Terça-feira, 19 de Setembro, 2006


 

«Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas sem obter, ao mesmo tempo, um proveito para si, ou obtendo mesmo um prejuízo.» (p. 66)

É em virtude da demonstração científica desta terceira lei (de ouro) da estupidez humana, que eu acredito que nada do que anda a acontecer é causado por estupidez, muito pelo contrário.

Eu bem queria iniciar a minha Antologia Crítica e Aleatória do Discurso sobre Educação, mas não vai dar por enquanto. E é uma pena porque há uma certa crónica da Maria Filomena Mónica que gostava de confrontar com os seus escritos de outrora.

Por outro lado, acho que vou tentar perceber se toda esta investida sobre a carreira docente se deverá ao facto de certos sociólogos da educação (com a colaboração de outros cientistas sociais e da educação) considerarem que, devido à sua maior feminização, a docência não passa de um estatuto de “semi-profissão”, sendo assim mais vulnerável e controlável pelo Estado-patrão. Como este é um assunto sobre o qual até li e escrevi recentemente por questões de trabalho, torna-se-me bem mais fácil espraiar-me com um mínimo de fundamento, ao contrário de certas sociólogas mais ocupadas em estudar a classe dos engenheiros.

E para além disso, é uma abordagem que me permite estabelecer alguns paralelismos interessantes entre o que certos autores escreveram sobre a política educativa do Estado Novo e o controle que procurou exercer sobre a profissão docente e aquilo que agora nos servem a escaldar em bandeja amolgada, com uma caução teórica e ideológica muito duvidosa.

Paulo Guinote

Ontem, no recôndito final do Prós e Contras, o sindicalista António Avelãs sacou do seu exemplo quanto ao novo regime de progressão na carreira, no que se relaciona com o seu bloqueio como resultado da não leccionação de um número superior a 3% das aulas previstas. Dizia ele que, atendendo às 250 aulas que tinha dado, bastavam três dias de faltas para, no caso desta proposta de Estatuto, se ver impedido de obter uma classificação que viabilizasse a progressão. A Ministra esbracejou que estavam sempre a usar caricaturas contra as suas medidas.

Mas a verdade é que a situação é que é toda caricata.

Senão vejamos um exemplo menos feliz, o meu, que me está aqui mais próximo. De acordo com a planificação anual eu fui contemplado com um total de 709 aulas previstas. É verdade, exactamente 709, número que como verão acaba por me ser bastante útil, preferindo-o bastante ao de 699, por exemplo.

Porquê? Porque com 709 aulas previstas, de acordo com as regras propostas para o condicionamento da progressão na carreira, eu poderei faltar a 21 aulas sem danos, enquanto que se fossem 699 as previstas só poderia faltar a 20 aulas.

Mas nem isso me deixa muito feliz pois, atendendo bem ao meu horário, reparei que só no início da semana acumulo (sem contar uma hora de Apoio e outras penduriquices) 13 horas lectivas de aulas. O que significa que se tiver o azar peregrino de adoecer durante o fim de semana (depois de meia vida sem gastro-enterites, agora herdo todas as da minha filha, em versão agravada) e faltar uma segunda e uma terça-feira, fico praticamente logo no vermelho.

Se no segundo período faltar num dos outros dias da semana em que tenho apenas quatro tempos lectivos, fico logo nos limites críticos. Até final do ano não me pode acontecer nada. Se um desvairado me abalroar a caminho da escola e me estoirar com o carro, fico arumado pois não existem transportes entre a minha zona de residência e a zona da escola a que pertenço ao quadro. Se alguém na minha família adoecer com gravidade ou falecer mesmo, não poderei prestar-lhe quanquer tipod e assistência ou ir ao funeral, porque imediatamente ultrapassarei os 3% de faltas admissíveis. Se alguém me indicar como testemunha num julgamento – como aconteceu recentemente – ou não compareço incorrendo em coima, ou a minha carreira estagna um ano.

Haverá caricatura maior do que esta?

Pensará alguém que estou a exagerar? Não, não estou. Infelizmente as coisas são mesmo assim e estão lá escritas (nº 6 do artigo 46º). Deve realçar-se com especial estupefacção o facto de nos 3% de faltas se incluírem todo o tipo de faltas pois, em caso de doença prolocgada ou mesmo de maternidade, a avaliação do docente é congelada nesse ano e apenas retomada no ano lectivo seguinte.

Por isso, caras e caros colegas, vá de comer uns belos caldos de galinha não vá um resfriado malandro deixá-lo(a)s acamado(a)s.

Estúpido eu que desde 1987 apresentei apenas dois atestados médicos, um dos quais não cumpri até ao fim, não tendo chegado a gozar todos os dias a que tinha direito por efeitos de paternidade, para poder proceder à avaliação atempada de uma turma de Currículos Alternativos. Entretanto, fica por saber ou talvez nem por isso, se as futuras ausências dos elementos dos Conselhos Executivos que ontem tão bem acolitaram a Ministra no seu desfile televisivo terão algumas consequências, pois como não estão obrigados a prestar serviço docente, não correm nenhum risco.

Pois.

Paulo Guinote

… a Ministra teria acabado ontem a sua carreira política a cinco minutos do final da sua participação televisiva.

Após um “debate” que lhe correu muito macio, foi preciso apenas um Avelãs algo nervoso, mas ligeiramente fora do registo da cassete para a deixar transfigurada e a raiar a estridência e o absoluto descontrolo emocional, perdendo-se na exposição visivelmente decorada dos quatro vectores ou pilares que ela diz estarem na proposta de revisão do ECD, no qual o essencial é claramente inegociável, como já se sabia ou adivinhava.

Quando Avelãs apresenta o exemplo do professor que falta três dias por causa de uma reunião no Ministério, de uma doença súbita e de um acidente de automóvel a caminho da Escola, assim perdendo a possibilidade de ter uma classificação passível de lhe permitir progressão, Maria de Lurdes Rodrigues responde que nada disso interessa e que o compromisso dos docentes é dar aulas aos alunos, o que por uma vez causou um bruáá na assistência.

Deduz-se, pois, que esse compromisso suplanta a própria saúde e/ou vida, porque nem um acidente de automóvel deve travar a cavalgada heróica do(a) professor(a) a caminho da sua Escola.

Para quem se queixa de a caricaturarem e às suas posições, ela até que consegue fazer sozinha um bom trabalho.

Mas a maioria ainda está semi-fresca. Estes deslizes ainda passam impunes e quase aposto que poucos se vão lembrar da atitude de desrespeito da Ministra.

Sibilino o comentário final de José Manuel Canavarro a lembrar que desde 1991 que trabalha na área da Educação e na formação de professores e que em 2006 ainda o faz e que no futuro o continuará a fazer.

Patético o desempenho dos Presidentes dos Conselhos Executivos presentes, em especial daquele a quem eu chamaria o engomadinho, mais preocupado em mostrar-se incondicionalmente ao lado da tutela e em mostrar que a década que já leva à frente da sua escola tem sido um período dourado, do que em transmitir qualquer ideia vagamente reconhecível sobre a opinião e sentimento dos professores sobre o que se passa. Como bom executor acrítico das ordens de cima, limitando-se a dizer que, na prátiva, os professores devem ser profissionais e fazerem o seu trabalho no matter what. Eu dizia-lhe umas coisitas ao ouvido no regresso ao seu feudozinho.

Se aquilo é um representante dos professores – daqui a um ano com cargo vitalício, desde que o queira – prefiro não estar representado em lado nenhum.

Paulo Guinote