Quarta-feira, 13 de Setembro, 2006


Depois de lida em papel a entrevista de Maria de Luredes Rodrigues ao Diário de Notícias, ressaltam, por enquanto de forma necessariamente breve (reuniões de arranque do ano lectivo até bem tarde no dia de hoje), algumas ideias básicas:

a) Há uma tentativa incipiente de amaciar a relação com os docentes, desviando as críticas para os sindicatos e tentando capitalizar o descontentamento da classe com o movimento sindical, algo que é conhecido. Dividir para reinar,  parece ser o lema e, como de costume, haverá quem embarque nisso.

b) Mantém-se uma abordagem “organizacional” da Escola, como se ela fosse uma empresa e não um tipo de “organização” diferente, com especificidades que não se podem tratar com estratégias do tipo “se não dás resultados, fechamos-te“, explicitamente adoptada por MLR (cf. p. 2) pois a Educação é um serviço público básico e como tal necessita de uma abordagem ligeiramente mais sofisiticada do que essa, nomeadamente atendendo aos contextos socio-económicos em que se inserem.

c) Insinua-se a adopção de uma metodologia de contratação de docentes, dita “mista”, que pode dar bons resultados em alguns lugares, mas que vai ser uma porta escancarada para atropelos gritantes à equidade de tratamento que o concurso nacional, apesar de tudo garantia. Depois dos anos em que David Justino procurou extirpar o concurso de muitas maleitas que o afligiam – em especial nos “minis” – parece voltar a abrir-se o caminho para os Conselhos Executivos poderem exercer de forma arbitrária poderes na selecção dos docentes. Dir-me-ão que essa é uma autonomia necessária e útil. Pois, será verdade, só que sabemos no que vai acabar. Pior que isso só deixar essa função nas mãos das autarquias.

d) Permanece o hábito da Ministra só responder de forma sorridente a entrevistadores que a entrevistam de forma “sequencial”, seguindo um guião, e não de forma contraditória, desmontando o discurso da Minsitra em matérias onde ela descola da realidade para justificar as suas opções. António José Teixeira, director do DN, é um bom jornalista, sim senhor, mas muito “macio” e pouco belicoso. Algumas questões menos cómodas são enunciadas, mas depois da resposta, não se lá volta mais, talvez por não se perceber que a resposta está só parcialmente correcta ou assneta em argumentações pouco fundamentadas.

e) Por fim e por agora, apenas o interessante facto de serem prometidos melhores salários aos professores no início de carreira, sabendo-se que os quadros estão quase todos a abarrotar, enquanto se volta a revelar serem inegociáveis as medidas que afectam a maioria dos outros docentes, dificultando a sua progressão. Ou seja, promete-se mais aos poucos que têm hipótese de entrar e aperta-se com os que já lá estão dentro e são muitos. É uma habilidade orçamental, nada mais, não obedecendo a qualquer tipo de abordagem séria da questão.

Quanto ao resto, é sempre interessante que na imprensa, estas entrevistas surjam a par da divulgação de dados estatísticos ou indicadores comparativos favoráveis às teses ministeriais. Nunca percebo se a pesquisa para a ocasião foi da iniciativa dos jornalistas se tiveram a sorte de lhes ser apontado o rumo.

Paulo Guinote

Não está completa online, mas mesmo nesse bocadinho justificaria um novo texto com o tema Valerá a pena faltar à verdade?, para isso bastando este excerto.

« Isto de um professor poder chegar ao topo da carreira independentemente da avaliação do seu trabalho e do que fez pelos seus alunos é uma coisa que não existe em profissão nenhuma.»

Esta afirmação é obviamente carente de veracidade, pois todos os anos os professores contratados apresentam relatórios críticos do seu desempenho e os efectivos fazem-nos para mudar de escalão, para além da obrigatoriedade de frequentarem acções de formação creditadas pelo próprio ME, acções essas que também implicam uma avaliação. Se essa avaliação está mal concebida é uma coisa. Agora afirmar que não existe revela profundo desconhecimento da matéria ou, o que é mais credível, evidente deturpação dos factos.

Mas a avaliar por isto é melhor ler a versão completa em papel.

Paulo Guinote