Segunda-feira, 18 de Setembro, 2006


Se isto é um debate, eu vou ali e já venho de volta. Acabou a primeira parte do Prós e Contras e, pelo que vi, todos os que estão no alto do palanque estão felizes e contentes, ou porque esta Ministra fez o que alguém gostaria de ter feito (o ex-Secretário de Estado Canavarro) ou porque há quem tenha ido a reuniões a que não estava habituado(a) a ir e por isso se sente muito importante nos seus tamanquinhos. Do lado contrário, em baixo, um friso de sindicalistas de que se salva o sempre calmo e ponderado Pascoal, mas em que a monocromia do Avelãs desanima a qualquer alma com uma vaga esperança na salvação do sindicalismo que temos. Para a segunda parte fica a questão do ECD, sobre a qual tenho muita curiosidade em saber a opinião dos dois representantes de Conselhos Executivos.

Aliás, a principal dúvida que me ocorre por estas horas sobre este feliz conúbio entre Ministério e Conselhos Executivos é acerca das reuniões que existiram (ou não) entre estes órgãos de gestão e os docentes das suas Escolas, não apenas para transmitir as ordens de marcha (como tem sido habitual em muitos casos) mas para preparar a descida, ou subida, à capital para as tão elogiadas reuniões de trabalho.

Se concordo, em tese, que os Conselhos Executivos podem ser interlocutores do Ministério mais próximos dos docentes que os actuais sindicatos, isso só é válido se as suas posições nas tais reuniões forem dos docentes que teoricamente representam e não apenas dos elementos dos órgãos executivos.

Porque, não me levem a mal, mas repito que entre tantos cortes, não entrevejo nenhum em relação às prerrogativas e privilégios dos elementos dos Conselhos Executivos, seja obrigando-os a ter actividade docente, seja limitando-lhes os mandatos.

E como uma mão lava a outra, as duas em conjunto conduzem a carroça com maior firmeza.

Paulo Guinote

Muito tem falado a Ministra em tratar as Escolas como “organizações” e que sem isso não é possível que elas funcionem melhor.

Eu até acreditaria se o não visse que na prática aquilo que é feito mais não passa do que a aplicação das técnicas do downsizing empresariais quando os tempos estão difíceis e as estratégias deixam de resultar. Consiste essa técnica em, perante sucessivos erros de gestão e acumulação de prejuízos, utilizar o emagrecimento dos custos com o pessoal a principal estratégia de “recuperação dos resultados”. Quem, curiosamente, nunca é colocado em causa são os responsáveis por essas mesmas estratégias erradas de gestão.

No caso da Educação, desde o ministério de Couto dos Santos sucedem-se erros sobre erros, dos mais variados tipos, desde o errado planemento da rede escolar no caso das antigas C+S (actuais EB2+3) e Secundárias que parece ter sido feito com desconhecimento das tendências demográficas (na área que melhor conheço há casos de Secundárias em excesso em concelhos como o Barreiro que experimentaram uma estagnação populacional desde os anos 80, enquanto existem sobrecargas brutais em zonas como a Quinta do Conde, por exemplo, que viveu uma explosão demográfica no mesmo período), até a concepções profundamente erradas do que deve ser o relacionamento entre os diversos agentes de ensino (neste caso, a lástima maior terá sido a passagem de Ana Benavente pela Secretaria de Estado da Educação e Inovação), não esquecendo ainda a tentativa de aplicação generalizada de modelos experimentais que, em nome da diversidade das experiências pedagógicas, a eliminam.

Mas perante tudo isto, com a evidência do mau resultado das políticas educativas delineadas em gabinetes e remendadas a cada par de anos, opta-se por apontar o dedo aos docentes, meros peões em tudo isto, ameaçados de cima pelo Ministério de ser absentistas, incapazes e bem pagos, e de baixo por Confap’s sempre prontas a acicatar os Encarregados e Educação contra os docentes, ameaçando-os com recursos e participações para Inspecção Geral do Ensino por motivos risíveis, que seria anedótico (mas esclarecedor) enumerar.

A culpa é dos executores, que são maus. Os gestores tinham excelentes ideias, os subordinados é que não as entenderam.

Já alguma vez se procurou inverter esta lógica asinina e procurar detectar nas inflexões e incoerências sucessivas das políticas educativas, a razão para o insucesso? Haveria muito por onde começar, como por exemplo, e nos últimos anos para não ir mais longe, pela alteração na duração das aulas que era para ser aplicada no Secundário e começou pelo Básico, ou pelo perfil das áreas disciplinares novas como e Estudo Acompanhado e Área de Projecto que eram para ser uma coisa, mas depois já eram outra, acabando apenas por ser uma excrescência quase inútil?

E o que interessa mandar reforçar o ensino da Língua Portuguesa e da Matemática, se a formação de docentes nestas áreas para os 1º e 2º ciclos tem sido feita com uma diminuta componente científica no currículo académico dos futuros docentes, em instituições dominadas por algumas das mais ineficazes concepções pedagógicas herdadas dos anos 60 e 70 e daquelas teses, em nome de teses críticas bem pensantes e pseudo-emancipatórias?

Mas tudo bem. Cortem nas regalias do pessoal. Os políticos não têm responsabilidade alguma em tudo isto.

