Quinta-feira, 21 de Setembro, 2006


Como estou mesmo assim como que farto de ler matérias na imprensa que se distinguem pela ignorância ou má-fé dos autores, vou continuar a abanar a peça de Paulo Chitas no suplemento oficioso do Ministério da Educação publicado hoje pela Visão, de que sou assinante desde o primeiro número, publicação da Edimpresa que alberga ainda outras publicações muito sensíveis ao discurso ministerial feito de forma calma e sem um mínimo de contraditório incómodo.

Escreve então Paulo Chitas em lead da sua peça que no topo da carreira os docentes portugueses ganham tão bem como os seus pares europeus, embora passem pouco tempo na Escola.

Só é realmente pena que os dados que apresenta desmintam isso mesmo, pois no quadro estatístico incluído na página 13, verifica-se que numa amostra de 9 países – de onde estão ausentes algumas das nações com maior poder de compra da Europa (Luxemburgo, Suécia, etc) – Portugal se encontra em 5º lugar, atrás da Suiça, da Alemanha, da Espanha e da Irlanda, sendo que estes dois últimos países são do “nosso campeonato”. Estamos á frente da Polónia e da Grécia, é certo, mas não podemos ser os coitadinhos em tudo.

Mas há pior, pois após 15 anos de actividade (estou pessoalmente um pouco mais adiante), os docentes portugueses são os 3ºs pior pagos da amostra, ganhando pouco mais de metade de um professor alemão ou suiço e menos de 75% de um espanhol ou irlandês. A Paulo Chitas escapou-lhe este detalhe que afecta uma larga fatia de docentes, etariamente na casa dos trinta e tais, quarenta e poucos anos e que com o novo sistema ficarão do lado de cá da partição da carreira docente. Classe média com base em professores? Que anátema, atirem-nos lá para aquela envergonhada proletarização de que se falava no Estado Novo para as professoras primárias, pois agora já parece ter muito melhor aspecto.

Por fim, realmente no início da carreira os portugueses são os 2ºs pior pagos, mas Paulo Chitas usa os valores da OCDE que fazem o cálculo sobre o 1º escalão da carreira que é o dos professores que não possuem uma licenciatura e, em alguns casos, nem sequer frequentaram o Ensino Superior o que em outros países nem sequer é permitido. Mas isso concedo que seja mesmo desconhecimento da realidade,

Ou seja, e se tomarmos em atenção que é usada a paridade do poder de compra dos países, o melhor que os docentes nacionais conseguem é um lugar perfeitamente mediano no topo da carreira – o 5º – na amostra de 9 países seleccionados.

Os dados não justificam pois o alarde dado nas comparações apressada e engajadas aos rendimentos desmesurados dos docentes portugueses.

Mas desde quando a fidelidade aos factos deve impedir uma boa história, em especial se ela tem o aval dos poderes instituídos?

Paulo Guinote

É sempre interessante ver quando os jornalistas abraçam uma causa e investem contra aquilo ou aqueles que consideram ser a origem dos males que afligem este mundo. Podem ser os comerciantes de armas, podem ser os responsáveis pela poluição e o buraco do ozono, podem ser os traficantes de órgãos humanos, podem ser os narcotraficantes, podem ser os pedófilos ou, talvez os piores e mais malévolos, os docentes.

Paulo Chitas, jornalista da Visão entra nesta categoria de jornalista que luta por uma causa justa que é desmascarar o estatuto de privilégio da corja de sanguessugas que são o(a)s professore(a)s.

Num parágrafo demolidor ele desmascara toda uma conspiração para docentes incompetentes chegarem ao topo da carreira. Não fosse o cheiro a papel químico, diríamos estar perante um texto profundamente original e uma reflexão até ao momento nunca feita, nem sequer repetida por 3156 vezes nos últimos meses pela propaganda ministerial.

Diz então o jornalista/articulista/analista opinador:

a) O sistema de progressão actual na carreira é aberrante e injusto, pois os professores são avaliados pelos pares e chegam a frequentar acções de formação de culinária.

b) Os professores mais antigos encarregam os mais novos de tarefas mais difíceis como leccionar turmas problemáticas e a ministra decidiu mexer neste sistema iníquo e agora os pais são solicitados a participar na avaliação dos malignos docentes.

