Segunda-feira, 4 de Setembro, 2006


«Com o surgir da liberdade, a educação social tem uma tarefa muito diversa da antiga e muito mais importante. Ela deve ter sempre presente que a sociedade é uma organização ética, que não existe separada dos indivíduos que a compõem, mas consiste na vontade de se unirem e cooperarem para o bem comum, e por isso, longe de lhes fazer perder a liberdade e a autonomia e de os transformar em autómatos dóceis e passivos, deve tender a conservar e a reforçar a sua personalidade, E com tanta mais razão o deve fazer, quanto a transmissão passiva da tradição e a sujeição completa ao costume e à lei não tolhem sómente a liberdade, mas também a actividade do indivíduo (…).» (p. 63 da obra ao lado, cuja 3ª edição nacional é de 1923).

Em Espanha o número de imigrantes aumenta de forma exponencial e isso reflecte-se de forma evidente no sistema escolar, principalmente nos grandes centros urbanos. De acordo com os elementos veiculados pelo ABC do passado sábado, só do ano lectivo transacto para este, o contingente de alunos de origem estrangeira aumentou mais de 10% na zona de Madrid e quase atinge as 115.000 crianças, tendo mais do que triplicado deste o início do século.

Sendo na maioria marroquinos, romenos e equatorianos, constituem uma mescla cultural que coloca evidentes problemas à sua integração no sistema de ensino regular, exigindo um variado conjunto de mecanismos e pessoal de apoio especializado. Para além disso, os riscos de exclusão social são imensos, devido à precaridade socio-económica de muitas das famílias destas crianças.

Entre nós, durante muito tempo este problema colocou-se principalmente em relação a crianças de famílias originárias dos PALOP. Mas agora e cada vez mais confrontamo-nos com alunos de outras origens, dos chamados países de Leste ou da China. O curioso é que, apesar da barreira cultural e linguística, estes alunos tendem a apresentar um rendimento escolar acima da média e um comportamento na sala de aula que revela hábitos de auto-disciplina que são raros nos alunos indígenas.

Nestes casos, mais do que integrá-los há que os valorizar e, muitas vezes, usá-los como exemplo de quem, mesmo perante situações adversas, luta por vencer e destacar-se. E fazer isso perante os que, dando por adquirida a facilidade, não se esforçam minimamente por merecer aquilo que os docentes quase são obrigados a dar-lhes de mão beijada.

Porque a verdade é que se temos maus desempenhos comparativos em termos de rendimento escolar, não nos devemos iludir: a culpa não é dos docentes, esses malandros, é do desleixo com muitos grupos sociais encaram a Escola, especialmente a pública, uns porque a desdenham e preferem o sector privado onde os hábitos de rigor são regra e são apreciados, outros porque não encontram sentido num sistema que cada vez obriga mais a nivelar pela mediocridade e não estimula a excelência.

Paulo Guinote