Aliás, em boa verdade, basta analisar o pensamento de muitos deles sobre estas matérias para rapidamente os aceitarmos como inimputáveis.

Paulo Guinote

Parece que a Ministra da Educação vai terminar hoje no Prós e Contras a tournée iniciada a semana passada por vários pontos do país e com várias aparições organizadas na comunicação social para dar a sensação de que tudo corre bem no reino da Educação, que ela afinal até é tão simpática, boa pessoa e compadecida das criancinhas. Só que, como o professor Marcelo Rebelo de Sousa bem destacou. Nota-se muito o desejo de aparecer nas câmaras e a necessidade de manter qualquer tipo de diálogo em moldes controlados. Já sabem a minha opinião sobre o assunto. Um(a testa de ferro tem sempre alguma dificuldade em manter a (com)postura.

Hoje não sei se terei paciência para mais do mesmo. Não sei a lista de presenças, mas quase a adivinho. A malta do costume de um lado e do outro. Argumentos e chavões repetidos à exaustão; impossibilidade de qualquer tipo de diálogo e, se a coisa aquecer, a crispação costumeira por parte de quem não tem o hábito de discutir de forma civilizada e procurando chegar a um qualquer ponto diferente do que se tinha à partida. As trincheiras estão cavadas e arredar pé é sinal de fraqueza.

Sinceramente é um cenário que já me entedia. Espreitarei mas com poucas esperanças e com pouca energia.

Em especial num dia que foi de retoma da actividade docente em pleno e em que, no quotidiano de um estabelecimento de ensino que lida de perto com os problemas da exclusão social, da miséria material e não só, e em que o(a)s docentes funcionam como primeira muralha contra a desagregação e exclusão social, se observa um misto de desejo de fazer mais e melhor e o desânimo do rebaixamento e desdém revelados por uma tutela que, não existindo para defender a classe docente, também não deve existir para a combater. Mesmo quando diz que o não faz. Porque o faz. Denegrindo publicamente a sua imagem. Desinformando a opinião pública sobre os seus rendimentos. Limitando-lhe os horizontes profissionais. Atribuindo-lhe o opóbrio do insucesso educativo.

Este ano tenho apenas duas turmas com as quais irei passar mais um dezena de horas semanais. Turmas pequenas, de miúdos com histórias familiares terríveis e tristes perspectivas de futuro. Alguns irão fazer o 9º ano e com sorte arranjarão um emprego precário, procurarão afogar rapida e imprudentemente a sua carência de afectos e a responsabilidade que se seguirá indicará um caminho estreito a seguir, reproduzindo as situações de violência, de pequena ou média criminalidade e de desafeição que já marcam a sua vida aos 11, 12, 14 anos.

A Escola, saibam-no ou não, apreciem-no ou não, é ainda o último oásis que lhes resta, antes da entrada completa na vida real, sem quaisquer defesas. Ao contrário do que se diz, mesmo quando não entram nas estatísticas do sucesso, houve muitos docentes que tentaram que isso não acontecesse. Mas do que lhes falta em casa, do que a sociedade lhes nega, não podem ser ser os docentes considerados responsáveis, mas isso sim sucessivas vagas de incompetentes governantes, incapazes de promover o desenvolvimento do país e uma distribuição mais equitativa da riqueza, capaz de retirar muitas destas famílias do desespero constante e de uma enorme vulnerabilidade.

Também este ano tenho uma colega, como outros e outras, que está na Península de Setúbal sendo do Porto, fazendo o tirocínio na carreira, no seu primeiro ano, a 350 km de casa, com vinte e poucos anos, lançada numa carreira que já sabe que não se apresenta risonha. Porque, por muita propaganda que se faça para o iludir, a classe docente está amarga e cada vez menos capaz de se conseguir animar. Os mais velhos sentem que uma carreira foi colocada em causa; os mais novos que entram num caminho sem grandes perspectivas, com a maioria condenada a não progredir a partir dos 40 e picos anos.

As salas de professores em muitas escolas estão muito diferentes do que foram. Estão tristes. É certo que existem abusos, laxismos e incompetências várias. Essas são situações a eliminar e o ME deveria intervir para as erradicar. Isso sim, seria louvável. Mas atacar o todo pelos erros de algumas partes? Por isso, muita gente se sente injustiçada de forma imerecida.

Para muitos de nós, este ano lectivo poderá vir a ser marcante nas nossas vidas, e dificilmente pelas boas razões. Porque não se descortina qualquer lógica nesta investida política contra a classe docente que não seja a ditada pelos rigores orçamentais, os rigores que não funcionam nas SCUTS (nos Açores vão ser gastos 325 milhões de euros a destruir paisagem em muitos casos e a enriquecer uma dezena de clientelas), que não funcionam nos aparatos de certos gabinetes do Estado.

Se ao menos se reconhecesse competência técnica e política nesta equipa ministerial, se fosse possível descortinar um pensamento autónomo da contabilidade, se existisse uma linha de rumo verdadeiramente destinada a levantar a Educação do estado a que chegou, talvez alguns sacrifícios fossem suportáveis.

Mas nestes moldes, não. Por isso, este Prós e Contras será, de novo, uma enorme redundância e, a menos que me engane muito e algo de surpreendente surja, uma enorme desnecessidade para todos, menos para equipa que promove a imagem da Ministra.

Paulo Guinote