O único problema é que como qualquer debitador de um discurso alheio – e nisso parece um decalque de Maria de Lurdes Rodrigues – o jornalista Chitas parece não reflectir sobre os seguintes pontos:

a) O sistema que está criado foi erguido pelo Ministério da Educação que até ao momento sempre creditou as acções de formação que Chitas descobriu serem aberrantes, pagando mesmo a formadores credenciados por quem? Pelo próprio Ministério, é claro, sendo que muitos dos técnicos do Ministério surgem como formadores pagos pelo PRODEP nessas acções. Para além disso, Chitas parece não ter percebido que, no essencial, a avaliação  continua a ser feita pelos pares, mantendo-se a a obrigatoriedade de frequentar acções de formação e elaborar relatórios. Como não leu o documento sobre o qual escreve, mas o resumo que lhe forneceram, o justiceiro Chitas descompreende um pouco de tudo.

b) Com o novo sistema proposto, os privilégios dos professores mais velhos – que para Chitas então se transmutam em “mais experientes” – ganham ainda um maior poder sobre os “mais novos” ou “mais inexperientes”, pois passarão a controlar a sua avaliação e mesmo a ter o poder de vigiar as suas aulas, não falando ainda na exclusividade do exercício de todos os cargos de relevo na escola, o que significará que ninguém com menos de 40-45 anos é considerado competente para desempenhar qualquer função de responsabilidade. Eu estou à vontade, porque já entro neste lote e não serei dos mais sacrificados, só que me repugna profundamente quando alguém investe cegamente sobre algo que desconhece.

Quanto à avaliação pelos encarregados de educação, digo e mais do que repito, é problema lateral e apenas funciona como os McGuffins nas histórias do Hitchcock – só lá está para distrair as atenções do verdadeiro culpado.

Mas isso eu acho, com sinceridade, que o jornalista de causas Paulo Chitas saberá perfeitamente.

Paulo Guinote

Saiu hoje em conjunto com a Visão. Destacam-se particularmente as páginas a cargo do jornalista Paulo Chitas que consegue o feito de ofender repetidamente os professores e apresentar ilações ou conclusões que não batem certo com os próprios números incluídos nas peças, isto para não falar em algumas mistificações estatísticas, em que se “retocam” certas escalas para darem uma sensação mais evidente da mensagem que se quer transmitir ao povinho e demonstrar como a Ministra é boa e os sacanas dos docentes uns endinheirados preguiçosos.

Frases que se destacam: “Muitos que trabalham pouco“, “Qualquer solução será dolorosa – mas evidentemente necessária” (reparam como um trabalho “jornalístico” toma posição sobre o assunto logo no título e induz a ideia de que qualquer solução será boa e necessária?) e “Os professores com horário zero, no final de 2002, estimava-se custarem cerca de 300 milhões de euros anuais. Então, eram 10 mil; actualmente, existirão aoinda cerda de 4500 professores sem turmas, a quem o Estado continua a pagar o ordenado”.

O que o jornalista Paulo Chitas, no grau zero da investigação parece ignorar, é que muitos desse docentes vivem situações pessoais gravíssimas, como doenças oncológicas, depressões ou consequências de acidentes que certamente não desejaram e que, em muitos casos, foram causadas pelo quotidiano docente.

Mas aparentemente Paulo Chitas, deve achar que, à boa velha moda do eugenismo oitocentista e de outro que prefiro não nomear, esses parasitas devem ser eliminados do aparelho do Estado, pois só estão a causar embaraços ao Orçamento.

Parabéns caro “jornalista” Paulo Chitas, exerceu o seu mister de forma tão objectiva e isenta que certamente não terá problemas em progredir na carreira. Graças a isso, logo que volte de uma tarde repleta de aulas, após uma manhã semi-repleta das mesmas que na sua opinião não existem – pois estes profs não fazem nenhum – irei demonstrar como manipulou as estatísticas que apresenta, citando-as de forma deturpada ou adulterando a forma gráfica da sua apresentação.

Paulo Guinote