas, no que se inclui as agenda de entrevistas e declarações dos restantes Ministros e Secretários de Estado, que não podem pisar o chamado risco, sob pena de serem desautorizados em dois tempos.

Isto passa-se num momento em que ainda se apertam mais as malhas da opinião publicada em Portugal, dominanda há décadas pelos mesmos nomes e pelos mesmos círculos de opinião, com as posições que se reconhecem à légua, bastando quase só ler o nome do articulista e um ou dois destaques em letra mais gorda. Os nomes novos, que certamente os há, surgem porém quase sempre na esfera do já existente, tomando lugar na linha de trincheira da facção que os promoveu até à frente de batalha; em alguns casos o recrutamento até foi feito nos blogues, só que quase sempre em espaços com alinhamentos políticos claros e que, ao chegarem, ao papel impresso, instantaneamente perdem quase toda a espontaneidade, mantendo apenas os tiques que facilitam o reconhecimento (estou a lembrar-me do caso dos siameses Daniel Oliveira e João pereira Coutinho no ExpressoOs antigos já estão transformados em instituições, mesmo os que são profissionais do “contra” ou de um permanente enfado existencial (Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, António Barreto) e têm uma reputação e estatuto a manter.

Se esta é a sensação que se tem olhando de fora, e que é confirmada pelo trabalho académico que ilustra este post, ainda mais se torna espessa a sensação de sufoco comunicacional quando se contacta directamente com algumas pessoas do meio. Há poucos dias contactei velhas amizades que se transferiram para a comunicação social há muito, abandonando a História e outras Ciências meio caídas em desgraça e ainda mais a docência. O objectivo era tão só e apenas aferir da possibilidade de, em vez de reproduzirem o papagueamento habitual em torno da Educação ou servirem de mera caixa de ressonância dos discursos pré-definidos e apuradamente enroupados para distribuição e consumo, darem mais atenção a outras opiniões, olharem de forma diferente para os problemas educativos, quiçá em última instância haver espaço para o verdadeiro desalinhamento, aquele que não actua em função de interesses corporativos instalados (sindicatos, partidos, associações profissionais) e que ouisa contestar o Poder, mas sem querer sê-lo em alternativa.

A resposta é sempre a mesma: isto anda mal, não se sabe com o que contar, não há margem para risco, é melhor procurar outros que…

Outros que, em boa verdade, não existem neste momento nos meios convencionais de divulgação de informação e opinião.

Valha-nos pois a liberdade que ainda impera na blogosfera e que, por depender apenas da vontade, capacidade e bom senso de cada um, é uma das raras escápulas para sentirmos que ainda é possível fazer chegar oxigénio não engarrafado e formatado aos neurónios.

Paulo Guinote

Voltando ao suplemento oficioso do Ministério da Educação na Visão de 5ª feira e muito em particular ao press-release ministerial assinado por Paulo Chitas, houve desde o início um detalhe estatístico-visual que me deixou curioso.

Logo na p. 10 existe um gráfico de escala dupla onde se compara a evolução entre o número de docentes e alunos nos últimos 15 anos, apesar da diferença de nºs absolutos. Esta forma de apresentar os dados é atractiva pois, apesar da diferença nos números, permite comparar as respectivas evoluções. É claro que as duas escalas devem ser proporcionais para tudo correr bem e não se distorcer demasiado a leitura.

Em boa verdade o melhor método teria sido reduzir a índices os valores dando o valor 100 ao início ou à média da série e fazer um gráfico de escala única, mas este método também é admissível.

O meu problema foi quando reparei que as escalas não eram exactamente proporcionais, pois a base de uma escala (dos docentes) tem um valor equivalente a 62,5% do topo, enquanto na outra (dos alunos) esse valor é de 70%. Note-se que do lado esquerdo de quem observa os números da escala são pouco “naturais” se a ideia era equivaler o valor de 2.000.000 de um lado com o de 200.000 do outro; o normal seria que na base encontrássemos valores equivalentes (1.250.000 e 125.000 por exemplo), o que não é o caso. Na prática, isto significa que existe alguma distorção na relação entre as linhas.

Ora o que acontece se inserirmos os dados numa tabela em Excel, sem grandes sofisticações, mas apenas respeitando a proporcionalidade das duas escalas? Não é propriamente uma coisa extraordinariamente diferente, mas apenas subtilmente menos “agressiva”, pois as linhas em vez de acentuarem a sua divergência, parecem convergir.

O que podia dar a ideia errada, como é claro. E depois era chato, compreendo. E estragava um bocadinho o efeito pretendido.

Mas volto a recomendar o uso de índices com base no início ou na média da série. Dá um pouco mais de trabalho, mas é mais correcto e até podia ser que não fosse visualmente incómodo para a mensagem que o autor da peça quis transmitir desde a primeira linha.

Mas acredito que possa não ter ocorrido este tipo de subtileza no tratamento estatístico da informação disponível. É que malta como eu. formada em História, é conhecida por ter vastos conhecimentos nesta área, ao contrário da generalidade da população e dos jornalistas. Afinal, fizemos Matemática até ao 9º ano.

Paulo Guinote