Como estou mesmo assim como que farto de ler matérias na imprensa que se distinguem pela ignorância ou má-fé dos autores, vou continuar a abanar a peça de Paulo Chitas no suplemento oficioso do Ministério da Educação publicado hoje pela Visão, de que sou assinante desde o primeiro número, publicação da Edimpresa que alberga ainda outras publicações muito sensíveis ao discurso ministerial feito de forma calma e sem um mínimo de contraditório incómodo.

Escreve então Paulo Chitas em lead da sua peça que no topo da carreira os docentes portugueses ganham tão bem como os seus pares europeus, embora passem pouco tempo na Escola.

Só é realmente pena que os dados que apresenta desmintam isso mesmo, pois no quadro estatístico incluído na página 13, verifica-se que numa amostra de 9 países – de onde estão ausentes algumas das nações com maior poder de compra da Europa (Luxemburgo, Suécia, etc) – Portugal se encontra em 5º lugar, atrás da Suiça, da Alemanha, da Espanha e da Irlanda, sendo que estes dois últimos países são do “nosso campeonato”. Estamos á frente da Polónia e da Grécia, é certo, mas não podemos ser os coitadinhos em tudo.

Mas há pior, pois após 15 anos de actividade (estou pessoalmente um pouco mais adiante), os docentes portugueses são os 3ºs pior pagos da amostra, ganhando pouco mais de metade de um professor alemão ou suiço e menos de 75% de um espanhol ou irlandês. A Paulo Chitas escapou-lhe este detalhe que afecta uma larga fatia de docentes, etariamente na casa dos trinta e tais, quarenta e poucos anos e que com o novo sistema ficarão do lado de cá da partição da carreira docente. Classe média com base em professores? Que anátema, atirem-nos lá para aquela envergonhada proletarização de que se falava no Estado Novo para as professoras primárias, pois agora já parece ter muito melhor aspecto.

Por fim, realmente no início da carreira os portugueses são os 2ºs pior pagos, mas Paulo Chitas usa os valores da OCDE que fazem o cálculo sobre o 1º escalão da carreira que é o dos professores que não possuem uma licenciatura e, em alguns casos, nem sequer frequentaram o Ensino Superior o que em outros países nem sequer é permitido. Mas isso concedo que seja mesmo desconhecimento da realidade,

Ou seja, e se tomarmos em atenção que é usada a paridade do poder de compra dos países, o melhor que os docentes nacionais conseguem é um lugar perfeitamente mediano no topo da carreira – o 5º – na amostra de 9 países seleccionados.

Os dados não justificam pois o alarde dado nas comparações apressada e engajadas aos rendimentos desmesurados dos docentes portugueses.

Mas desde quando a fidelidade aos factos deve impedir uma boa história, em especial se ela tem o aval dos poderes instituídos?

Paulo Guinote