Quinta-feira, 7 de Setembro, 2006


… neste processo negocial em torno do Estatuto da Carreira Docente que, para variar, surge numa versão que parece meramente de obrigações docentes e sem quase nenhuma palavra relativa a direitos profissionais.

Mas adiante.

Há um ano, a Ministra tinha a embalagem de uma campanha de imagem em seu torno que pretendia transmitir-lhe uma aura de reformista esclarecida e implacável, para isso tendo contribuído variada imprensa, muitos analistas convidados, as confaps e alguns micro-sindicatos deste mundo, mais alguns erros crassos da FENPROF, nomeadamente o não se ter sabido antecipar, apresentando uma proposta sua de revisão e preferindo andar em lutas internas no Poder e marcar a desastrada greve em cima dos exames.

Agora, a situação é diferente pois a tal “aura” da Ministra desapareceu com uma sucessão de erros que toda a opinião pública conhece no todo ou em parte: foram os erros nos exames, a repetição arbitrária dos de Física e Química com fundamentação legislativa e política deficiente, foram alguns equívocos no concurso de docentes que infelizmente nem sempre aparecem nas primeiras páginas, é o atraso na divulgação dos estabelecimentos de ensino que efectivamente vão fechar quando o ano lectivo já está no arranque, é ainda a admissão de mau planeamento e car~encias no apoio a alunos com Necessidades Educativas Especiais.

Em algumas destas áreas, a equipa ministerial errou fragorosamente sem ter sido a isso forçada. Errou porque foi incapaz de fazer o seu trabalho como no caso da falta da lista de escolas a encerrar, porque foi incapaz de justificar os seus actos (repetição de exames) ou porque planeou mal a alocação de recursos humanos para apoiar os alunos que mais precisam desse apoio.

Os docentes e os seus representantes nas negociações sobre o ECD (que são os sindicatos à falta de melhores estruturas representativas) deveriam saber aproveitar todos estes deslizes para demonstrarem como a políticfa educativa deste Governo nem as suas próprias ideias consegue concretizar e que parece com uma competência escassa para gerir dossiers razoavelmente complexos sem ser pela via autoritária.

A estridência não é a melhor via, neste caso, para não provocar reacções de afronta e teimosia. O essencial é demonstrar, de forma melíflua mas evidente, as incongruências das medidas propostas em relação aos docentes, em especial a imposição de um mecanismo (necessário, mas não nestes moldes) de avaliação por parte de uma estrutura que ela própria não é avaliada nem penalizada pelos seus sucessivos falhanços, assim como o estabelecimento de limitações artificiais à progressão dos docentes com base em argumentos sem nexo, quando é a própria equipa ministerial que não tem em nenhum dos seus elementos o currículo mínimo para ocupar o lugar que ocupa. Se, como diz a Ministra, nem todos os soldados chegam a generais, como foi que ela chegou a chefe do Estado-Maior sem sequer ter ascendido ainda a oficial?

Por isso, volto a escrever que o essencial da luta se trava ba sensibilização e mobilização da opinião pública demonstrando com clareza e articulação as razões do descontentamento e não meramente gritando-as com a imediata ameaça de greve.

É que, desculpem-me lá, mas se é só isso (greve pura e dura) que conseguem adiantar como “formas de luta” algo anda mal ou ficou parado no tempo. E, por uma vez, quando é que os serviços jurídicos dos sindicatos se ocupam em desmontar as propostas ministeriais em busca de motivos para as bloquear, nomeadamente pela via da inconstitucionalidade (o estrangulamento colocado à progressão, os atropelos ao obrigatório processo negocial)?

Paulo Guinote

… mesmo se forem, como já abaixo escrevi, para discordarmos de algumas perspectivas, seja das mais economicistas e derivadas das teorias do Capital Humano ou das mais envolvidas, e por vezes perdidas, na dialéctica entre o “local” e o “global”.

Paulo Guinote

… sobre Educação a vários níveis, sobre a docência e agora, claro, sobre a revisão do ECD, entre outros assuntos: Aprender a EnsinarConversamos?, Da crítica da Educação…, Educação em DebateoutrÒÓlhar e Vida de Professor.

Podemos não concordar com tudo o que se lê, mas é da discussão e com a discussão que se pode chegar a algum lado.

«A estratégia de diversificação dos apoios incluiu então, entre outros, o pressuposto de que é fundamental ajudar os alunos na aquisição e/ou desenvolvimento de um conjunto de competências básicas e de valor transversal que compõem o ofício de estudante e que são susceptíveis de optimizar o rendimento académico. Tratava-se antes de mais de aprender sobre si próprio, sobre o seu estilo pessoal de aprendizagem, sobre o seu modo de desempenhar o papel de estudante e de, a partir daí, crescer: Como aprendo? Como estudo? Como comunico? Como escuto? Como registo? De que ajudas necessito?» (Ana Carita et alli, Como Ensinar a Estudar, p. 16)

Entre as diversas estratégias desenhadas nas duas últimas décadas para promover o sucesso educativo, através do apoio aos alunos que necessitam de um acompanhamento mais próximo e atento da evolução do seu desempenho no processo de ensino-aprendizagem do que aquele que é possível nas aulas curriculares tradicionais, encontra-se a ideia/prática das “salas de estudo”.Na sua dimensão mais vasta, um projecto de “Sala de Estudo” deve preocupar-se com o tratamento de diversas questões que se revelam de mais difícil resolução numa aula regular com uma turma de mais de duas dezenas de alunos. Quer isto dizer que deve complementar o trabalho dos professores curriculares através do aprofundamento de um trabalho mais individualizado com alunos que revelem desde ritmos e estilos de aprendizagem muito próprios, até Necessidades Educativas Especiais, não esquecendo aqueles a quem, por vezes, falta fundamentalmente um espaço para fazer os seus trabalhos e um apoio humano para orientar o seu estudo.Numa outra vertente, a sala de estudo pode funcionar como um espaço de reflexão sobre a própria aprendizagem e os seus mecanismos, visando o desenvolvimento da “metacognição” nos alunos, levando-os a apropriarem-se de instrumentos para melhorarem o seu desempenho e a aperceberem-se do que necessitam para melhorar a sua própria aprendizagem.No fundo, a sala de estudo deve funcionar como um instrumento destinado a satisfazer as necessidades dos alunos que, tanto ao nível da sala de aula regular como do próprio ambiente familiar, experimentam um qualquer tipo de carência que prejudica a devida concretização de todas as suas capacidades e o seu desempenho ao longo do processo de ensino/aprendizagem. Nesta perspectiva, os objectivos específicos de cada caso particular de uma sala de estudo devem responder às necessidades educativas experimentadas na comunidade escolar em que se insere, assim como as suas condições de funcionamento devem ser delineadas de acordo com as soluções mais adequadas para resolver as necessidades em causa.

As palavras que se seguem para o trabalho dos professores aplicam-se na perfeição de igual forma ao funcionamento de uma sala de estudo, em particular no que se refere à necessidade de um rigoroso conhecimento das situações a trabalhar e dos problemas a resolver com os alunos

«Para ser eficiente, o professor deve determinar o nível de desenvolvimento dos seus alunos, utilizar estratégias conducentes à melhor e mais fácil aprendizagem por parte destes, e ajudá-los a aprender consoante as suas capacidades.

(…) Se o professor não conhecer bem o desenvolvimento intelectual dos seus alunos, pode levar a cabo as aulas mais interessantes e estimulantes que possa imaginar que, mesmo assim, a maioria dos alunos dificilmente conseguirá atingir os objectivos previamente estabelecidos. E se os aluos não tiverem capacidades para a compreensão dos trabalhos propostos e/ou dos assuntos novos a apresentar, então a aprendizagem será nula.» (Jorge A. S. Antão, Comunicação na Sala de Aula, p. 24)

Paulo Guinote